O Código Da Vinci ★ ★
Ron Howard. The Da Vinci Code. EUA, 2006
Um dos livros mais lidos (e polêmicos) da história recente, O Código da Vinci reúne elementos que não poderiam dar errado: um caça ao tesouro que mistura sociedades secretas, lugares conhecidos e elementos religiosos, além da escrita "cinematográfica" de Dan Brown (leia-se: pouca/porca descrição, narrativa canhestra e capítulos curtos, o que também caracteriza a famosa "literatura de banheiro"). Se o livro é bom? Diria que tem (menos) altos e (mais) baixos, mas traz uma oportuna discussão sobre o papel da mulher na sociedade machista de 2.000 anos para cá. Ademais, como diria meu amigo Augusto, Dan Brown como escritor é um ótimo guia turístico; por isso, irei esperar a edição ilustrada do seu próximo livro, cujo título (ainda não definitivo) será A Chave de Salomão, e cuja história misturará a Maçonaria e Washington.
Costuma-se dizer que um filme baseado em um livro nunca é melhor que o seu material original. Considerando que este material é de origem duvidosa, só podíamos esperar um desastre "a nível de" cinema (eu sei que a expressão é errada, mas é muito divertida, principalmente quando usada por pessoas que acham ela correta). E é exatamente isso que O Código Da Vinci consegue.
Muitos são os problemas do filme. A preocupação de transmitir informações relevantes acaba criando uma infeliz faceta deste filme: os personagens estão presos às falas, eles cospem dados o tempo todo, de modo que é praticamente impossível identificar qualquer traço de suas personalidades. Sophie, por exemplo, além de ser parente de Jesus (ops, contei o final do filme), o que mais pode se dizer dela? É corajosa, tem problemas sociais, tem medo do escuro? Nadinha. O filme infelizmente prende-se às aparências, tanto dos personagens, quanto das belíssimas locações.
O roteiro de Akiva Goldsman (que cometeu Batman & Robin e Uma Mente Brilhante) tenta se esquivar de toda a polêmica gerada pelo livro, minimizando ao final, o papel da Igreja na manipulação da história. E o que é pior, algumas das modificações entre livro e filme incluem retirar as descobertas de Sophie no caça ao tesouro e transferi-las integralmente para Bob Langdon. E isso porque a história originalmente defendia a importância do papel da mulher na sociedade e como esta vem sendo minimizada por instituições como a Igreja.
Outro grave problema de O Código Da Vinci (talvez o principal) é a incrível falta de diversão. Ao longo de duas horas e meia de projeção, nunca temos a impressão de que os personagens principais (Robert Lagdon, Sophie Neveu) estão de fato com vontade de descobrir um maravilhoso tesouro; perceba a diferença de comportamento entre os personagens deste e de A Lenda do Tesouro Perdido, que por mais defeitos que tivesse, ao menos era bastante divertido e empolgante. Parece que houve um problema entre diretor e roteirista em selecionar as passagens com maior potencial cinematográfico do livro (acredite, ele está cheio). O diretor acaba investindo tempo precioso em cenas clichês como uma perseguição de carros em Paris (muito mal filmada, é verdade), e não consegue criar a expectativa necessária para a descoberta de um grande segredo da humanidade, que era a força sustentadora do livro. Um dos melhores elementos do texto de Dan Brown era a possibilidade de o leitor acompanhar os enigmas e poder decifrá-los; essa possibilidade foi-se embora no filme de Howard.
Se o filme não preza pela inteligência do espectador e não consegue criar um argumento interessante e consistente, pelo menos podia ser compensado com cenas emocionantes, ou algum suspense. Howard não consegue nada disso. O grande "segredo", que eu dedurei alguns parágrafos a cima, é contado num momento de suposta densidade dramática, mas o resultado acaba sendo inverso. Senti vontade de dar risada (e alguns o fizeram na sessão), visto que tal absurdo não criou nenhum impacto nos personagens envolvidos. Além disso, o final do filme consegue ainda ser mais patético que o livro que, por pior que fosse, não tentou criar nenhuma piadinha envolvendo os milagres de Jesus.
O filme tem alguns méritos, é verdade. Ron Howard é um hábil ilustrador e utiliza efeitos visuais semelhantes aos de Uma Mente Brilhante, criando um interessante resultado. Gosto também das recmoposições históricas que o diretor faz enquanto os personagens estão explicando alguma coisa, algo não muito raro durante a projeção. Pena que ele mal aproveite seu competente elenco. O único que realmente se destaca é Ian McKellen, que coloca alguma energia em sua performance, e não atua de maneira burocrática.
Talvez o principal problema do filme seja, no entanto, a falta de coragem de assumir a mesma postura polêmica do livro. Enquanto o texto de Dan Brown constantemente fala sobre a manipulação da Igreja com relação à condição de Jesus na Terra e a importância do Sagrado Feminino em religiões pagãs anterioras ao cristianismo, sendo substituido gradativamente pela imposição de uma sociedade machista e preconceituosa, o filme minimiza tais ataques. Perceba como na cena em que Teabling (McKellen) e Langdon discutem sobre o Santo Graal, o professor simbolista parece muitas vezes indignado com as colocações do seu amigo historiador, ao passo que, no livro, ele se lmita a fazer comentários complementares.
É uma pena, portanto, que o filme não mostre a que veio: é uma adaptação medrosa, oportunista, duvidosa e caça-níqueis de um livro que é, por si só, manipulador, distorce a história a seu bel-prazer e limitado estilisticamente. Realmente, não podia sair nada que preste.
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Amanhã tem XMEN3, ueba!!!


Viny, você não podia ter traduzido melhor o que eu senti quando vi o filme...
Até porque o livro já havia me decepcionado...
Do mesmo jeito que eu fiquei com aquela cara de "SEI LÁ, ERA PRA SER ISSO MESMO?" quando terminei o livro, eu saí do filme...
Sem saber se tinha valido à pena os R$4,00 que paguei para ver o filme no cimema de Ilhéus (já que Itabuna não entrou na estréia mudial)...
Beijos