IMHO

Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães




Funny Games U.S. ★ ★ ★ ★

Michael Haneke. EUA/França/Reino Unido/Áustria/Alemanha/Itália, 2007

Um dos posts mais visitados desse blog é entitulado "Jogos sádicos, cruéis, mortais e muito divertidos", sobre o filme Jogos Mortais (valeu, google Analytics). O que leva essa curiosidade mórbida do ser humano a procurar conteúdo violento? O que gera essa atração a filmes repulsivos e moralmente questionáveis como Jogos Mortais e O Albergue, em que a maior diversão é presenciar a tortura dos personagens - e se durante a projeção, eles perderem partes do corpo, tanto melhor?

Com essas perguntas na cabeça, o diretor Michael Haneke lançou em 1997 o longa "Violência Gratuita" (Funny Games), com o objetivo de fazer o público, notadamente americano, refletir sobre o sentido de assistir a certos tipos de terror. Percebendo que não tinha atingido seu objetivo (o filme original foi rodado em alemão e ninguém nos US-and-A perdeu seu tempo vendo o filme - e por que perderia, se na sala ao lado estava passando Pânico 2, passatempo muito melhor?), Haneke decide refilmar Funny Games, desta vez em inglês. Aposto que os americanos vão continuar sem ver o filme, mas tudo bem.

A história gira sobre uma perfeita família feliz americana, daquelas de propaganda de margarina. Pai, mãe e filho vão passar umas férias na casa do lago quando são feitos de refém por dois jovens psicopatas. A partir daí, eles começam uma série de "jogos divertidos" que de engraçados, não tem nada. Haneke não poupa nem o cachorro da família.


Pitt flertando com o espectador

Para apimentar as coisas, o diretor alemão trata o espectador como "cúmplice" dos psicopatas. O personagem vivido por Michael Pitt, em performance assustadora, conversa com a gente e fala em "entretenimento". Não deixa de ser verdade. Quando Haneke faz um rewind no seu próprio filme, não só parece uma coisa "esperta" de fazer, mas induz questionamentos (claro, a quem se deixa induzir) sobre como um final "feliz" redimiria aquela longa sessão de tortura. Haneke não procura a redenção, como manda a cartilha do horror americano.

É uma pena que seu filme não leve a nenhuma resposta. Por que o horror atrai? Não faço a menor idéia. Mesmo tendo certeza de como o filme terminaria, me submeti à sessão de tortura de Haneke que, graças às intensas atuações do elenco formado por Naomi Watts, Tim Roth e o jovem Devon Gearhart, ganha contornos incrivelmente reais, apesar de pouca violência explícita (ainda bem). Ok, se eu consegui ver Funny Games até o fim, deve ter algo de errado comigo. Mas não é por isso que eu vou deixar de ver Jogos Mortais 5.



Foi divulgada hoje a lista de filmes do 61o. Festival de Cannes. E o que tem de legal nele? Vamos por partes.

1. O Poster. Sim, pessoal, o poster diz muito sobre o Festival. A foto é de ninguém menos que David Lynch, o favorito deste blog, com design gráfico de Pierre Collier. Dizem os entendidos que a foto de Lynch dará o tom do festival desse ano. Esperamos que sim.

2. O Júri. Presidido por Sean Penn, aquele que dava porrada na Madonna e dirigiu um dos melhores filmes do ano passado, Into The Wild. Mas não só tem ele de interessante, não. Fazem parte do júri a doce e encantadora Natalie Portman, atriz israelense (ha!, aposto que você não sabia disso); Alfonso Cuarón, diretor do melhor Harry Potter so far (o 3o.) e do ótimo Filhos da Esperança. Não posso me esquecer de citar também Apichatpong Weerasethakul, diretor thai. Nunca assisti a nenhum filme dele (eu sei que estou perdendo), mas não posso deixar de admirar alguém com um nome assim. Naquelas comunidades do orkut de cinéfilo, tinha um daqueles tópicos cretinos e divertidíssimos chamado "Digite Apichatpong Weerasethakul com o cotovelo".

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3. Os Filmes. Os mesmos diretores de sempre, claro. É Cannes, não é mesmo, minha gente? Mas uma coisinha ou outra chama a atenção.

Changelling - Filmão do Clintão Eastwood (porque é sempre no aumentativo quando se trata de Clint), com Santa Angelina no papel principal. Dois nomes de peso, pra que lado a balança vai pender?

Synedoche, New York - É a estréia como diretor de Charlie Kaufman, um dos roteiristas favorito do IMHO. Se você nào sabe quem é, se joga da janela assista a Adaptação, Quero Ser John Malkovitch e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrnaça, três grandes filmes escritos por ele. No elenco, está Philip Seymour Hoffman, garantia de qualidade.

La Mujer Sin Cabeza - 3o. filme da diretora argentina Lucrecia Martel. E se você não sabe o que tem demais no nome Lucrecia Martel, assista a La Ciénaga e La Niña Santa. É nada mais nada menos que uma das diretoras mais promissoras da atualidade, uma das favoritas de Almodóvar e certamente deste blog aqui. Não sei muito do que se trata o filme, mas o título é interessante.

Linha de Passe - Eeeeeeeee! Viva o cinema nacional. Walter Salles está de volta em Cannes, dessa vez acompanhado por Daniela Thomas. A sinopse é meio eca: uma história sobre quatro irmãos de uma família pobre que precisam lutar para conseguir seus sonhos. E quem não precisa, não é mesmo (se você não for filho do Bill Gates ou do Carlos Slim). Mas quem sabe no que vai dar? Salles encantou o mundo com seu Central do Brasil, vamos ver se ele consegue o feito (e no elenco, o mesmo Vinícius de Oliveira).

My Magic - Seria mais apenas um filme cult asiático se não fosse dirigido por Eric Khoo. Todo mundo repetindo, Khoo, Khoo, Khoo. Eric fuckin' Khoo. Aparentemente, Khoo (impossível não rir) é um importante diretor da Singapura. Será que o filme dele fará jus ao seu nome? Basta de humor por hoje.

Che - Steven Sorderbergh alterna projetos blockbuster tipo Ocean's 11 + n com filmes mais ambiciosos. Este aqui parece ser um deles. 4 horas de duração? Oh fuck. Já ia dizer que esse ano os filmes de Cannes eram todos curtinhos, aí vem o Sord com um filme de 4 horas. Nem precisa dizer que geral vai sair na metade do filme. No elenco, Benicio del Toro e Catalina Sandino Moreno, a eterna Maria Cheia de coca Graça.

Lista Completa
Nuri Bilge - CEYLAN ÜÇ MAYMUN (THREE MONKEYS) - 1h49
Jean-Pierre et Luc - DARDENNE LE SILENCE DE LORNA - 1h46
Arnaud DESPLECHIN - UN CONTE DE NOËL - 2h30
Clint EASTWOOD - CHANGELING - 2h20
Atom EGOYAN - ADORATION 1h40
Ari FOLMAN - WALTZ WITH BASHIR 1h27
Philippe GARREL - LA FRONTIÈRE DE L'AUBE 1h40
Matteo GARRONE - GOMORRA (Gomorrah) 2h15
JIA Zhangke - 24 CITY - 1h47
Charlie KAUFMAN - SYNECDOCHE, NEW YORK - 1st film 2h04
Eric KHOO - MY MAGIC - 1h15
Lucrecia MARTEL - LA MUJER SIN CABEZA - 1h27
Brillante MENDOZA - SERBIS - 1h30
Kornel MUNDRUCZO - DELTA - 1h32
Daniela THOMAS, Walter SALLES - LINHA DE PASSE - 1h48
Steven SODERBERGH - CHE -4h00
Paolo SORRENTINO - IL DIVO - 1h50
Pablo TRAPERO - LEONERA - 1h50
Wim WENDERS - THE PALERMO SHOOTING - 2h04

Ah, Matheus Natchergaele conseguiu emplacar sua estréia na mostra paralela Un Certain Regard. Mais pontos pro cinema nacional.

Alguém sabe como eu descolo convites pra Cannes? Sabe como é, o festival é logali [/vanucci]. Quem sabe, eu não dou um pulinho...

EDITADO: Nosso amigo Fernando Meirelles vai abrir o festival com a versão cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira, do mestre Saramago. Imperdível!


O Que Você Faria? ★ ★ ★ ★
Marcelo Piñeyro. El Metodo. Espanha/Itália/Argentina, 2005

Certamente dinâmicas de grupo não figurarão nunca na lista das minhas coisas favoritas. Arranjar um bom emprego hoje em dia já não é tarefa fácil. Ter que lutar pelo posto em uma sala com pessoas igualmente qualificadas, através de joguinhos questionáveis como "vamos construir um castelo" e ser analisado pelas pessoas de RH (geralmente profissionais abomináveis) torna tudo muito mais desagradável.

Partindo da idéia de que no mundo capitalista globalizado, as noções de ética se confundem no momento de selecionar e conseguir um emprego, o espanhol Jordi Galcerán escreve a bem-sucedida peça El Metodo Grönhol, que vira filme através das mãos de Marcelo Piñeyro. A história é a seguinte: um grupo de executivos concorrem à um alto posto numa empresa espanhola. Eles são convocados a uma dinâmica de grupo e se vêem presos numa sala. Logo descobrem que um deles pode não ser um candidato, mas sim uma pessoa do RH empresa. A partir daí, eles enfrentarão uma série de tarefas que eliminarão os candidatos um a um. Pra Big Brother nenhum botar defeito.

Piñeyro acrescenta doses de ironia ao contextualizar o dia da dinâmica numa reunião do G8 em Madrid, marcada por fortes protestos populares, enquanto o grupo de aspirantes ao cargo passam por provas que desafiam a moral e a ética, o que nos leva à pergunta: valeria trabalhar em uma empresa como aquela? (se o salário for bom, pagar 14o., bônus anual e algumas férias, sim). A decisão de nunca falar sobre a área de atuação da empresa nem mesmo o cargo pretendido mostra-se acertada ao generalizar a crítica ao mundo corporativo.

Ao mesmo tempo, o texto rápido e preciso (cuja teatralidade é clara) traz realismo e, porque não, emoção à dinâmica. O elenco é uniformemente competente, mas com destaque para a irritante profissional de RH interpretada por Najwa Nimri e o candidato Ricardo (Pablo Echarri), que precisa esconder o passado sindicalista para conseguir a vaga.

É claro que nem tudo são flores, o roteiro às vezes soa esquemático e o desenrolar da história bastante previsivo. Por outro lado, a origem teatral do filme é bem transportado para as telas. A limitação dos cenários e atores conferem um clima intenso à dinâmica do filme, intensidade que se mantém até o fim. E a triste beleza do plano final conclui O Que Você Faria com chave de ouro. Ainda bem que o salário compensa o sofrimento trazido pelo capitalismo.



Sim, mas essa é escocesa e está na linha pop/folk. Amy MacDonald fez a melhor música que eu ouvi nos últimos tempos, This is The Life, que dá título ao seu CD de estréia. O refrão "And you're singing the songs/ Thinking this is the life/ And you wake up in the morning and your head feels twice the size/ Where you gonna go? Where you gonna go?/Where you gonna sleep tonight?" não sai da minha cabeça. O CD está cheio de baladas deliciosamente melancólicas, como Footballer's Wife.

Pra quem gsota de KT Tunstall, é uma ótima pedida. Outra Amy pra ser admirada.


Clip de This is the Life



Um Beijo Roubado
★ ★ ★ ★

Wong Kar Wai. My Blueberry Nights. Hong Kong / China / França, 2007

Me apaixonei pelo cinema de Kar Wai ao assistir a seu magnífico Amor à Flor da Pele com seus intricados planos, atmosfera, diálogos e personagens. Me apaixonei por Norah Jones ao ouvir sua voz em Come Away With Me, mas principalmente, em Feels Like Home, meu favorito. Foi com grande interesse que fui conferir a união desses dois grandes artistas. O problema é que o resultado estava longe de ser um sucesso garantido: sabe-se lá o que seria do cinema de Kar Wai fora da China. E será que ele conseguirá fazer Norah Jones atuar?

Minhas preocupações se foram logo depois da primeira cena. Um Beijo Roubado é o bom e velho Kar Wai de sempre, onde os personagens comem (ou bebem, ou jogam) enquanto conversam e se apaixonam. O filme é basicamente uma sucessão de enquadramentos um mais bonito que o outro, com uma história bacaninha: uma garota (Jones) sofrendo de desilusão amorosa, resolve sair por aí - e no caminho encontra um policial alcólatra (David Strathairn) e uma jogadora viciada (Natalie Portman). Jones, em meio a nomes como Jude Law e Rachel Weisz, até que não faz feio. E mesmo se fizesse, não ia sair na fotografia exuberante de Darius Khondji.

Kar Wai já escreveu personagens melhores e mais interessantes, mas Um Beijo Roubado é ainda assim um belo exemplar de sua deliciosa obra, e serve como aperitivo para suas obras mais fascinantes.




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