O Segredo de Brokeback Mountain ★ ★ ★ ★ ★
Ang Lee. Brokeback Mountain, EUA, 2005
O gênero romance, um dos mais batidos, espancados e esgotados, volta e meia encontra formas de expressão sinceras que acabam agradando e surpreendendo. É o caso do filme O Segredo de Brokeback Mountain, franco favorito para o prêmio de Melhor Filme no Oscar desse ano. Pois longe de se tratar apenas de um romance "gay", como a mídia anda propalando, o longa do diretor Ang Lee traz uma abordagem muito mais rica e complexa, não limitando os corpos dos personagens tão somente a análise do comportamento sexual. Muito pelo contrário; Ang Lee sintetiza seu filme na frase "o amor é uma força da natureza"; tudo o mais é conseqüência.
O Segredo... acompanha a trajetória de dois cowboys que se conhecem no interior dos EUA, quando arranjam um emprego na isolada montanha Brokeback. O taciturno Ennis, interpretado por Heath Ledger, que tem imensa dificuldade para falar qualquer coisa, acaba se tornando amigo do emotivo Jack (Jake Gyllenhaal), até que a tal "força da natureza" resolve agir e... bem, o resultado todo mundo já sabe. "Ele senta, eu sei que senta" aplica-se aos dois.
Ora pois, se vivemos numa sociedade que ainda não tolera homossexuais, pelo menos não abertamente, imagine no Texas dos EUA no meio do século passado. Obviamente, o leitor menos preconceituoso perceberá que a "releitura romântica" vista neste filme segue a linha das tragédias amorosas como Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda - casais apaixonados que não podem consumar publicamente seu afeto por razões familiares, políticas, sociais, religiosas ou seja lá mais qual for o motivo. O perigo de o filme se tornar um dramalhão mexicano era imenso, mas graças ao Senhor, o filme foi parar nas mãos do experiente Ang Lee, diretor do maravilhoso O Tigre e o Dragão. Baseado no texto escrito por E. Annie Proulx (autora da história do mediano Chegadas e Partidas), Lee conduz sua história com serenidade. Os cowboys se casam, tem filhos, levam vidas paralelas mas o sentimento entre os dois mostra-se mais forte que o tempo.
A melancolia domina a imagem de Lee. A representação do lar de Ennis é um reflexo de sua infelicidade: casa escura e sóbria; tal contexto, no entanto, aplica-se também à esposa de Ennis, Alma (Michelle Williams). Uma cena chave mostra a dor da personagem: percebemos claramente em seu rosto seus sentimentos, o que demonstra uma preocupação do diretor em exibir todos os lados da moeda, sem buscar uma "redenção" inapropriada dos cowboys.
Lee também surpreende ao extrair atuações excepcionais de todo o elenco. Heath Ledger, a grande surpresa, interpreta um personagem quase sempre incapaz de expressar o que está sentindo, um sujeito lacônico, taciturno e ainda, por cima, amaldiçoado por um amor impossível. O curioso é que, ao contrário de Jack que é evidentemente homossexual, Ennis parece se interessa pelo sexo oposto sempre quando está distante de seu companheiro, o que torna ainda mais interessante o conceito da "força da natureza". Para completar, o elenco suporte aparece em cenas memoráveis. Michelle Williams comove o espectador quando descobre a traição de seu marido Ennis da pior forma possível; Anne Hathaway, egressa da franquia O Diário da Princesa, mostra que sabe atuar e brilha num telefonema extremamente dolorido. Por fim, a veterna atriz Roberta Maxwell, mesmo aparecendo em apenas uma única cena, expressa muitas verdades apenas com seus músculos da face, algo absolutamente impressionante.
Pode até parecer exagero, mas Ang Lee fez um clássico instantâneo. Seu filme é tão poderoso e comovente que, não duvido, é a história de amor de nossa época que será lembrada daqui a anos e anos, assim como Romeu e Julieta é hoje lembrado por nós.
P.S.: Os mais bem-humorados dizem que o filme deveria ter sido traduzido aqui no Brasil por "A Chapada dos Veadeiros". A piada não podia ficar de fora do post :)
Aproveitando, para não esquecer, vou colocar uma lista de filmes sobre os quais eu preciso escrever:
1) Orgulho e Preconceito
2) Wolf Creek
3) Boa Noite e Boa Sorte
4) Memórias de uma Gueixa
Munique ★ ★ ★ ★
Steven Spielberg. Munich, EUA, 2005.
Steven Spielberg é o diretor especializado em finais felizes. Desde o maravilhoso A Cor Púrpura (um dos meus filmes favoritos), SS tem feito filmes com um final mais feliz do que o outro (não cheguei a ver A Lista de Schindler). Qual não é a minha surpresa ao me deparar com um filme sério que discute com bastante propriedade questões políticas complexas como a eterna briga entre palestinos e israelenses - e cujo final tem um tom amargo que contrasta com a filmografia do diretor de E.T.
Indicado para vários Oscars, inclusive aos prêmios de Melhor Filme, Munique trata dos incidentes nas olimpíadas de Munique, em 1972, quando 11 atletas israelenses foram mortos em virtude de um ataque palestino. O longa, inspirado nesses fatos, acompanha o judeu Avner, interpretado por Eric Bana, um assassino contratado pelo Mossad (serviço secreto israelense) para dar cabo nos responsáveis pelo atentado.
Spielberg, procurando manter um tom de imparcialidade, mesmo sendo judeu, deixa claro que os eventos vistos em Munique são fruto de um círculo vicioso do qual ninguém tem razão. Bem sabe ele que apenas a irracionalidade impera ao dar continuidade aos conflitos, que se estendem até os dias de hoje e só Deus sabe quando reinará paz na Terra Santa e por isso que seu filme é tão bom.
Sua imagem nunca se prende a criar figuras fáceis de mocinhos e vilões. O "herói" Avner deixa sua mulher grávida para assassinar os líderes palestinos responsáveis pelo Setembro Negro. Em nenhum momento, tenta-se absolver o personagem interpretado por Eric Bana; muito pelo contrário, em determinado momento, ele comanda um ataque que em muito faz lembrar o próprio incidente olímpico, que é apresentado através de interessantes flashbacks. Através do uso de cores melancólicas, sem muita luz, o fotógrafo Janusz Kaminsky mantém a essência de um filme em que não haverá redenção, não há méritos na ação do personagem principal. Spielberg conduz seu argumento de forma muito satisfatória, por isso seu filme destoa de sua filmografia. Não é uma experiência agradável, o gosto do filme é amargo, mas sem dúvida alguma, o diretor alcança plenamente seus vôos.
E, no fundo, o plano final de seu filme é prova inconteste que o festival de atrocidades causado pelo fanatismo religioso/patriótico de certos grupos parece ser impossível de terminar. Munique termina com a leitura de um futuro que ultrapassa a década de 70, sendo metáfora para o chamado "terror" tão combatido pela América nos dias de hoje, que nada mais é do que uma derivação expansiva de antigos conflitos. Enquanto isso, o restante da humanidade parece seguir sem dar a mínima.
Matéria da BBC de Londres, citada pelo UOL:
A cantora americana de jazz-pop Norah Jones vai fazer sua estréia como atriz em um filme do diretor chinês Wong Kar-wai, de acordo com o site da revista Screen Daily.O título de trabalho do filme, que teria como pano de fundo a passagem do furacão Katrina por Nova Orleans, seria My Blueberry Nights, segundo informações de agências de notícias.
Vai ser o primeiro filme falado em inglês de Kar-wai, que ficou conhecido internacionalmente com filmes como 2046, Amor à Flor da Pele e Felizes Juntos.
Norah Jones é uma das minhas cantoras favoritas, apesar de só ter lançado dois álbuns. Pena que insistem em rotular a garota como cantora de jazz. O som de Norah Jones é delicioso, mas não é jazz o que ela faz. É algo que mais se aproxima do country, com pitadas de pop e jazz. Bem, danem-se os rótulos. Seu CD Feels Like Home me faz sentir como diz o título, e por isso é um dos meus favoritos. Não passa uma semana sem que eu não o ouça.
Kar Wai é um dos meu diretores favoritos, apesar de só ter visto apenas duas obras dele: Amor à Flor da Pele (está no meu top 5) e 2046. Conhecido por não escrever roteiros, os filmes vão saindo de sua cabeça maravilhosa, juntamente com uma atmosfera sufocante repleta de sentimento. Quem já viu sabe o que estou falando.
Norah Jones e Kar Wai... Kar Wai e Norah Jones... Oh. Meu. Deus.
My Fair Lady ★ ★
George Cukor. Idem, USA, 1964.
Das duas uma: ou eu estava absolutamente mal-humorado no dia em que eu vi esse filme, ganhador de 8 Oscars em 1964, incluindo melhor filme (desbancando Mary Poppins - UUUUHHGGGGHHH - rrrrRRRR*!), ou ele é ruim mesmo. Tudo bem, o filme tem seus momentos divertidos, mas também muitas falhas. Os personagens não param de gritar O FILME TODO! Audrey Hepburn dubla quando canta - e nem as músicas ajudam. São pouquíssimas as músicas boas. Eu gosto de "I Could Have Danced All Night", mas é uma das únicas. E um musical em que a trilha não convence e os personagens irritam mais do que cativam, realmente não está no caminho certo. Felizmente, o destino fez com que Julie Andrews encarnasse Mary Poppins. (Observação: os Swingle Singers, famoso grupo vocal, tem um Medley que faz justiça às poucas músicas boas do filme. Está disponível nos melhores programas P2P)
A Marcha dos Pinguins ★ ★ ★
Luc Jaquet. La Marche de L'Empereur, França, 2005.
Eles são fofinhos e bonitinhos. Nascem, marcham, reproduzem e morrem. O documentário é extremamente bem filmado (minha amiga Denise disse que o diretor deve ter se vestido de Pinguim para conseguir chegar perto dos bichinhos) e revela o que todo mundo já sabia - como a natureza é sábia, como é bonita a luta pela preservação da vida, etc. Não gosto da tentativa de humanizar os animais, através daquelas locuções em off. O diretor quer tentar, a todo custo, gerar simpatia pelos pinguins imperadores, através de sentimentos que não existem. Por favor, não se choquem com o que eu vou escrever, mas os pinguins não se amam! Eles apenas estão seguindo seus instintos de preservação da espécie. Jacquet parece não perceber, mas a sua imagem é interessante sem tais artifícios.
Horas de Horror ●
Paul Fox. The Dark Hours, Canada, 2005.
É a história de Samantha Goodman (não acredito que fui até o IMDB para procurar o nome de uma personagem desse filme), uma psicóloga com um câncer na cabeça que toma um remédio forte para tentar reduzir o crescimento da pereba. Quando descobre que seu marido a está traindo com sua irmã, ela mata os dois e imagina as coisas de forma diferente, que por sinal, é a maneira como as coisas são apresentadas no filme. Oooooooops, contei o final! Não faz mal, pois é um filme tão ridiculamente ruim que essa "reviravolta inusitada" não causa o menor espanto - e a idéia inicial era que o filme fosse um suspense. Não assusta nem quem acha Gasparzinho um fantasma amedrontador, mas o filme tem a vantagem de involuntariamente engraçado. O maior efeito que sua imagem produz são gargalhadas diante de frases como "Eu quero viver!" e as burrices da irmã da psicóloga, Melody.
Eu comecei a assistir Amor Sublime Amor (West Side Story) mas felizmente não ia dar tempo de terminar e eu desisti assim que percebi se tratar de um Romeu e Julieta em que os Montéquio e Capuleto são gangues de americanos e porto-riquenhos! Depois ainda falam mal de Baz Luhrmann...
* Essa onomatopéia eu tirei do divertido blog do Chewbacca. Confiram!
De Tanto Bater Meu Coração Parou ★ ★
Jacques Audiard. De battre mon coeur s'est arreté. França, 2005
A Professora de Piano ★ ★ ★
Michael Haneke. La Pianiste. Áustria/França, 2001
Não por acaso, assisti a dois filmes que tratam do piano como ferramenta redentora de uma alma perturbada. Apesar de ambos distintos em forma e conteúdo, a Música une os dois filmes que tratam de indivíduos problemáticos buscando dar algum sentido à vida (ou iludir a si próprios) através do uso do instrumento.
O primeiro filme, do francês Jacques Audiard, gira em torno de Thomas Seyr, interpretado por Romain Duris (de O Albergue Espanhol). Ele é um corretor imobiliário inescrupuloso, que não insiste em jogar ratos nas dependências alheias para poder comprá-las depois por preços mais acessíveis (talento este herdado do pai). Desgostoso com o rumo da sua vida, ele encontra um antigo agente de sua falecida mãe, que era pianista, e o convida para uma audição. Tom decide, então, voltar a tocar piano depois de dez anos e contrata uma virtuoso chinesa para dar "uns toques". Detalhe, a garota não fala un mot de français.
Audiard retrata Tom como um indivíduo irascível e desprovido de moral, de forma que o espectador nunca sinta empatia por seus dramas. Isso acaba sendo bom e ruim - ao mesmo tempo em que as reviravoltas de sua vida nunca soam melodramáticas, também nunca nos importamos com suas frustações, resultando num filme frio. Se uma de suas propostas era evidenciar o caráter universal da música, através do relacionamento entre dois indivíduos que não se comunicam por seus idiomas, o filme falha crassamente - as cenas entre o francês e a chinesa são sempre marcados por acessos de irritação do primeiro e eventualmente, um acesso de palavras chinesas incompreensíveis da virtuosa - e depois de algum tempo, é óbvio que o personagem de Romain Duris vai tocar direitinho.
O dilema da dualidade, metaforizado nas mãos de Duris, que produz tanto belas melodias ao piano como a violência, não deixa de ser um argumento interessante, mas que graças a um roteiro fraco e esquemático, essas idéias se perdem e não chegam a lugar nenhum.
Já o filme do Haneke, muito mais interessante, acompanha Erika Kohut, uma professora de piano ionterpretada pela estupenda Isabelle Huppert (premiada em Cannes por sua atuações neste). Ora vestindo a máscara de professora rigorosa, que não cansa em humilhar seus próprios alunos, ora assumindo a aura de sádica e pervertida sexual, Erika é uma personagem complexa e fascinante.
Um dos alunos de Erika, Walter Klemmer (Benoît Magimel, também premiado em Cannes) apaixona-se pela mestra, o que a faz desejar libertar-se de sua repressão sexual, para revelar um monstro devasso. Neste, o contraste entre a perfeição exigida pelas interpretações ao piano e o caráter problemático de seus personagens revela-se muito mais satisfatório. É uma pena que Haneke acovarda-se no último ato, levando sua história a um desfecho que não leva adiante o estudo psicológico feito até então.
Se ambas as obras não funcionaram como cinema, pelo menos me fizeram desejar ardentemente um piano para meu apê daqui de São Paulo. Aguardem o desfecho dessa história no idiosyncrásia.
P.S.: É bom fazer uma ressalva: a maioria dos pianistas não são nem devassos nem irascíveis, nem frequentadores do gueto de Varsóvia. O mundo do piano fora dos filmes é bem menos interessante, eu garanto.
Top filmes com piano na parada:
1. O Piano, de Jane Campion (The Piano, Austália/França/NZ, 1993)
2. O Pianista, de Roman Polanski (The Pianist, França/Alemanha/Polônia/RU, 2002)
3. Nelson Freire, de João Moreira Salles (Idem, Brasil, 2003)
4. A Professora de Piano, de Michael Haneke (La Pianiste, Áustra/França, 2001)
5. De Tanto Bater meu Coração Parou (De Battre Mon Coeur s'est Arreté, França, 2005)
Cidade dos Sonhos ★ ★ ★ ★ ★
David Lynch. Mulholland Dr. EUA, 2001.
Silencio. Assim mesmo, em castellano. É com essa palavra, proferida pela misteriosa "mulher da peruca azul" que David Lynch encerra um dos mais enigmáticos e interessantes filmes dos últimos anos. Costumo brincar que seria a mensagem do diretor para o público que costuma sair falando mal do filme só porque não se deu o trabalho de digerir a obra. Fiquem quietos e não falem asneiras!
Não é para menos: considerando sua complexidade, é admissível que parte do "grande público", acostumado apenas com histórias lineares dos blockbusters, não queira perder seu tempo admirando o belíssimo trabalho de Lynch. Mendigo segurando uma caixa azul? Velhinhos sorridentes e assustadores passando por debaixo de uma porta? Personagens que mudam de nome? Issso é o bastante para afastar aqueles cujo conceito de cinema exclui as palavras reflexão e experimentalismo.
Cidade dos Sonhos faz parte da corrente surrealista do diretor, que também inclui o longa A Estrada Perdida (o qual ainda não tive o prazer de ver) e o conjunto de curtas entitulado Rabbits (sobre o qual eu postei aqui). Assim, alguns dos elementos do filme não podem ser explicados segundo um ponto de vista lógico, por estar aberto a interpretações. O que representa o casal de velhinhos? O que significa o horrendo mendigo? Não existem explicações para todas as perguntas que eventualmente surjam na cabeça do espectador, o que não diminue a obra - muito pelo contrário, trata-se do estímulo a expandir a relação entre autor-obra-apreciador, sem limites bem definidos.
Se até então, transpareceu a idéia de que o longa é uma bagunça estrutural, sem possibilidades de compreensão do ponto de vista lógico, perdoe-me. Cidade dos Sonhos tem sua pitada de surrealismo, mas sua história, muito bem contada, vai se construindo aos poucos, até a mudança de prisma que existe nos últimos vinte minutos finais (o que sempre me faz lembrar do livro O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder). Daí, a necessidade de assistir novamente ao longa para apreciá-lo em sua totalidade - mantendo-se em mente o que se aprendeu no último ato, David Lynch consegue a proeza de fazer compreender cenas aparentemente ilógicas e aleatórias, como personagens que aparecem em apenas uma cena, ou "um número" - afinal, tudo é show business.
No fundo, Lynch reconta a velha história do amor não compreendido, construindo sua trama em cima da personagem vivida pela maravilhosa Naomi Watts. (Esse parágrafo é dedicado a essa atriz genail, que despontou nas telas justamente com esse longa.) Num trabalho de imensa complexidade, uma sequência é chave para demonstrar seu talento: ao encarnar a aspirante a atriz Betty Elms, em certo momento da trama, ela apresenta uma cena de forma absolutamente burocrática e logo em seguida, nos brinda com um show de interpretação retratando a mesma cena de forma completamente diferente. Não é exagero dizer que Naomi Watts garantiu seu lugar na galeria de atores mais talentosos de todos os tempos depois desse papel.
Lynch aplica diversas camadas a seu longa, situando-o distante de um lugar que se pode chamar de "real" - se é que isso existe (fugiria do escopo discutir tal interessante tema filosófico). Em sua narrativa sutil, percebe-se inclusive uma pertinente crítica à indústria de filmes hollywoodianos e suas imposições. Agradável é perceber a sobreposição dessas camadas, criando um quebra-cabeças cujas peças vão se encaixando de maneira bastante satisfatória. Cidade dos Sonhos não deixa de ser um interessante exercício de lógica narrativa, embora seja muito mais que isso.
Repleto de cenas de imensa sensibilidade, destaco o número musical "Llorando", cantada por Rebekah del Rio (que interpreta a si mesma no filme - viu onde eu quero chegar com as camadas de realidade?). A cena é de uma beleza descomunal, "resumindo" o longa numa canção comovente. No fundo, é por isso que gosto tanto desse filme - é um raro exemplar que utiliza seu roteiro para compor cenas que variam do cômico (o assassino trapalhão, o diretor corno) ao sublime, regado por um clima noir de constante mistério (além do surrealismo delicioso).
E se você acha que não entendeu o filme, não desista - assista novamente (eu estou na minha sexta vez e o filme ganha novos significados em cada investida). Um trabalho tão magistral como esse não foi feito para se apreciar apenas uma vez.
Já promovi algumas sessões desse filme e a reação é sempre unânime. Nunca ninguém entende nada mesmo da primeira vez. Eu não entendi muita coisa da primeira vez que eu vi também, confesso, mas imediatamente assisti novamente, não tenho vergonha de confessar (fiz isso também com Huckabees - A Vida é uma Comédia, e gostei muito do resultado). Eu indiquei a obra aos meus amigos Doug e Camila e eles quase acabaram a amizade que tinham comigo - até que eu explicasse meus pontos de vista sobre o longa. Debati sobre ele no MSN com seres humanos desconhecidos, introduzidos pelo meu amigo Pierre Caradec, e um deles ficou muito puto da vida, achando que eu era o dono da verdade, etc., o que me faz temer escrever alguma coisa sobre ele depois de tal episódio.
O que eu não admito é quando falam coisas do tipo "Cidade dos Sonhos é um filme para sentir, não para entender" (como se os verbos fossem mutualmente exclusivos). Não é nada disso. Qualquer cinema é para sentir E entender, obviamente com uma lógica diferenciada, oriunda do conceito escapista que a sétima arte promove. Mergulhar na lógica do diretor é um desafio que nem sempre se mostra bem-sucedido e isso pode vir a ser incompetência de ambos os lados (diretor e espectador).
Interrompendo a disgressão, o fato é que o filme de David Lynch tem uma linha narrativa bem definida, embora não seja facilmente "digerida". Então, se interessar uma possível "interpretação" (não tenho a presunção de dizer que esse era o objetivo do diretor, considerando o tal chat no MSN promovido pelo Pierre), continue lendo (recomendado para quem já viu o filme pelo menos uma vez).
Não vou me alongar, até mesmo porque o texto já passou do limite e eu conheço meus preguiçosos leitores. O fato é que a Cidade dos Sonhos do título brasileiro, referência a Los Angeles, também constitui uma "dica" para a natureza de boa parte dos eventos do longa. Longe de querer expor uma explicação freudiana, até porque não entendo nada de psicanálise, o segredo é compreender quais camadas do filme se aproximam mais do "real" e quais vão se aprofundando no misterioso e enigmático mundo dos sonhos.
Basta se concentrar na seguinte história: "Diane Selwyn vence um concurso de dança e acaba indo parar em Los Angeles, onde vira uma atriz fracassada. Em um dos filmes em que faz uma ponta, ela conhece a atriz Camilla Rhodes, por quem acaba se apaixonando. As duas tem um caso, mas Camilla fica noiva do diretor Adam Kesher, numa festa em Mulholland Drive. Amargurada, deprimida e desesperada, Diane decide contratar um assassino para acabar com sua amada. Arrependida, a garota usa todos os tipos de drogas tem uma viagem psicodélica, que é retratada por David Lynch como o filme Cidade dos Sonhos até a parte em que a caixa azul é aberta." Todas essas informações são apresentadas nos últimos vinte minutos do filme, também de maneira não-linear.
Sim, isso é uma simplificação grotesca e não exprime toda a beleza do filme, mas é a essência, que explica:
1) porque em seus sonhos, Diane (ou Betty) é uma talentosa atriz a procura de uma chance;
2) o diretor Adam só se ferra (em cenas hilárias);
3) Camilla (na versão "Rita") é indefesa, carinhosa e lasciva;
4) o assassino é um trapalhão (um temor de Diane);
5) a bizarra cena dos créditos iniciais (o concurso de dança de Diane);
6) a chave azul, que representa a concretização do assassinato (no sonho, ganha contornos mais estilizados).
Ao mesmo tempo, considerando a festa na casa do diretor Adam como um evento marcante na vida de Diane, alguns personagens misteriosos são explicados: o "cowboy" aparece ao fundo na festa; o mafioso que cospe o café no começo do filme (ponta do compositor, Angelo Badalamenti) é tão somente um homem que Diane olha na festa enquanto está tomando café.
Agora a cena do Club Silencio ganha outros contornos: quando o apresentador fala "No hay Banda!", compreende-se que tudo o que fora visto até então é ilusão, um sonho. Já a música de Rebekah del Rio surge como a expressão do sentimento não-correspondido de Diane por Camilla.
Esses são apenas alguns dos exemplos mais facilmente identificáveis... outros tantos são deixados como exercício (dei uma de professor de Álgebra Linear agora!) . Obviamente, temos os casos surrealistas supracitados, que dão margens a interpretações diversas. Eu gosto de pensar que o mendigo representa a consiência de Diane enquanto os velhinhos seriam a personificação de sua vergonha (seriam seus pais ou tios, pessoas com ligação familiar); com relação a mulher da peruca azul, também fico com minha jocosa interpretação, exposta no primeiro parágrafo.
Não é minha intenção de forma alguma tentar simplificar Cidade dos Sonhos, mas apresentar um caminho lógico para o espectador que não conseguiu captar nenhum significado do filme. Em último caso, espero ter conseguido pelo menos gerar interesse pela obra-prima de David Lynch. Afinal, não é sempre que escrevo tanto, não é mesmo, minha gente?
O que está esperando? Veja o trailer!
ATOR PRINCIPAL
Philip Seymour Hoffman - CAPOTE
Terrence Howard - HUSTLE & FLOW
Heath Ledger - BROKEBACK MOUNTAIN
Joaquin Phoenix - WALK THE LINE
David Strathairn - GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
ATOR COADJUVANTE
George Clooney - SYRIANA
Matt Dillon - CRASH
Paul Giamatti - CINDERELLA MAN
Jake Gyllenhaal - BROKEBACK MOUNTAIN
William Hurt - A HISTORY OF VIOLENCE
ATRIZ PRINCIPAL
Judi Dench - MRS. HENDERSON PRESENTS
Felicity Huffman - TRANSAMERICA
Keira Knightley - PRIDE & PREJUDICE
Charlize Theron - NORTH COUNTRY
Reese Witherspoon - WALK THE LINE
ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams - JUNEBUG
Catherine Keener - CAPOTE
Frances McDormand - NORTH COUNTRY
Rachel Weisz - THE CONSTANT GARDENER
Michelle Williams - BROKEBACK MOUNTAIN
ANIMAÇÃO
HOWL'S MOVING CASTLE
TIM BURTON'S CORPSE BRIDE
WALLACE & GROMIT IN THE CURSE OF THE WERE-RABBIT
DIREÇÃO DE ARTE
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
HARRY POTTER AND THE GOBLET OF FIRE
KING KONG
MEMOIRS OF A GEISHA
PRIDE & PREJUDICE
FOTOGRAFIA
BATMAN BEGINS
BROKEBACK MOUNTAIN
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
MEMOIRS OF A GEISHA
THE NEW WORLD
FIGURINO
CHARLIE AND THE CHOCOLATE FACTORY
MEMOIRS OF A GEISHA
MRS. HENDERSON PRESENTS
PRIDE & PREJUDICE
WALK THE LINE
DIREÇÃO
BROKEBACK MOUNTAIN
CAPOTE
CRASH
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
MUNICH
DOCUMENTÁRIO
DARWIN'S NIGHTMARE
ENRON: THE SMARTEST GUYS IN THE ROOM
MARCH OF THE PENGUINS
MURDERBALL
STREET FIGHT
CURTA DOCUMENTÁRIO
THE DEATH OF KEVIN CARTER: CASUALTY OF THE BANG BANG CLUB
GOD SLEEPS IN RWANDA
THE MUSHROOM CLUB
A NOTE OF TRIUMPH: THE GOLDEN AGE OF NORMAN CORWIN
(não faço a menor idéia... não vou chutar)
EDIÇÃO
CINDERELLA MAN
THE CONSTANT GARDENER
CRASH
MUNICH
WALK THE LINE
FILME ESTRANGEIRO
DON'T TELL
JOYEUX NOèL
PARADISE NOW
SOPHIE SCHOLL - THE FINAL DAYS
TSOTSI
MAQUIAGEM
THE CHRONICLES OF NARNIA: THE LION, THE WITCH AND THE WARDROBE
CINDERELLA MAN
STAR WARS: EPISODE III REVENGE OF THE SITH
TRILHA SONORA ORIGINAL
BROKEBACK MOUNTAIN
THE CONSTANT GARDENER
MEMOIRS OF A GEISHA
MUNICH
PRIDE & PREJUDICE
CANÇÃO
"In the Deep" - CRASH
"It's Hard Out Here for a Pimp" - HUSTLE & FLOW
"Travelin' Thru" - TRANSAMERICA
MELHOR FILME
BROKEBACK MOUNTAIN
CAPOTE
CRASH
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
MUNICH
CURTA DE ANIMAÇÃO
BADGERED
THE MOON AND THE SON: AN IMAGINED CONVERSATION
THE MYSTERIOUS GEOGRAPHIC EXPLORATIONS OF JASPER MORELLO
9
ONE MAN BAND
(também não faço a menor idéia)
CURTA
AUSREISSER (THE RUNAWAY)
CASHBACK
THE LAST FARM
OUR TIME IS UP
SIX SHOOTER
(idem, idem)
KING KONG
MEMOIRS OF A GEISHA
WAR OF THE WORLDS
MIXAGEM DE SOM
THE CHRONICLES OF NARNIA: THE LION, THE WITCH AND THE WARDROBE
KING KONG
MEMOIRS OF A GEISHA
WALK THE LINE
WAR OF THE WORLDS
EFEITOS ESPECIAIS
THE CHRONICLES OF NARNIA: THE LION, THE WITCH AND THE WARDROBE
KING KONG
WAR OF THE WORLDS
ROTEIRO ADAPTADO
BROKEBACK MOUNTAIN
CAPOTE
THE CONSTANT GARDENER
A HISTORY OF VIOLENCE
MUNICH
ROTEIRO ORIGINAL
CRASH
GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK.
MATCH POINT
THE SQUID AND THE WHALE
SYRIANA
Surpreendente é o "esquecimento" do último Star Wars, que fora indicado em apenas uma categoria (maquiagem), e ainda por cima deve perder justamente para o fraco Crônicas de Nárnia (mas tem uma boa maquiagem).
Fiquei muito feliz que Dolly Parton (uma das minhas cantoras favoritas) foi indicada ao prêmio de melhor canção por Travellin' Thru', do filme Transamerica. Curioso: esse ano a lista de canções ficou restrita a apenas 3 nomes.
A premiação será no dia 5 de março. Como ainda falta muito tempo e as campanhas dos filmes ficam mais acirradas, é bem possível que meus palpites mudem com a proximidade do Oscar. Nas vésperas, eu postarei novamente a lista, com os candidatos mais fortes ao prêmio.
















