IMHO

Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães


INLAND EMPIRE ★ ★ ★ ★ ★
David Lynch. Idem. EUA/Polônia/França, 2006.

Ao terminar de ver INLAND EMPIRE, muitas coisas passavam (e ainda passam) pela minha cabeça, razão pela qual escrevo agora, passando na frente de uma extensa lista de filmes, incluindo os oscarizáveis Babel, Os Infiltrados e Pequena Miss Sunshine.

Em primeiro lugar, INLAND EMPIRE faz Cidade dos Sonhos parecer simples. Claro, o filme anterior de David Lynch é complexo, subjetivo e bastante emocionante, e tem o mendigo e os velhinhos que metem medo, mas é passível de se compreender, ao menos sua essência – e também identificar uma história linear. O novo filme do mestre surreal, ao contrário, deixa mais e mais interrogações na cabeça do espectador que se atreve a tentar desvendá-lo. Mas isso não o faz pior.

O filme gira em torno de uma mulher em perigo. Laura Dern interpreta a atriz Nikki, escolhida para fazer o papel de Susan, uma mulher casada apaixonada por outro homem. Dern também se transforma em uma prostituta. O trabalho da atriz é admirável, principalmente por não ter a menor idéia do que estava atuando (coisa que ela confessou em uma conferência no Festival de Veneza) e ainda assim ser capaz de gerar uma atração magnética em tela, através das constantes mudanças de humor e personalidade da(s) personagem(ns). Lynch extrai ainda atuações geniais de todo o elenco, incluindo atores desconhecidos (creio que sejam também amadores) que participam apenas de uma cena. Ajudam a compor o elenco principal Justin Theroux, também em papel duplo (ele fazia o papel do divertido diretor de Cidade dos Sonhos) e Jeremy Irons, no papel do diretor do filme “On High in Blue Tomorrows”, refilmagem de um filme amaldiçoado, que nunca fora terminado em virtude do assassinato dos dois protagonistas.

Junta-se a tudo isso os coelhos gigantes de uma sitcom (extraídos do conjunto de curtas criado por Lynch entitulado Rabbits), poloneses e amigas prostitutas, e temos um roteiro bizarríssimo e aparentemente sem um claro senso lógico. Mas não subestimemos Lynch e sua infusão de pensamento. As chaves de compreensão do seu filme estão espalhadas, através de repetições de frases, cenários e gestos, mundos que se misturam em paralelo e são conectados através de Laura Dern.

Há alguns diálogos chaves que, arrisco a dizer, fornecem uma boa dose de compreensão para os mundos visitados por Lynch: seriam o diálogo entre a “vidente” e Nikki no início do filme, a conversa de Susan com o gordinho de óculos redondo (na verdade, um monólogo), e a conversa entre uma japonesa e uma negra quase no final da projeção, fornecem elementos para uma boa “idéia” do que está acontecendo com a “mulher em perigo” – mas receio ter que assistir de novo para ter certeza. Ainda assim, creio que esse não seja o ponto mais relevante para acompanhar o drama da personagem vivida por Laura Dern.

INLAND EMPIRE é, ao meu ver, um exercício de surrealismo e abstração, uma forma de filmar livre de convenções de gênero e de estúdio. Mais interessado em criar atmosferas (através da excelente iluminação de suas cenas, câmeras sobrepostas e desfocadas, closes fechadíssimos nos atores, trilha sonora barulhenta e amedrontadora) do que apresentar um caminho de compreensão convencional, Lynch cria um dos filmes mais perturbadores que eu vi em bons anos. São 3 horas de duração e nunca chega a ser chato (embora o espectador que fique buscando uma explicação para cada elemento cênico irá frustrar-se nos primeiros 15 minutos). Nada é real, tudo é cinema. E dos bons.

Apesar de todo o mistério, angústia e medo gerado pelo filme, INLAND EMPIRE acaba com um intrigante final feliz, uma surpreendente aparição da musa Laura Harring e música de Nina Simone, em uma das mais fantásticas exibições de créditos que eu já vi há muito tempo (coisa que motivará o espectador a permanecer na sala até o final da última letrinha). Mas como é possível falar em happy end em um filme em que não se entende p*cas? Só vendo para crer. Tenho a impressão que ainda assistirei à obra de Lynch muitas e muitas vezes – e não existe melhor elogio a um filme do que dizer que ele despertou vontade de o ver novamente.

(Amigos do Brasil, torçam para que INLAND EMPIRE chegue aos cinemas do país – esse é o tipo de filme que exige sala escura, tela grande e som surround).

1 Comentários de “Império do Pesadelo”

  1. # Blogger juzandavali

    eu nao podia dizer melhor: INLAND EMPIRE é, ao meu ver, um exercício de surrealismo e abstração, uma forma de filmar livre de convenções de gênero e de estúdio.

    e olhe oq eu escrevi no orkut antes de passar p aki:
    e vale a pena esperar p ir no cinema
    nada se comprada a uma super tela, super som e aquele escurinho
    sem falar na metadade da sala saindo no meio do filme, hahaha

    beijao  

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