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Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães




Ela é filha de um músico amador da Tanzânia (!) e uma alemã. É também a dona de uma das vozes mais interessantes do jazz que eu já ouvi nos últimos tempos, e tem a vantagem de ser nova e promissora. Seu nome, também exótico, é Lyambiko e se você nunca ouviu falar da moça, não se desespere. Tem sempre uma primeira vez para tudo.

Estamos vivendo numa era em que não existe mais Ella Fitzgerald. Sarah Vaughan também já se foi. Billie Holiday morreu faz tempo. Nenhuma das famosas "grandes vozes" do jazz estão aí para contar história. São poucas também as cantoras "em meio de carreira". Por isso, a necessidade de buscar novos talentos nesse tão delicioso, sofisticado e pouco apreciado gênero musical. As minhas favoritas do momento são Jane Monheit (que eu tive o prazer de conhecer nesse ano, e vivo falando sobre ela nesse blogue e no outro) e Lyambiko.

Em primeiro lugar, o elemento divino, que é o seu timbre de voz. Talvez fruto da sua mistureba genética, é algo realmente único. Suave, macio, límpido. Depois vem a técnica. Lyambiko faz umas coisas inacreditáveis com a voz. Afinadíssima, inventiva, suas interpretações são usualmente coloridas e inovadoras, mas nunca exageradas. Ela quase nunca usa vibrato, mas encontra sempre uma maneira especial para terminar as frases. De vez em quando, ela ainda faz um pouco de "scat singing", o que me faz lembrar da saudosa Ella, embora Lyambiko soe como... Lyambiko. Autêntica.



Nada disso importaria se o seu repertório fosse algo que eu não gostasse. Sua consideravelmente curta discografia (tem quatro discos lançados) é marcada principalmente pela pluralidade cultural. Além dos obrigatórios (e numerosos) standards americanos, Lyambiko nos apresenta a canções africanas e revisita clássicos da nossa música popular brasileira, o que rende resultados em geral bastante interessantes. Em seu primeiro CD, Out of This Mood, ela canta "Chega de Saudade" em português mesmo, com um sotaque delicioso. No segundo (Shades of Delight), uma versão intensa de Dindi (em inglês), com quase 13 minutos. O terceiro, e talvez melhor álbum, vem com nada menos que 4 músicas da nossa terra, num total de 14: "Summer Samba", de Bebel Gilberto, abre o disco em inglês. As demais são todas em português. Uma delas é a bossa lenta e melô do notívago "Samba e Amor" de Chico Buarque (Eu faço samba e amor até mais tarde / e tenho muito sonho de manhã). Depois, uma inusitada e divertidíssima versão de O Pato, famosíssima na voz & violão de João Gilberto. Nesta, o sotaque de Lyambiko está engraçado e incompreensível, mas é compensado pelo excelente arranjo e solo de piano e violão. E outra, ouvir uma alemã cantando "Quen, quen, quen" não tem preço. E por fim, Tom Jobim está representado com "Corcovado".

Outras canções dignas de nota gravadas por ela está a minha adorada Miss Celie`s Blues, tema do filme A Cor Púrpura. No gênero climático, temos o delicioso "Stormy Weather", clássico na voz de Etta James, e "I`ve Got My Love to Keep Me Warm" (cuja versão de Ella e Louis Armstrong continua insuperável); posso citar ainda a bela canção africana Malaika; "If I Were a Bell", do musical "Guys and Dolls" é uma favorita pessoal. A lista de músicas boas é muito grande, é inútil citar todas aqui. (Mas o que ela faz em "Some Other Time" do fantástico compositor Leonard Bernstein é realmente algo especial - coloca a versão de Jane Monheit no chinelo, e olha que Monheit é minha cantora favorita).

Por fim, Lyambiko anda sempre acompanhada do excelente trio formado pelo pianista americano Marque Lowenthal, baixista canadense Robin Draganic e o baterista alemão Torsten Zwingenberger, o que rende vários ótimos solos em seus discos.

Para quem se sente órfão das grandes divas, Lyambiko tem talento o suficiente para gerar uma longa e bem-sucedida carreira musical. Espero ter a chance de poder acompanhá-la em seu desenvolvimento. Como Lyambiko quase nunca sai da Europa (ao contrário de Jane Monheit que vai todo ano pra Sampa), minha meta de vida a partir de agora é ficar rico o suficiente para trazer a cantora para o Brasil. (ok, antes disso eu tenho que comprar meu Steinway).

Fica aí uma palhinha da cantora com Summer Samba de Bebel Gilberto(é uma pena que o som desse vídeo esteja tão baixo):


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