IMHO

Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães


Todos os dias em que tenho de ir à Instituição, pela manhã, sou torturado no ônibus Rio Pequeno/Vila Madalena 7725, que está sempre lotado. Quando falo em lotado, significa um amontoado de seres humanos, sem nenhum espaço entre os corpos, que se acotovelam em buscar de ar. É uma visão cruel e desumana a qual convivo por mais de três anos.

Concerto em Fá Maior para Piano e Orquestra ★ ★ ★ ★
George Gershwin

"Errei de blog", deve estar pensando o leitor desavisado. Calma, isso aqui continua sendo o IMHO. "Mais porque raios você está comentando sobre seu cotidiano estúpido? Eu venho aqui para ler sobre suas opiniões sobre filmes, CDs, livros, etc, não para saber sobre sua vida ordinária", pensaria o leitor mais fdp. A proposta era só contextualizar o momento em que me apaixonei por essa música, a saber, exatamente na minha "viagem" matinal para a Instituição, na última quinta-feira. Na verdade, sou fã de Gershwin e sua Rapsódia in Blu é uma das minhas 3 músicas favoritas. No entanto, nunca tinha dado bola para seu único (?) concerto. Para quem não sabe, Gershwin fora eminentemente um compositor popular e é famoso por sucessos jazzísticos como Summertime, da ópera Porgy and Bess.

Como assim? Compositor popular, que escreve jazz, ópera e concerto? Isso é Gershwin, o mais erudito dos populares ou o mais popular dos eruditos. Obviamente, eu não faço distinção entre estilos musicais, mas aqueles que insistem em classificar, tem bastante dificuldade para taxar o trabalho de George Gershwin.

Sobre o Concerto em Fá: é fabuloso. O primeiro dos movimentos é iniciado pela orquestra, já caracterizando indícios de sua "estranheza". Logo, logo, o piano anuncia o tema principal. Como descrevê-lo? Difícil. É misterioso, esquisito, incômodo e de resoluções surpreendentes. Me gusta em Gershwin sua capacidade de criar resoluções harmônicas inusitadas, fruto de suas origens jazzísticas. Traduzindo em outras palavras, para o leitor menos entendido em música: sabe quando você está ouvindo uma música pela primeira vez e de repente, você tem certeza do que vem adiante, mas na verdade o som é totalmente diferente - e melhor do que você imaginava? Tá, você não sabe o que é isso... Mas fingindo que soubesse, é isso que Gershwin bem faz.

O primeiro movimento ainda desenvolve outros temas, um deles romântico que faz lembrar a parte "bonita" de Rapsódia in Blu e termina com uma coda retumbante (isso quer dizer que dá vontade de apaludir, mesmo sabendo que não pode). O segundo movimento, longe de ser a chatura habitual, cria um tema bonito, divertido e, novamente jazzístico. Exige não só virtuosismo do pianista, mas também swing, o que é mais difícil.

O terceiro movimento começa bastante rítmico e, de repente... "êpa, é o tema misterioso do primeiro movimento! uau! mas... espere... ué, é o tema do segundo movimento!". Fantástico. Gershwin retoma seus dois temas e termina o concerto de modo espetacular. Concordo que o concerto trabalhe com poucas idéias. Mas o que dizer se elas são muito boas? Bravo.

E foi ouvindo o Concerto em Fá que eu "quase" não senti a tortura imposta pelo ônibus 7725. Isso é bastante coisa.

Já deu pra perceber que eu sou um fã do gênero Terror. O motivo é simples: esse tipo de filme não exige esforço mental, sendo na grande maioria das vezes, puramente escapista e só emoção. Quem assiste a filmes de terror espera ficar com medo e levar uns bons sustos. Pura e simples diversão. Como o IMHO dá espaço para todos os tipos de filmes, aqui vai um bom e um mau exemplo de filmes de terror.

Wolf Creek - Uma Viagem ao Inferno ★ ★ ★ ★
Greg McLean. Wolf Creek. Austrália, 2005


Na Austrália, duas garotas inglesas e seu amigo australiano, depois de passear por aí e antes das gurias voltarem para a Inglaterra, resolvem conhecer a segunda maior cratera da Terra, chamada Wolf Creek. Na volta, o carro dá problema e um gentil caminhoneiro os ajuda a sair dessa enrasada... e coloca em outra maior. Filme de serial killer, com a diferença que os personagens não são burros, todos tem seu espaço no filme, o assassino tem suas próprias motivações e o roteiro também não o desperdiça. Consegue chocar pela crueldade, não tem um final "fechadinho", o que é ainda melhor. Enfim, Wolf Creek supera muita coisa que andou aparecendo por ai com o intuito de assustar.


Cry Wolf - O Jogo da Mentira ★
Jeff Wadlow. Cry Wolf, EUA, 2005

"Mentiu, morreu". Então, deveria morrer o produtor que espalhou por aí que esse era um filme de terror. No final das contas, acaba sendo um amontoado de clichês ambientados numa "escola preparatória" para pessoas ricas. Um bando de jovens desmiolados decide inventar uma "mentirinha" - a existência de um serial killer. O problema é que ele sai do campo das idéias para o mundo real. O final é previsível, os díálogos são péssimos, os personagens são estereótipos e, o pior, o filme não assusta EM NENHUM MOMENTO. Tirando o belo cenário da "escola preparatória" (malditos burgueses ricos), nada se salva.

__________________
Para controle interno, estou devendo uma palavrinha sobre alguns filmes. E copiando o jogo das cotações inventado pelo crítico Pablo Villaça, ligue as estrelinhas às obras:
1. Match Point
2. Memórias de uma Gueixa
3. Crash

a.
b.
c.

Após um gigantesco hiato, estou de volta, com mais dois indicados ao Oscar. Ei-los:


Boa Noite e Boa Sorte ★ ★ ★ ★
George Clooney. Good Night and Good Luck. Japão/França/RU/EUA, 2005

Dirigido e escrito por George Clooney, o filme relembra a passagem da vida do apresentador e jornalista Edward R. Murrow, do canal de televisão CBS. Conspícuo por utilizar uma interessante fotografia em preto-e-branco; o longa serve-se de um ótimo roteiro para apresentar uma verdadeira aula de jornalismo conduzida pelo lendário jornalista que peitou o senador Joseph McCarthy (cuja "luta" contra os comunistas o fez esquecer do significado da liberdade - um paralelo bastante oportuno com a política bushiana). O filme surpreende com uma história passada há 50 anos mas com um texto que se adequa à nossa realidade, em que a mídia não mais se presta a investigar os problemas de nossos dias; presta-se, no entanto, a divulgar um entretenimento muitas vezes vazio e não-construtivo. Se não bastasse o ótimo conteúdo, temos a excelente atuação de David Strathairn no papel principal e a maravilhosa cantora Dianne Reeves como uma diva de Jazz da CBS. Imperdível.

Capote ★ ★ ★ ★
Bennett Miller. Capote, Canada/EUA, 2005.

Uma figura tão interessante só poderia existir no mundo real. Truman Capote escreveu o livro A Sangue Frio e mudou os paradigmas literários, por se tratar do primeiro romance de não-ficção da história. Capote é um sujeito fascinante e Philip Hoffman Seymour é o centro de todas as atenções. Decididamente, o papel de sua carreira. Dono de uma voz bizarríssima, ele já tinha saído do armário numa época em que isso era um escândalo. Egocêntrico, em determinado momento do filme, algum personagem fala algo como "a pessoa que Capote mais ama é ele mesmo", o que define bastante bem todo o cinismo e questionável moral do jornalista, que joga e manipula para conseguir seus objetivos - por sinal, a "verdade" de um crime bárbaro no interior dos EUA. O fato é que ele se deteriora escrevendo sua obra-prima, e é esse o foco adotado pelo diretor Bennett Miller a partir do roteiro escrito por Dan Futterman. Capote, o filme, é uma experiência interessante sobre o processo de criação de um gênio que se deixou consumir pela sua própria obra.

Post composto de rápidos comentários durante o intervalo.

1o. e 2o. blocos
Abertura super inspirada...
Jon Stewart parece ser bastante carismático. Gostei das piadas iniciais.
Acertei todos os prêmios até agora.
O que foi a apresentação de Dolly Parton? Dá pra acreditar que aquela mulher tem 60 anos? Meu Deus, fiquei mais fã ainda. Hallelujah, I'm just travellin' thru.

3o. bloco
Nada de interessante nesse bloco, exceto o clip de cinebiografias. Memórias de uma Gueixa ganha seu primeiro prêmio, figurino.

4o. bloco
Mais acertos: Maquiagem para as Crônicas de Nárnia e Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz. A transmissão da TNT está uma bosta.

5o. bloco
Homenagem a filmes noir - interessante. Ainda mais apresentado pela lenda Laurenn Bacall.
Clipe sobre as atrizes - engraçado.
Os produtores resolveram apostar no poder dos clipes.
Marcha dos Pinguins ganhou. Aposto que os pingüins de pelúcia serão o próximo item de colecionador de todas as crianças.
Horrível foi a apresentação da música de Crash. Música sem graça e pessoas fazendo movimentos ridículos. Tomara que não ganhe.

6o. bloco
Mais um clipe: filmes com papéis sociais (tom do Oscar desse ano). Apresentando pelo "O Cara" Samuel L. Jackson.
O Presidente da Academia, Sid Ganis, fala sobre a importância do cinema, e manda as pessoas irem assistir aos filmes na sala escura. É a ameaça do DVD aliada à preguiça do povo de se deslocar até o cinema.
Belíssimo medley de trilhas concorrendo ao prêmio. Gostei muito da trilha de Brokeback ter ganhado, realmente é muito bonita, tem aquele tema que identifica o filme. Mais duas derrotas na carreira de John Williams, não que ele se importe.

7o. bloco
MAIS um clipe - dessa vez, de filmes épicos. Gostei de ver Julie Andrews em dois momentos. Muito bonito. Mais uma vez, assistam a filmes no cinema, esse é o recado da noite. Belos medleys também.
King Kong ganha som.
Homenagem a Robert Altman: apresentação impecável e improvisada de Lily Tomlin e Meryl Streep. Elas são fodas. E Bob também é. Que discurso! Prêmio mais que merecido e torço para que seu próximo filme seja bom e reconhecido pela academia.

8o. bloco
King Kong ganha de novo na outra categoria de som.
Apresentação da Música de Ritmo de um Sonho. Eu odeio rap, mas os malditos americanos insistem em gostar. Pronto, a música ganhou. Pobre Dolly Parton. Pelo menos a apresentação foi boa, o que foi aquele grito final daquela mulher? Bem, melhor o rap do que a música insossa de Crash.
Tradicional apresentação In Memorian. Robert Wise se foi, Anne Bancroft também e muitos outros. Que Deus os tenha.

9o. bloco
Crash ganha edição.
Tsotsi ganha filme estrangeiro. Os judeus malvados não votaram em Paradise Now, afinal de contas.
Ator vai para Philip Seymour Hoffman. Não tinha pra ninguém mesmo.

10o. bloco
Merda, Memórias de uma Gueixa ganhou fotografia também. Tudo bem, merece. A fotografia do filme é belíssima, mas como o filme é horrível, não deveria ter ganho.
Reese Witherspoon ganhou. É a nova queridinha de Hollywood.

11o. bloco
Roteiro adaptado: O Segredo de Brokeback Mountain.
Roteiro original: Crash
A briga pelo prêmio principal está mesmo entre os dois.
Já é 1:17 e eu quero dormir.

12o. bloco
Estou pasmo. Crash ganhou melhor filme.
Ang Lee ganhou diretor pelo menos, o que é uma incoerência. Melhor diretor tem que ser o mesmo do melhor filme.
A Academia demonstra conservadorismo, pelo visto. Crash dividiu em muito a crítica. Por incrível que pareça, foi o único filme dos 5 concorrentes ao prêmio principal ao qual eu não assisti; não posso dizer nada.

Bem, das minhas apostas, eu errei Melhor Filme, Fotografia, Trilha Sonora e Canção. Pelo visto não entendo nada de música.

A apresentação de Jon Stewart foi boa.

A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia acontece daqui a pouco. Previsões à la mãe Dinah:

FILME:
Quem vai ganhar: O Segredo de Brokeback Mountain
Quem eu gostaria que ganhasse: O Segredo de Brokeback Mountain
O Azarão: Crash
Dos 5 concorrentes, só não assisti a Crash. Todos são ótimos candidatos; fico feliz que esse ano o Oscar acertou muito bem na escolha dos concorrentes. Ainda assim fico com "O Segredo..." tão somente por ser o mais "emocionante" de todos.

DIRETOR
Quem vai ganhar: Ang Lee
Quem deveria ganhar: Ang Lee
O Azarão: George Clooney
Esse ano os candidatos a melhor diretor coincidem com os de melhor filme, o que demonstra coerência dos votantes. Eu votaria em Ang Lee por sua exímia direção em A Chapada dos Veadeiros, mas George Clooney também fez um bom trabalho em Boa Noite e Boa Sorte, e todo mundo em Hollywood gosta dele, então pode vir a acontecer uma surpresa.

ATRIZ
Quem vai ganhar: Reese Witherspoon
Quem deveria ganhar um prêmio especial só pelo fato de existir: Keira Knightley
A Azaroa: Felicity Huffman
Reese "Legalmente Loira" Witherspoon é uma das mais carismáticas atrizes da atualidade, além de ter o maior salário feminino de Hollywood. Todos a amam. Infelizmente, entre as concorrentes, o único trabalho que eu tive o prazer de conferir é o da Keira Knightley. Mas parece que o desempenho de Felicity Huffman, no papel de um traveco, não deixa nada a desejar.

ATOR
Quem vai ganhar: Philip Seymour Hoffman
Minha torcida vai para: David Straiham, Heath Ledger e Philip Seymour Hoffman
O Azarão: Heath Ledger
A interpretação de Hoffman no difícil papel do egocêntrico Capote é excepcional, mas seus outros concorrentes não ficam atrás (não vi o trabalho de Joaquim Phoenix nem de Terrence Howard). Seria legal ver um empate nessa categoria, mas isso é impossível.

ROTEIRO ORIGINAL
Quem vai ganhar: Crash
Quem deveria ganhar: Match Point
O novo filme do Woody Allen é muito foda. Assistam!

ROTEIRO ADAPTADO
Quem vai ganhar: O Segredo de Brokeback Mountain

ATRIZ COADJUVANTE
Quem vai ganhar: Rachel Weisz
Como não vi O Jardineiro Fiel, meu voto iria para: Michelle Williams
O papel de Catherine Keener em Capote é apagadinho, não oferece muito. Ouvi dizer que Amy Adams está muito bem em Junebug e que o papel de Francis McDormand em Terra Fria é bastante irregular. Rachel Weisz é a escolhida.

ATOR COADJUVANTE
Quem vai ganhar: George Clooney
Azarões: Paul Giamatti e Matt Dillon
George Clooney concorre em outras duas categorias (diretor e roteiro original) e provavelmente perderá nas duas. Ator Coadjuvante é seu prêmio de consolação. Paul Giamatti é um ator extremamente talentoso, mas seu Oscar virá futuramente (quem sabe em A Dama na Água?) e Matt Dillon está a anos na indústria e seu trabalho nunca foi reconhecido (também nunca se destacou muito).

ANIMAÇÃO
Quem vai ganhar: Wallace & Gromit
Quem deveria ganhar: A Noiva Cadáver
Tudo bem, eu não vi Wallace & Gromit e o trabalho do Myiasaki é excepcional, mas não me recordo do Tim Burton ganhando Oscar e ele é O cara. Votaria nele.

DIREÇÃO DE ARTE
Quem vai ganhar: Memórias de uma Gueixa
Quem deveria ganhar: Orgulho e Preconceito
Agradável surpresa: Harry Potter e o Cálice de Fogo
Azarão: Boa Noite e Boa Sorte
Memórias de uma Gueixa é um filme pavoroso, mas tecnicamente impecável. É até provável que seja o filme com a maior quantidade de prêmios da noite, embora só nas categorias técnicas. Orgulho e Preconceito também tem uma direção de arte maravilhosa. É um pouco impossível Harry Potter ganhar; não sei porquê, os filmes do bruxinho são sempre desprezados pelo Oscar. Boa Noite e Boa Sorte tem a chance de emplacar pois está concorrendo ao prêmio de Melhor Filme.

FOTOGRAFIA
Quem vai ganhar: O Segredo de Brokeback Mountain
Se ganhar eu vou soltar um "que merda": Memórias de uma Gueixa
Embora a fotografia de "Memórias..." seja muito boa, muitas vezes ela atrapalha o filme, como na cena em que a gueixa interpretada por Zhang Ziyi aparece jogando um lenço do alto de uma montanha, o que não faz o menor sentido: ela deve ter levado dias e dias para escalar o tal acidente geográfico, enquanto seria mais pragmático jogar no lixo. Memórias de uma Gueixa é o exemplo mais fiel de como somente a plástica não leva a lugar nenhum.

FIGURINO
Quem vai ganhar: Memórias de uma Gueixa
Ficaria feliz se ganhasse: A Fantástica Fábrica de Chocolates
O filme de Tim Burton também foi bastante desprezado, mas é tão certo que Memórias de uma Gueixa vai ganhar (merecidamente) como 2 mais 2 é aproximadamente igual a quatro.

MAQUIAGEM
Quem vai ganhar: As Crônicas de Nárnia (eca)
Quem deveria ganhar: Star Wars - A Vingança dos Siths
Star Wars também foi completamente desprezado pela Academia e seguindo essa linha de raciocínio, não vai ganhar esse prêmio.

TRILHA SONORA
Quem vai ganhar: John Williams
Resta saber por qual trabalho. Eu espero sinceramente que seja por Munique. De qualquer forma, suas duas indicações mostram como o compositor manja de trilhas, como consegue obter texturas sonoras diferentes e adequadas a cada imagem. O cara é foda.

CANÇÃO
Quem vai ganhar: In The Deep (Crash)
Farei uma mandinga para essa música ganhar: Travellin' Thru (Transamerica)
Dolly Parton me motiva a assistir ao Oscar desse ano. Ficaria extremamente feliz se a cantora de country ganhasse.

EFEITOS ESPECIAIS
Quem vai ganhar: King Kong

EDIÇÃO
Quem vai ganhar: Crash

FILME ESTRANGEIRO
Quem vai ganhar: Tsotsi
Vai gerar um rebuliço se ganhar: Paradise Now
Paradise Now é um filme palestino que narra as 48 horas finais de dois homens bomba. Ora, a academia é composta majoritariamente por judeus; seria muito esquisito (e interessante) se Paradise Now ganhasse.

DOCUMENTÁRIO
Quem vai ganhar: A Marcha dos Pingüins
"A Marcha..." é um fenômeno de público e recebeu críticas bastantes razoáveis.

No próximo domingo, teremos a festa do Oscar. Por isso, pretendo atualizar o blog nos próximos dias com os principais concorrentes. Por enquanto, vai um filmão bem água-com-açúcar:

Orgulho e Preconceito

Joe Wright. Pride and Prejudice. França/RU, 2005.

Baseado na obra da escritora inglesa Jane Austen, o filme retrata a história de amor a humilde porém altiva garota Elizabeth Bennet e o taciturno e rico Mr. Darcy. Encontros e desencontros a parte, o enredo é clássico: muito orgulho de ambos os lados, e o preconceito da alta sociedade, retratado pela sempre excelente atriz Judi Dench, para, no fim, o amor reinar. Convencionalismos à parte, o filme é belíssimo.

A câmera do estreante diretor Joe Wright surpreende: sua imagem convida o espectador a penetrar nos lares e festas retratados no roteiro, bisbilhotando conversas de um lado, capturando comentários e atitudes que definirão o comportamento dos personagens. A fotografia é soberba; é realmente um absurdo que não esteja concorrendo ao prêmio da Academia; desde Herói, não vejo imagens tão belas num filme, ajudando o fato de que a direção de arte é extremamente competente no sentio de recriar a era vitoriana.

Obviamente, tanta beleza e competência artística não iria adiantar se a história não empolgasse. Alguém já disse uma vez que só existem 48 histórias e o restante são variações dos mesmos temas; o universo do romance é ainda mais limitado. Em suma, todas as histórias de amor já foram contadas. Por isso, em filmes desse gênero, acaba prevalecendo a forma em favor do conteúdo; é o modo como o diretor concebe suas imagens que ainda permite alguma criatividade. Orgulho e Preconceito tem a história mais batida do mundo: garota pobre e rapaz rico se apaixonam e no fim ficam juntos. Aliás, o próprio filme já foi adaptado diversas vezes para o cinema. Contudo, algumas sutilezas fazem deste um bom filme, embora as palavras "originalidade" e "criatividade" nunca poderão ser usadas para descrever seu roteiro.


Keira. Keira. Keira. Keira. And Keira (such a beautiful name)

Há, no entanto, uma grata surpresa: a atriz Keira Knightley. Keira, Keira, Keira. E mais Keira. Com apenas 20 aninhos (todos os seus fãs comemorão o seu próximo aniversário no dia 26 de março), Keira estourou nas telas no ótimo Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra. Depois disso, fez a porcaria chamada Rei Arthur e agora, finalmente tem a chance de brilhar - e sua indicação ao Oscar foi muito bem vinda (embora tenha que aguentar os comentários maldosos dos seus companheiros de atuação de Piratas do Caribe, que a zoam em cada cena mais intensa, dizendo que é uma "cena de Oscar"). Keira é a simpatia em pessoa no filme, e sua língua afiada faz dela ainda mais adorável; por isso sua personagem Elizabeth é tão carismática. Até mesmo os desencontros com Mr. Darcy são expostos de maneira verossímil; ao invés de acreditar na conversa dos outros, a garota tenta esclarecer os mal-entendidos na primeira oportunidade que tem, evitando o típico clichê de filmes românticos.

Joe Wright ainda nos brinda com diálogos sempre interessantes (vide o confronto da personagem de Judi Dench com nossa querida Lizzie Bennet), cenas divertidas (as mulheres da família Bennet tem o "dom" para arrumar um ambiente em segundos) e atuações primorosas (todo o elenco é muito bom, mas não posso deixar de citar os veteranos Donald Sutherland e Brenda Blethyn nos papéis de Mr. e Mrs Bennet). Mesmo com tantos méritos, o filme é completa e totalmente previsível. No início da projeção, encontramos dois personagens que não se toleram: Elizabeth tem aversão à futilidade dos ricos, ao passo que Mr. Darcy vê nela uma garota grosseira. Também sabemos que os dois irão se apaixonar e se casar, e o que o filme acabará aí. Se o querido leitor também está convencido, como eu, que nem sempre "mais do mesmo" é algo ruim, Orgulho e Preconceito é uma prova inconteste de que uma história bem contada (mesmo conhecida) vale o preço do ingresso.




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