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Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães


Desejo e Reparação ★ ★ ★ ★ ★
Joe Wright. Atonement. EUA/França, 2007

A maioria dos filmes chega aqui na Itália com muito atraso. Rataouille só estreou semana retrasada, para citar um exemplo. Geralmente é por causa do processo de dublagem que leva algum tempo (sim, todos os filmes que estréiam no cinema aqui são dublados). Assim, é com muita felicidade que eu fui ver Espiazione antes mesmo de ser lançado no seu país natal, isso graças ao Festival de Veneza.

Para a maioria dos mortais, o nome Joe Wright não causa nenhuma empolgação. Por que eu fui ver Desejo e Reparação com tanto entusiasmo? Porque simplesmente adorei Orgulho e Preconceito, um dos melhores filmes românticos dos últimos tempos (e olha que não sou grande fã do gênero) e o primeiro longa-metragem de Wright.

Desejo e Reparação segue uma receita parecida: coloque Keira Knightley no papel feminino principal, adapte um romance de época (dessa vez o livro de Ian McEwan), adicione imagens belíssimas e o resultado é sucesso garantido.

Mas Wright não se contenta com sua própria receita e vai além. Ele adota uma estrutura narrativa mais ousada, permitindo idas e vindas no tempo ao ilustrar diversos pontos de vista dos personagens principais. O filme conta a história de como a garota Brione (Saoirse Ronan) e sua imaginação fértil influencia o destino da sua irmã mais velha Cecilia (Knightley) e seu amante Robbie Tunner (James MacAvoy), ao acusá-lo de um crime que ele não cometeu.

Como toda boa injustiça gera simpatia, o público imediatamente torce pelo casal de protagonistas. Mas o que chama a atenção é a história de expiação de Brione, interpretada com intensidade pelas suas 3 (!) intérpretes. Com essa surpreendente ênfase, Desejo e Reparação deixa de ser um dramalhão amoroso e transforma-se numa bonita história da busca da redenção de um erro infantil.

Wright corrobora seu talento de criar belas imagens. Chama atenção a tomada contínua de quase 5 minutos em uma praia (não consigo nem imaginar o trabalho que deu para dirigir aquilo tudo).

Ainda é cedo para falar sobre premiações, mas Desejo e Reparação tem cara de Oscar, cheiro de Oscar e atuações também dignas de Oscar para Knightley, McAvoy, Ronan e Romola Garai, que interpreta Brione com 18 anos. Mas certamente ficarei chateado se a trilha sonora e a fotografia não ganharem indicações para o ano que vem. Raios, que Desejo e Reparação concorra a todas as outras categorias e ganhe tudo. Por enquanto, é o que mais merece.

E se os próximos filmes de Joe Wright forem baseados em romances de época com a Keira Knightley, assistirei a todos eles com grande entusiasmo.

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Sim, é comédia

O Grande Chefe ★ ★ ★ ★
Lars von Trier. Direktøren for det hele. Dinamarca/ Suécia/ Islãndia/ Itália/ França/ Noruega/ Finlândia/ Alemanha, 2006

Não é à toa que Lars von Trier é o diretor dinamarquês mais conhecido do mundo. Após aloprar o cinema com o movimento Dogma 95, fez o musical-mais-bonito-do-mundo Dançando no Escuro (mesmo com as escandalosas brigas com a estrela Björk), polemizou com a trilogia Estados Unidos: Terra das Oportunidades, do qual já lançou Dogville e Manderaly. E agora, filma uma "simples" comédia, para passar o tempo, enquanto não filma Wasington.

Mas seria muita ingenuidade achar que uma comédia de Lars von Trier não estaria envolvida em alguma polêmica. Até o espectador mais incauto vai notar alguma coisa de esquisito na montagem do filme, nos cortes abruptos no meio do diálogo e até mesmo na posição das câmeras. Mas não dará importância. Se você, no entanto, tiver curiosidade de dar uma olhadinha no imdb, vai descobrir que o diretor usa uma técnica inovadora chamada Automavision, em que ângulos e movimentos de câmera são selecionados pelo computador. Enfim, um prato cheio para a crítica que odeia o espertinho do von Trier.

Não é o caso desse blogueiro. Antes de partir para a direção, digamos, "cômoda", von Trier teve o trabalho de escrever o roteiro - e neste caso, não há nada para reclamar. O filme é uma deliciosa comédia sobre o mundo corporativo. Um ator, Kristoffer (Jens Albinus), é contratado para interpretar o presidente de uma empresa de IT cujo fundador, Ravn (Peter Gantzler), não era suficientemente seguro para assumir tal posição - por isso, cria a figura de um presidente "virtual", desconhecido de todos os outros sócios. Eis que Ravn recebe a proposta de venda da companhia, e finalmente precisa da figura do "grande chefe".

É claro que Kristoffer não tem idéia do que é ser o CEO de uma empresa de IT e é daí que decorre boa parte do humor do filme. Von Trier desenvolve coadjuvantes na medida para criar gags divertidas, ao mesmo tempo em que os personagens principais passam por um curioso confronto de interesses. Albinus tem um ótimo timing cômico e conquista pelo jeito cafajeste com bom coração.

Engraçado sem soar estúpido, o novo filme de von Trier é uma simples e agradável comédia de escritório, coisa que eu nunca imaginei escrever sobre o diretor. Não deixa de ser uma boa surpresa.

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Nunca mais falei sobre música, não é mesmo? Hora de reparar essa mancada.

The New Bossa Nova ★ ★ ★
Luciana Souza.
2007

Luciana Souza é uma das melhores cantoras brasileiras da atualidade. (Por sinal, uma de suas músicas, "Muita Bobeira", CD Duos II, vem junto com o novo Windows Vista versão brasileira). E como toda boa cantora brasileira, é pouco conhecida entre nós. Mas lá fora, goza de prestígio. Já foi indicada a 2 grammies de jazz. Atualmente Souza mora nos Estados Unidos.

Após dois ótimos CDs (Brazilian Duos e Duos II), Souza decepciona com The New Bossa, disco repleto de canções americanas (apenas uma brasileira com letra em inglês, Waters of March), em ritmo de bossa nova. Seu disco está repleto daquela bossa fque soa fake, feita por americanos e para americanos ouvirem enquanto jantam em suas casas. Culpa em parte do repertório. São nomes do calibre de Joni Mitchell, Leonard Cohen, Sting, etc., o que não quer dizer que suas músicas fiquem bem numa roupagem bossa nova.

Não que o CD seja ruim. A voz de Luciana é doce, pura, delicacda e afinadíssima. Ela extrai sentimento das belas canções de Mitchell (Down to You) e James Taylor (Never Die Young), mas falta "tempero" na maioria das faixas. Luciana canta melancolia, tristeza e chatice.

O produtor do disco é Larry Klein, marido de Souza, que produz também Madeleine Peyroux e Joni Mitchell. A sonoridade lembra, não por acaso, algo do disco novo de Peyroux (Half the Perfect World), que também transforma em bossa uma canção de Cohen. Peyroux tem a desculpa de ser americana e apenas flertar com a bossa, o que não se aplica a Luciana.

Desprovida de música brasileira, de músicos brasileiros (à excessão de Romero Lubambo no violão) e de produção brasileira, Luciana Souza perde aquilo que é o seu melhor. Se isso que ela canta é a nova bossa nova, espero que ela volte cantar a velha, que é sempre boa.

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