Jane Monheit
Jane Monheit é a minha cantora favorita e eu não poderia deixar de comentar o seu novo cd.
O flerte de Monheit com a música brasileira é antigo. Desde o seu primeiro CD, percebe-se a influência da bossa nova em sua carreira. Dindi, de Tom Jobim, e So Many Stars, de Sergio Mendes, estão registrados no álbum Never Never Land; Waters of March (Jobim) no segundo álbum, Come Dream With Me. No terceiro, seu gosto é escancarado: em pé de igualdade com standards jazzísticos como Cheek to Cheek e Tea for Two estão No More Blues, versão em inglês para Chega de Saudade, de Jobim e Começar de Novo de Ivan Lins, cantado em português. Além disso, ela canta em duo com Lins a faixa-título do CD, também de sua autoria.
No entanto, ela teve que deixar de lado a música brasileira nos seus dois CDs seguintes, na gravadora nova, a Sony. Seu quarto álbum, Taking a Chance on Love, é composto de gravações de velhos standards de musicais da MGM. A bossa, no entanto, está presente na versão de In The Still of the Night. O quinto CD, The Season, é composto de clássicos natalinos, e a música brasileira é deixada definitivamente de lado.
Não gastei dois parágrafos à toa para falar que o flerte de Monheit com a música brasileira é antigo. Ela mesma me disse que ama o Brasil e que vem ao nosso país quase todo ano (momento eu-sou-chique-e-já-conversei-com-J-Mo). Talvez seja um pouco de exagero, mas há quem creia que Surrender seja um defining moment da carreira da jovem cantora americana. Monheit, dona de um belíssimo tom de voz avelulado, supera uma fase em que já foi criticada por um estilo cabaret, e entra num ambiente em que sua voz tão bem se adequa.
Jane agora faz parte do catálogo da Concord Records, gravadora especializada em jazz. A julgar pelo novo álbum, a decisão de mudar de casa foi acertadíssima. Jane faz um disco que é a sua cara. O CD começa com a bossa calma de Marcos Valle, If You Went Away, versão de Preciso Aprender a Ser Só. Nota-se desde o início o cuidadoso trabalho com a orquestração. A faixa-título, Surrender, é um belo samba lento em 3 tempos, escrito pelo seu preparador vocal, Peter Eldridge.
Jane, que já declarou achar divertido cantar em português, mostra um sotaque cada vez menos carregado na sua versão sensual de Só Tinha De Ser Com Você, e a romântica Caminhos Cruzados, ambas de Jobim. Arranjos sofisticados provém de sua banda composta de Michael Kanan no piano e órgãos, Orlando Le Fleming no baixo, Miles Okazaki nas guitarras e o maridão Rick Montalbano na bateria.
Monheit convida novamente Ivan Lins, seu compositor favorito e amigo, para um dueto em Rio de Maio, também em português. Lins parece estar bombando na América - ele também gravou uma faixa em dueto com Michael Bublé no seu último CD. É o Paulo Coelho da música. Outros convidados importantes são Sérgio Mendes na regravação de So Many Stars, em que ele arranja sua própria composição e toca piano. Em Caminhos Cruzados, ouve-se a harmônica de Toots Thielemans.
O ponto alto do CD, no entanto, é a rendição de Moon River, em que Monheit mostra a intérprete que é: total controle nos vibratos, altura, intensidade, afinação e, (last but not least) e emoção que transparesce em seu fraseado impecável. Arrisco a dizer que é a versão definitiva dessa música.
Pra não parecer que eu fui pago pra falar bem do CD (quem me dera), achei um erro terminar o CD com A Time For Love. Jane é uma cantora excelente, mas às vezes sente-se uma falta de conexão com uma música, o que acaba por torná-la esquecível, ainda que consideremos todos os seus predicados vocais. E é esse o pecado desta faixa.
Mas não dá pra pegar muito no pé de Jane Monheit. Quando ela "erra", ainda assim podemos ouvir seu belo instrumento cantando afinadamente e com um arranjo sofisticado. Quando ela acerta, o resultado é algo que varia do sublime ao inesquecível.
Não sei qual a versão do CD será vendida no Brasil, mas algumas vem com faixas-bônus dependendo da loja em que se compra. A versão que eu ouvi vem como bônus Alfie, de Burt Bacharach. E isso sim é final de CD. Piano, voz e muito sentimento. De presente para vocês:
Download
Marcadores: jane monheit, jazz, música
Seus problemas acabaram. Pelo menos nessa semana.
Tia Dalma é diva!
Piratas do Caribe - No Fim do Mundo ★ ★ ★ ★
Gore Verbinski. Pirates of the Caribbean - At World's End. EUA, 2007
Muitos filmes de fantasia tem feito relativo sucesso nos últimos anos. Menções óbvias são a franquia Harry Potter e O Senhor dos Anéis, aprovadas por público e crítica; outras incursões no gênero, como As Crônicas de Nárnia e Eragon, não ficarão exatamente lembradas como maravilhas da 7a. arte. Além dessas, no final do ano estréia a primeira parte da trilogia Fronteiras do Universo, que promete ser um dos melhores filmes do ano.
Todos os filmes supracitados, além do gênero Fantasia em comum, foram baseados em livros de bastante sucesso. Sem desmerecer suas origens literárias, o fato é que, às vezes, nada melhor do que uma solução "cinematográfica" para a imagem de um filme, coisa que uma descrição no livro não sempre consegue alcançar. Já diziam que uma imagem vale mais que mil palavras.
Pois Piratas do Caribe é uma série feita para o cinema que veio suprir a lacuna deixada por Star Wars no filão aventura fantástica, ainda que trate de temas, contextos e histórias completamente diversos. E o que eu mais gosto da série é que está repleta de soluções cinematográficas: desde personagens grotescos, como um homem-polvo, até baatlhas inimagináveis, porém perfeitamente executadas como o embate entre dois navios-pirata num redemoinho, no meio de um oceano em tempestade. Muita criatividade mais dinheiro praticamente infinito é a fórmula do sucesso obtida pela franquia da Disney.
O terceiro filme da série mantém a tradição da série em incluir uma variedade de MacGuffins, paisagens fantásticas, criaturas fantásticas, muitas reviravoltas e piratas sujos com dente podre. Me agrada em Piratas do Caribe a ausência de um maniqueísmo típico do gênero. Neste, os personagens são motivados pelos mais diversos interesses, introduzidos já na seqüência inicial. Temos a jovem Elizabeth Swan (Keira Knightley) que quer salvar seu amado Will Turner (Orlando Bloom) e se redimir por ter deixado Jack Sparrow (Johnny Depp) ser engolido por uma besta marinha no último longa; Turner, por sua vez, quer salvar seu pai de sua "condição", e por aí vai. Aprendemos que um vilão com tentáculos pode amar profundamente enquanto um certo casal supostamente consolidado podem acabar em lados opostos. O inesperado não raro acontece em Piratas 3, com suas subtramas desenvolvidas e resolvidas ao longo do filme, sem nunca quebrar seu ritmo de ação quase non-stop.
Gore Verbinski capricha em seus belos travellings e cenas de ação alucinantes. Além disso, o eclético diretor consolida o talento para dirigir seus atores com timing perfeito e tiradas sensacionais, geralmente vindas de Sparrow ("Isso é Política", após uma briga colossal entre piratas num Conselho). Ao mesmo tempo, o que eu chamei de "dinheiro infinito" - custou $ 200.000.000,00 - é aplicado na criação de cenas de batalha absurdamente bem realizadas, me levando a acreditar que não exista mais nada que não possa ser filmado.
É interessante notar também o destaque dado aos personagens. Parece que cada um tem o seu momento de brilhar. Chow Yun-Fat é a nova "aquisição" da série e interpreta um perigoso pirata chinês. Naomie Harris tem sua participação ampliada graças ao seu talento em compor a misteriosa Tia Dalma . Bill Nighy é um show a parte com seu Davy Jones cara-de-polvo (Piratas 3 ganhará mais um Oscar de melhor efeito visual). Mas a maior estrela, nesse terceiro filme, não é outra senão a maravilhosa Keira Knightley, quase-ganhadora do Oscar de melhor atriz por Orgulho e Preconceito, tem seu potencial finalmente aproveitado pelo filme, que a coroa como "a rainha dos mares".
Já Sparrow/Depp é um capítulo a parte. Verbinski & cia. felizmente mantiveram a decisão de não carregar sua participação no filme. É claro que ele está nos momentos cruciais e serve como alívio cômico em tantas situações, mas transformá-lo em protagonista seria o mesmo que comer pão com muita nutella, na falta de comparação melhor para o momento. Acabaria enjoando e faria mal para a saúde.
É claro que, com tantos elementos e reviravoltas, nem tudo funciona bem. O MacGuffin chamado Calipso (calma, não veio do Pará) não tem nenhuma utilidade prática na trama. E um outro personagem (não vou contar quem é, mas será óbvio depois de assistir ao filme), supostamente relevante, acaba sendo apenas uma figura interessante em tela, mas sub-utilizado pelo roteiro. Talvez numa futura continuação...
Ainda assim., o interessante em Piratas do Caribe é que ele se baseia em lendas do mundo da pirataria, mas a própria trilogia, vista como uma história única, parece mesmo uma daquelas histórias fantásticas e inacreditáveis repletas de personagens míticos, em que só Cinema é capaz de tornar crível. Com seu final tragicamente feliz (?), No Fim do Mundo encerra um ciclo de ótimos filmes de aventura e faz com que desejemos rever aqueles personagens já tão marcantes. Se depender dos milhões de dólares arrecadados em bilheteria, certamente uma próxima trilogia é garantida.
Até a próxima, Capitão Sparrow!
Homem-Aranha 3 ★ ★ ★
Sam Raimi. Spider-Man 3. EUA, 2007
Conversei com algumas pessoas que já tinham visto o filme antes de mim e todos me falaram para diminuir as expectativas, pois esperavam mais do terceiro filme da saga. Após assistir ao filme, confesso que eu esperava menos.
Menos personagens. É um entra-e-sai de gente danado, cada um com seus dramas e suas subtramas, que acabou sobrecarregando o filme, deixando-o longo e com um ritmo irregular. Tudo bem, não chega a ser um Batman Forever da vida, mas são 3 vilões, cada um com sua história a ser desenvolvida e a necessidade de dar um fim à mesma. Uma enxugada na trama ajudaria a melhorar o ritmo e a paciência do espectador agradeceria.
Menos lágrimas. O final do filme quer fazer o espectador chorar de qualquer forma e não é todo mundo que tem uma alma tão sensível assim (eu me incluo nessa categoria). É trilha sonora piegas de um lado, declarações de amor e amizade de um outro, redenção, pedidos de perdão, despedidas - e o resultado não poderia deixar de ficar forçado.
Menos exagero. Após dois filmes tentando humanizar o Peter Park, apresentando-o como um ser humano e por isso falho, tal proposta realista é deixada de lado nesse filme. A cena de dança num bar de jazz ficou divertida, mas foi filmada em tons tão irrealísticos que parecia outro filme. Sam Raimi carrega seus filmes com cenas de uma artirficialidade contrastante com a proximidade herói-espectador dois dois primeiros filmes.
Nunca fui um leitor das historias em quadrinho, mas o argumento do filme também não me parece muito sólido. Aí vai: uma meleca preta chega do espaço num cometa, gruda na motoca do Aranha e um belo dia, quando ele está revoltado da vida, ela gruda nele e o deixa malvado. Tudo isso para mostar o lado "negro" do rapaz, que existem em todo mundo - mas nesse caso, qualquer semelhança com Star Wars e mera coincidência. A forma como Parker "se livra" da meleca também soa nada casual. E ainda por cima, alguns "desvios" de conduta (como o famoso beijo, dessa vez em Gwen) também me parece fora de contexto, principalmente porque o herói ainda não estava "contaminado", embora o filme parta da premissa que o Aranha ganhou auto-confiança entre o segundo e o terceiro filme.
Desculpe-me se soo muito negativo. O filme não chega a ser ruim. Toda a parte técnica é impecável. Excelentes efeitos especiais, cenas de luta muito bem realizadas - e um destaque especial para o vilão Homem-Areia (é esse mesmo o nome?). Tobey Maguire e Kirsten Dunst mantéem o carisma e simpatia dos filmes anteriores. O talentoso James Franco, que interpreta Harry (Eri, na versão em italiano) é eficiente ao retratar os diferentes lados do seu personagem.
O problema é que, após fazer dois ótimos filmes, Raimi fecha a trilogia com um filme falho. A sensação ao terminar o filme é de alívio, mas supostamente deveria surgir uma vontade de ver o próximo dos três filmes já anunciados. A franquia do Homem-Aranha é uma máquina de dinheiro. Só espero que não se limite a isso no futuro.






