No próximo domingo, teremos a festa do Oscar. Por isso, pretendo atualizar o blog nos próximos dias com os principais concorrentes. Por enquanto, vai um filmão bem água-com-açúcar:
Orgulho e Preconceito ★ ★ ★ ★ ★
Joe Wright. Pride and Prejudice. França/RU, 2005.
Baseado na obra da escritora inglesa Jane Austen, o filme retrata a história de amor a humilde porém altiva garota Elizabeth Bennet e o taciturno e rico Mr. Darcy. Encontros e desencontros a parte, o enredo é clássico: muito orgulho de ambos os lados, e o preconceito da alta sociedade, retratado pela sempre excelente atriz Judi Dench, para, no fim, o amor reinar. Convencionalismos à parte, o filme é belíssimo.
A câmera do estreante diretor Joe Wright surpreende: sua imagem convida o espectador a penetrar nos lares e festas retratados no roteiro, bisbilhotando conversas de um lado, capturando comentários e atitudes que definirão o comportamento dos personagens. A fotografia é soberba; é realmente um absurdo que não esteja concorrendo ao prêmio da Academia; desde Herói, não vejo imagens tão belas num filme, ajudando o fato de que a direção de arte é extremamente competente no sentio de recriar a era vitoriana.
Obviamente, tanta beleza e competência artística não iria adiantar se a história não empolgasse. Alguém já disse uma vez que só existem 48 histórias e o restante são variações dos mesmos temas; o universo do romance é ainda mais limitado. Em suma, todas as histórias de amor já foram contadas. Por isso, em filmes desse gênero, acaba prevalecendo a forma em favor do conteúdo; é o modo como o diretor concebe suas imagens que ainda permite alguma criatividade. Orgulho e Preconceito tem a história mais batida do mundo: garota pobre e rapaz rico se apaixonam e no fim ficam juntos. Aliás, o próprio filme já foi adaptado diversas vezes para o cinema. Contudo, algumas sutilezas fazem deste um bom filme, embora as palavras "originalidade" e "criatividade" nunca poderão ser usadas para descrever seu roteiro.
Há, no entanto, uma grata surpresa: a atriz Keira Knightley. Keira, Keira, Keira. E mais Keira. Com apenas 20 aninhos (todos os seus fãs comemorão o seu próximo aniversário no dia 26 de março), Keira estourou nas telas no ótimo Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra. Depois disso, fez a porcaria chamada Rei Arthur e agora, finalmente tem a chance de brilhar - e sua indicação ao Oscar foi muito bem vinda (embora tenha que aguentar os comentários maldosos dos seus companheiros de atuação de Piratas do Caribe, que a zoam em cada cena mais intensa, dizendo que é uma "cena de Oscar"). Keira é a simpatia em pessoa no filme, e sua língua afiada faz dela ainda mais adorável; por isso sua personagem Elizabeth é tão carismática. Até mesmo os desencontros com Mr. Darcy são expostos de maneira verossímil; ao invés de acreditar na conversa dos outros, a garota tenta esclarecer os mal-entendidos na primeira oportunidade que tem, evitando o típico clichê de filmes românticos.
Joe Wright ainda nos brinda com diálogos sempre interessantes (vide o confronto da personagem de Judi Dench com nossa querida Lizzie Bennet), cenas divertidas (as mulheres da família Bennet tem o "dom" para arrumar um ambiente em segundos) e atuações primorosas (todo o elenco é muito bom, mas não posso deixar de citar os veteranos Donald Sutherland e Brenda Blethyn nos papéis de Mr. e Mrs Bennet). Mesmo com tantos méritos, o filme é completa e totalmente previsível. No início da projeção, encontramos dois personagens que não se toleram: Elizabeth tem aversão à futilidade dos ricos, ao passo que Mr. Darcy vê nela uma garota grosseira. Também sabemos que os dois irão se apaixonar e se casar, e o que o filme acabará aí. Se o querido leitor também está convencido, como eu, que nem sempre "mais do mesmo" é algo ruim, Orgulho e Preconceito é uma prova inconteste de que uma história bem contada (mesmo conhecida) vale o preço do ingresso.



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