Desde sábado, estou sentindo uma dorzinha chata e incômoda, que aumentou repentinamente ontem à tarde. Tomei um Anador, depois de recomendações da minha progenitora, e hoje acordei legal. Na aula de Administração e Organização, a fdp voltou, e foi crescendo, crescendo, crescendo, crescendo. Voltei para casa, almocei, tomei mais um Anador e dormi, das 14 horas até às 19. Estou legal, mas ainda sinto a fdp ali, só esperando o efeito do remédio passar para voltar a me atormentar.
Relembrando os últimos 20 anos da minha vida, essa foi sem dúvida a pior dor de cabeça de todas que eu já tive. Dificilmente eu tenho dores de cabeça. Minha irmã, coitada, vive com essas dores. Meu amigo Pierre já me disse que as tem direto. Meu amigo Rafael, vira e mexem se queixa de dores de cabeça. E eu, sempre reinei incólume, até os dias hodiernos.
Meu Deus, o que foi que eu fiz.
Então, no ônibus, com a cabeça latejando em intervalos praticamente constantes, com t < 1s (seria minha dor sinusoidal?), voltando para casa, pensei nas possíveis causas de tamanho sofrimento. Minhas conclusões menos chocantes:
1. Algum desafeto fez um vodu e enfiou na cabeça do boneco uma agulha de costurar.
2. O chip que os alienígenas colocaram no meu cérebro está com defeito, ou se auto-destruindo, o que me fez implorar para que eles retornassem e trocassem o aparelhinho. Espero que eles o façam de madrugada (de qualquer sorte, não me lembrarei de nada mesmo).
As conclusões mais chocantes envolvem AVCs, cânceres, hemorragias internas e outras coisas mais desagradáveis.
O pior de tudo é que, tenho a leve impressão, essa dor de cabeça tem ares pré-cognitivos. Mais detalhes em breve.
Como tenho vários filmes para falar, tecerei comentários limitados e superficiais sobre cada um deles:
Diários de Motocicleta
★ ★ ★ ★
Walter Salles
The Motorcycle Diaries. Estados Unidos / Alemanha / Reino Unido / Argentina / Chile / Peru / França, 2004.
Ernestinho vai viajar pela América e descobre a fome, o frio, a filhadaputice e os leprosos do outro lado do rio. E nós descobrimos um jovem que iria se tornar o ídolo pop Che Guevara. Belíssimo tudo, menos a chata cena da travessia do lago (metáfora barata).
Blade: Trinity
★
David S. Goyer
Idem. Estados Unidos, 2004.
(Saudade de filmes ruins) Blade 3 vomita tudo de bom que fora feito no ótimo Blade 2 ao contar uma história previsível, chata e terrivelmente dirigida.
Antes do Amanhecer
★ ★ ★ ★ ★
Richard Linklater
Before Sunrise. Estados Unidos / Áustria / Suiça, 1995.
O nascimento de uma paixão? Como Linklater conseguiu mostrar isso de forma tão competente, só assistindo para ver. Apaixonante.
Antes do Pôr-do-Sol
★ ★ ★ ★ ★
Richard Linkater
Before Sunset. Estados Unidos, 2004.
Tão bom quanto seu antecessor. E isso significa bastante.
Jogos Mortais
★ ★
James Wan
Saw. Estados Unidos, 2004.
Parodiando American Pie 2, a segunda vez é ainda pior. Todos os absurdos parecem saltar com mais facilidade. O que uma péssima direção não faz com um filme...
Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
★ ★
Kim Ki-duk
Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom. Coréia do Sul / Alemanha, 2003.
Na primavera, o garoto descobre que não deve fazer mal aos animais. O verão é quente e rola putaria. O restante das estações me deu sono, pelas metáforas risíveis e pseudo-existencialistas. A fotografia é linda, o roteiro é uma chatura imensa.
Evil - Raízes do Mal
★
Mikael Håfström
Ondskan. Suécia, 2003.
Bullyng na Suécia? Quem se importa! Clichê do começo ao fim e cortes bizarros marcam o pior filme sueco que eu já vi (e o único, por enquanto).
Secretária
★ ★ ★ ★ ★
Steven Shainberg
Secretary. Estados Unidos, 2002.
Ela é masoquista, ele é sádico.. "É o amor..." Um mergulho ao bizarro universo do SM com seriedade apropriada. Ótima trilha de Angelo Badalamenti, excelente perfomance de Maggie Gyllenhaall, filme bacana.
As Bicicletas de Belleville
★ ★ ★ ★ ★
Sylvain Chomet
Les Triplettes de Belleville. França / Bélgica / Canadá / Reino Unido, 2003.
Quatro velhinhas carismáticas, musicalidade à flor da pele, um cachorro com densidade psicológica, crítica ao consumismo americano e muitas camadas fazem do desenho animado francês uma obra para ser vista e revista.
Rashomon
★ ★ ★ ★
Akira Kurosawa
Idem. Japão, 1950.
O clássico de Akira Kurosawa diz e eu assino embaixo: "a verdade não existe". (se as cenas de luta não fossem toscas...)
Eterno Amor
★ ★ ★ ★
Jean-Pierre Jeunet
Un long dimanche de fiançaille. França / Estados Unidos, 2004.
Amélie Poulain vai à Guerra. Jeunet demonstra que não perdeu sua inventividade, ainda que a história não seja lá tão interessante.
Conversando com Mamãe
★ ★ ★
Santiago Carlos Oves
Conversaciones con Mamá. Argentina / Espanha, 2004.
Simples, singelo, divertido e comovente (preciso de adjetivos novos). Por favor, um Oscar para China Zorrilla.
Aprendendo a Mentir
★
Hendrik Handloegten
Liegen lernen. Alemanha, 2003.
Fazia tempo que não assistia a algo tão ruim. Pelo menos a cadeira do Reserva Cultural é confortável e eu pude dormir à vontade.
Cubo
★ ★ ★
Vincenzo Natali
Cube. Canadá, 1997.
O que é o cubo? Não importa! O filme é um mergulho numa realidade bizarra e medonha, que segue uma lógica própria. Direção competente + bons momentos de tensão + comportamento humano em situações extremas = filme legal.


...Cubo 2 e Cubo 0 transformam essa trilogia na pior já feita
Cubo Zero
●
Ernie Barbarash
Cube Zero. Canadá, 2004.
Bomba, bomba, bomba. Consegue ser pior que Hipercubo e, por tentar explicar alguma coisa, ainda estraga o primeiro filme. Um argumento teológico interessante fica perdido no meio de uma baboseira tão grande que chega a ser ofensiva. O final é constrangedor. Cubo Zero deveria ter ficado lá na prateleira da locadora - ou melhor, nem ter sido filmado.
Diários de Motocicleta
★ ★ ★ ★
Walter Salles
The Motorcycle Diaries. Estados Unidos / Alemanha / Reino Unido / Argentina / Chile / Peru / França, 2004.
Ernestinho vai viajar pela América e descobre a fome, o frio, a filhadaputice e os leprosos do outro lado do rio. E nós descobrimos um jovem que iria se tornar o ídolo pop Che Guevara. Belíssimo tudo, menos a chata cena da travessia do lago (metáfora barata).
Blade: Trinity
★
David S. Goyer
Idem. Estados Unidos, 2004.
(Saudade de filmes ruins) Blade 3 vomita tudo de bom que fora feito no ótimo Blade 2 ao contar uma história previsível, chata e terrivelmente dirigida.
Antes do Amanhecer
★ ★ ★ ★ ★
Richard Linklater
Before Sunrise. Estados Unidos / Áustria / Suiça, 1995.
O nascimento de uma paixão? Como Linklater conseguiu mostrar isso de forma tão competente, só assistindo para ver. Apaixonante.
Antes do Pôr-do-Sol
★ ★ ★ ★ ★
Richard Linkater
Before Sunset. Estados Unidos, 2004.
Tão bom quanto seu antecessor. E isso significa bastante.
Jogos Mortais
★ ★
James Wan
Saw. Estados Unidos, 2004.
Parodiando American Pie 2, a segunda vez é ainda pior. Todos os absurdos parecem saltar com mais facilidade. O que uma péssima direção não faz com um filme...
Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
★ ★
Kim Ki-duk
Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom. Coréia do Sul / Alemanha, 2003.
Na primavera, o garoto descobre que não deve fazer mal aos animais. O verão é quente e rola putaria. O restante das estações me deu sono, pelas metáforas risíveis e pseudo-existencialistas. A fotografia é linda, o roteiro é uma chatura imensa.
Um gosta de bater, a outra gosta de apanhar
Evil - Raízes do Mal
★
Mikael Håfström
Ondskan. Suécia, 2003.
Bullyng na Suécia? Quem se importa! Clichê do começo ao fim e cortes bizarros marcam o pior filme sueco que eu já vi (e o único, por enquanto).
Secretária
★ ★ ★ ★ ★
Steven Shainberg
Secretary. Estados Unidos, 2002.
Ela é masoquista, ele é sádico.. "É o amor..." Um mergulho ao bizarro universo do SM com seriedade apropriada. Ótima trilha de Angelo Badalamenti, excelente perfomance de Maggie Gyllenhaall, filme bacana.
As Bicicletas de Belleville
★ ★ ★ ★ ★
Sylvain Chomet
Les Triplettes de Belleville. França / Bélgica / Canadá / Reino Unido, 2003.
Quatro velhinhas carismáticas, musicalidade à flor da pele, um cachorro com densidade psicológica, crítica ao consumismo americano e muitas camadas fazem do desenho animado francês uma obra para ser vista e revista.
Rashomon
★ ★ ★ ★
Akira Kurosawa
Idem. Japão, 1950.
O clássico de Akira Kurosawa diz e eu assino embaixo: "a verdade não existe". (se as cenas de luta não fossem toscas...)
Eterno Amor
★ ★ ★ ★
Jean-Pierre Jeunet
Un long dimanche de fiançaille. França / Estados Unidos, 2004.
Amélie Poulain vai à Guerra. Jeunet demonstra que não perdeu sua inventividade, ainda que a história não seja lá tão interessante.
Mais cuidado na próxima visita ao Reserva Cultural...
Conversando com Mamãe
★ ★ ★
Santiago Carlos Oves
Conversaciones con Mamá. Argentina / Espanha, 2004.
Simples, singelo, divertido e comovente (preciso de adjetivos novos). Por favor, um Oscar para China Zorrilla.
Aprendendo a Mentir
★
Hendrik Handloegten
Liegen lernen. Alemanha, 2003.
Fazia tempo que não assistia a algo tão ruim. Pelo menos a cadeira do Reserva Cultural é confortável e eu pude dormir à vontade.
Cubo
★ ★ ★
Vincenzo Natali
Cube. Canadá, 1997.
O que é o cubo? Não importa! O filme é um mergulho numa realidade bizarra e medonha, que segue uma lógica própria. Direção competente + bons momentos de tensão + comportamento humano em situações extremas = filme legal.


...Cubo 2 e Cubo 0 transformam essa trilogia na pior já feita
Hipercubo
★
Andrzej Sekula
Cube 2: Hypercube. Canadá, 2002.
Esqueça o Cubo 1. Esqueça as duas personagens legais (a velhinha esclerosada e a garota cega). Hipercubo só não é uma bomba completa porque tem um visual interessante.
★
Andrzej Sekula
Cube 2: Hypercube. Canadá, 2002.
Esqueça o Cubo 1. Esqueça as duas personagens legais (a velhinha esclerosada e a garota cega). Hipercubo só não é uma bomba completa porque tem um visual interessante.
Cubo Zero
●
Ernie Barbarash
Cube Zero. Canadá, 2004.
Bomba, bomba, bomba. Consegue ser pior que Hipercubo e, por tentar explicar alguma coisa, ainda estraga o primeiro filme. Um argumento teológico interessante fica perdido no meio de uma baboseira tão grande que chega a ser ofensiva. O final é constrangedor. Cubo Zero deveria ter ficado lá na prateleira da locadora - ou melhor, nem ter sido filmado.
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Eu também não gosto desses comentariozinhos vagabundos, mas fazer o que, né? Mas espero me redimir, publicando em breve, textos sobre A Ilha, Sin City, Castelo Animado e A Fantástica Fábrica de Chocolates.
O que é esse sítio, não é mesmo, minha gente?
Postado por Vinícius em 22 de agosto de 2005 às 20:25.
Tanto tempo sem atualizar o IMHO é explicado facilmente. Gripe + compromissos politécnicos + compromissos DeMolay = falta de tempo.
Sim, ainda estou gripado, agora começou a parte chata da tosse.
Mas, vamos lá, vou continuar à saga dos filmes transcedentais:
Intervenção Divina
★ ★ ★ ★
Elia Suleiman
Yadon ilaheyya. França/Marrocos/Alemanha/Palestina, 2002.
Filme palestino dos mais interessantes. Através de uma série de esquetes envolvendo brigas entre vizinhos, todas esdrúxulas, o diretor cria uma insuspeita expansão, comprovando o absurdo que é a briga entre Palestinos e Israelenses. As viagens de Elia Suleiman são significativas. Do político (um balão com o rosto de Arafat viajando por Israel) ao pessoal (tudo aquilo que não entendemos o motivo, como os milhares de post it numa parede, ou a frase "sou louco porque amo você" - afinal, o diretor-ator principal encarna o personagem E. S.), temos um filme deliciosamente transcedental, cujo ápice é a hilária cena da "ninja palestina", uma seqüência tão surpreendente quanto engraçada - realmente, só uma ninja para vencer o poder militar israelita. Um filme com muitas camadas.
O Trem de Zhou Yu
★
Zhou Sun
Zhou Yu de huo che. China/Hong Kong, 2002.
Um ECA de filme. O único sentimento que ele gerou em mim foi sonolência.
Perdi um Tony Leung, (pelo menos) ganhei uma Gong Li.
Ainda tenho MONTES de filmes para comentar...
Sim, ainda estou gripado, agora começou a parte chata da tosse.
Mas, vamos lá, vou continuar à saga dos filmes transcedentais:
Intervenção Divina
★ ★ ★ ★
Elia Suleiman
Yadon ilaheyya. França/Marrocos/Alemanha/Palestina, 2002.
Filme palestino dos mais interessantes. Através de uma série de esquetes envolvendo brigas entre vizinhos, todas esdrúxulas, o diretor cria uma insuspeita expansão, comprovando o absurdo que é a briga entre Palestinos e Israelenses. As viagens de Elia Suleiman são significativas. Do político (um balão com o rosto de Arafat viajando por Israel) ao pessoal (tudo aquilo que não entendemos o motivo, como os milhares de post it numa parede, ou a frase "sou louco porque amo você" - afinal, o diretor-ator principal encarna o personagem E. S.), temos um filme deliciosamente transcedental, cujo ápice é a hilária cena da "ninja palestina", uma seqüência tão surpreendente quanto engraçada - realmente, só uma ninja para vencer o poder militar israelita. Um filme com muitas camadas.
O Trem de Zhou Yu
★
Zhou Sun
Zhou Yu de huo che. China/Hong Kong, 2002.
Um ECA de filme. O único sentimento que ele gerou em mim foi sonolência.
Perdi um Tony Leung, (pelo menos) ganhei uma Gong Li.
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Ainda tenho MONTES de filmes para comentar...
Segundo o dicionário Houaiss:
Datação
1672-1693 cf. MonLus
Acepções
■ substantivo feminino
1 caráter do que é 1transcendente
2 superioridade de inteligência; perspicácia, sagacidade
3 importância superior
Ex.: questões de grande t.
4 Rubrica: filosofia.
na tradição metafísica (esp. o neoplatonismo e a escolástica), caráter inerente a um princípio ou ser divino que ultrapassa radicalmente a realidade sensível, e com a qual mantém, em decorrência de sua perfeição e superioridade absolutas, uma relação de soberania e de distância
5 Rubrica: filosofia.
no kantismo, qualidade apresentada pelas idéias que, embora pertencentes ao âmbito da especulação racional humana, caracterizam-se por ultrapassar os dados oferecidos pela experiência, sendo por isso inapropriadas para o conhecimento
6 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
na fenomenologia e esp. no existencialismo, ação por meio da qual a existência humana ultrapassa a sua realidade imediata, alcançando o mundo objetivo, a temporalidade inaparente (o passado e o futuro) e a liberdade
7 Rubrica: religião.
para os teístas, qualidade de Deus em relação ao mundo e aos seres que Ele criou
Etimologia
lat. transcendentìa,ae 'ação de subir, de escalar', der. de transcendère 'passar subindo, atravessar, ultrapassar, transpor'; ver -scend-; f.hist. 1672-1693 transcendencia
Sinônimos
elevação, excelência, importância, majestade, metafísica, proeminência, sobreeminência, sobrepujamento, sobrepujança, sublimidade, supereminência, superioridade
Antônimos
imanência
Pois bem, eu e meus amigos Felipe e Aian Cotrim nas férias, incluímos a palavra e seus derivados, como o verbo transcender, para classificar aqueles filmes que superam os limites da compreensão. Em outras palavras, o tipo de filme que o espectador fica "viajando", sem entender bulhufas. Convenhamos: é muito mais inteligente falar que "esse filme transcendeu as fronteiras da compreensão" do que o simples e burro "não entendi"...
Pode até parecer brincadeira, mas a questão de "não compreender" um filme é muito complexa, uma vez que envolve duas partes: a obra em si e o espectador. Se o espectador não consegue compreender, isto é, não consegue distinguir um significado lógico ou experimental da coleção de imagens vistas, há, ao meu ver, dois prováveis culpados:
1. Um deles é o diretor, que elaborou uma narrativa confusa ou repleta de símbolos tão pessoais que se distancia da realidade vivida pelo espectador, fazendo com que as imagens não disponham de significado algum para o receptor, transformando a experiência num completo fracasso.
2. O outro culpado pode ser o espectador que, por motivos diversos (sono, falta de concentração, falta de seriedade, burrice, etc.) foi incapaz de compreender a intenção do diretor (admitindo como hipótese que houve realmente uma intenção).
Por outro lado, a sensação de "burrice" ao assistir a um filme transcendental é frustrante. Considero uma postura correta e adequada de um espectador que não se posicione acima da obra, mesmo que varie de um Quarteto Fantástico a um Amor à Flor da Pele. Cada um, a sua maneira, pode vir a ter um valor diverso para o espectador. Com essa postura de inferioridade à obra, contudo, quando se assiste a um filme e não se consegue compreender a mensagem, sempre supondo que existe uma, é natural não se sentir bem - no entanto, é importante saber se vale a pena tentar mais uma vez ou abandonar o entretenimento-que-não-deu-certo.
Toda essa longa introdução tem como utilidade explicitar o conceito utilizado em alguns filmes vistos por mim nessas férias, cada um com sua dose de transcedência.
Dolls
★ ★
Takeshi Kitano Dolls. Japão, 2002.
Confesso que aluguei esse filme mais pela trilha sonora do Joe Hisaishi do que pelas próprias credenciais do diretor, que não conhecia em absoluto. Considerando o histórico do IMHO, dá para perceber que eu adoro o cinema oriental, particularmente chinês, embora não tenha visto nada absolutamente maravilhoso (exceto as animações do Myazaki) vindo do Japão. Infelizmente, não foi com Dolls que o Japão subiu em meu conceito.
O filme conta três histórias, cada uma delas evocando o espírito oriental extremista. As ações dos personagens envolvidos, a sua maneira, variam de um amor intenso à loucura obsessiva, sendo que essa fronteira nem sempre é nítida. O resultado de tais histórias geram sentimentos contraditórios no espectador (estranheza define bem a primeira história, enquanto a atitude do personagem que é fanático por uma cantora pop causa um enorme choque).
E o pior de tudo é que a trilha sonora de Joe Hisaishi nem é tão boa assim.
Datação
1672-1693 cf. MonLus
Acepções
■ substantivo feminino
1 caráter do que é 1transcendente
2 superioridade de inteligência; perspicácia, sagacidade
3 importância superior
Ex.: questões de grande t.
4 Rubrica: filosofia.
na tradição metafísica (esp. o neoplatonismo e a escolástica), caráter inerente a um princípio ou ser divino que ultrapassa radicalmente a realidade sensível, e com a qual mantém, em decorrência de sua perfeição e superioridade absolutas, uma relação de soberania e de distância
5 Rubrica: filosofia.
no kantismo, qualidade apresentada pelas idéias que, embora pertencentes ao âmbito da especulação racional humana, caracterizam-se por ultrapassar os dados oferecidos pela experiência, sendo por isso inapropriadas para o conhecimento
6 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
na fenomenologia e esp. no existencialismo, ação por meio da qual a existência humana ultrapassa a sua realidade imediata, alcançando o mundo objetivo, a temporalidade inaparente (o passado e o futuro) e a liberdade
7 Rubrica: religião.
para os teístas, qualidade de Deus em relação ao mundo e aos seres que Ele criou
Etimologia
lat. transcendentìa,ae 'ação de subir, de escalar', der. de transcendère 'passar subindo, atravessar, ultrapassar, transpor'; ver -scend-; f.hist. 1672-1693 transcendencia
Sinônimos
elevação, excelência, importância, majestade, metafísica, proeminência, sobreeminência, sobrepujamento, sobrepujança, sublimidade, supereminência, superioridade
Antônimos
imanência
Pois bem, eu e meus amigos Felipe e Aian Cotrim nas férias, incluímos a palavra e seus derivados, como o verbo transcender, para classificar aqueles filmes que superam os limites da compreensão. Em outras palavras, o tipo de filme que o espectador fica "viajando", sem entender bulhufas. Convenhamos: é muito mais inteligente falar que "esse filme transcendeu as fronteiras da compreensão" do que o simples e burro "não entendi"...
Pode até parecer brincadeira, mas a questão de "não compreender" um filme é muito complexa, uma vez que envolve duas partes: a obra em si e o espectador. Se o espectador não consegue compreender, isto é, não consegue distinguir um significado lógico ou experimental da coleção de imagens vistas, há, ao meu ver, dois prováveis culpados:
1. Um deles é o diretor, que elaborou uma narrativa confusa ou repleta de símbolos tão pessoais que se distancia da realidade vivida pelo espectador, fazendo com que as imagens não disponham de significado algum para o receptor, transformando a experiência num completo fracasso.
2. O outro culpado pode ser o espectador que, por motivos diversos (sono, falta de concentração, falta de seriedade, burrice, etc.) foi incapaz de compreender a intenção do diretor (admitindo como hipótese que houve realmente uma intenção).
Cena de Cidade dos Sonhos - filme que transcende na medida certa
Assim, quando um filme transcende, a reação óbvia de algumas pessoas é xingar a obra, como sempre acontece quando alguém assiste ao meu adorado Cidade dos Sonhos, de David Lynch. Para mim, este é um exemplo de filme que transcende satisfatoriamente, à medida que muito de seus elementos são explicados durante a narrativa, ainda que seja necessário assistir ao filme mais de uma vez, para que compreenda toda a extensão dos fatos (além de uma visão simbolista). O importante é que a sensação ao terminar de ver o Cidade dos Sonhos é que tem alguma coisa ali, algo que, se você assistir de novo, certamente irá notar. Enfim, depara-se com muitas possibilidades de significados, fazendo com que a tarefa do espectador seja organizá-los.Por outro lado, a sensação de "burrice" ao assistir a um filme transcendental é frustrante. Considero uma postura correta e adequada de um espectador que não se posicione acima da obra, mesmo que varie de um Quarteto Fantástico a um Amor à Flor da Pele. Cada um, a sua maneira, pode vir a ter um valor diverso para o espectador. Com essa postura de inferioridade à obra, contudo, quando se assiste a um filme e não se consegue compreender a mensagem, sempre supondo que existe uma, é natural não se sentir bem - no entanto, é importante saber se vale a pena tentar mais uma vez ou abandonar o entretenimento-que-não-deu-certo.
Toda essa longa introdução tem como utilidade explicitar o conceito utilizado em alguns filmes vistos por mim nessas férias, cada um com sua dose de transcedência.
Dolls
★ ★
Takeshi Kitano Dolls. Japão, 2002.
Confesso que aluguei esse filme mais pela trilha sonora do Joe Hisaishi do que pelas próprias credenciais do diretor, que não conhecia em absoluto. Considerando o histórico do IMHO, dá para perceber que eu adoro o cinema oriental, particularmente chinês, embora não tenha visto nada absolutamente maravilhoso (exceto as animações do Myazaki) vindo do Japão. Infelizmente, não foi com Dolls que o Japão subiu em meu conceito.
O filme conta três histórias, cada uma delas evocando o espírito oriental extremista. As ações dos personagens envolvidos, a sua maneira, variam de um amor intenso à loucura obsessiva, sendo que essa fronteira nem sempre é nítida. O resultado de tais histórias geram sentimentos contraditórios no espectador (estranheza define bem a primeira história, enquanto a atitude do personagem que é fanático por uma cantora pop causa um enorme choque).
Exuberante fotografia, filme nem tanto
Apesar da belíssima fotografia, Kitano enche o saco quando mostra os personagens andando, andando e andando. Além disso, é inexplicável a adição de dois personagens (um deles, deficiente, com alguma espécie de distúrbio degenerativo). E, por fim, sua relação com os bonecos, ao fim, transcende, o que me faz questionar os méritos de sua imagem: afinal, ele tenta humanizar bonecos ou plastificar seres humanos? O resultado distancia-se do satisfatório.E o pior de tudo é que a trilha sonora de Joe Hisaishi nem é tão boa assim.
_______________________________
Considerando o postulado de que posts longos não fazem sucesso, paro por aqui. Em breve, mais filmes transcedentais.
Não, a Poli não me matou (ainda). A instituição, contudo, já iniciou o semestre de maneira voraz. Estou ADORANDO as disciplinas Engenharia Econômica e Financeira e Controle de Qualidade - as demais, ainda não engrenaram.
Peço, portanto, desculpas ao meu Blog por nunca mais atualizá-lo. Segue, abaixo, texto sobre o-filme-mais-maravilhoso-dos-últimos-tempos:
Amor à flor da pele
★ ★ ★ ★ ★
Wong Kar-Wai
Fa yeung nin wa. Hong Kong/França/Tailândia, 2000.
Às vezes, acontece uma conspiração celestial, ou uma intervenção divina (comentarei sobre esse filme em breve), para que aconteça algo tão especiale. Por alguma força mágica do destino, reuniu-se o diretor Wong Kar-Wai, o fotógrafo Christopher Doyle (que fez o também estupendo Herói), e os atores Tony Leung e Maggie Cheung (donos de uma química invejável, eles também fazem par romântico em Herói). Essas pessoas fizeram um dos filmes mais lindos que eu já pude assistir.
Dizer que Amor à Flor da Pele é estupendo, magnífico, único, brilhante é fácil. São belos adjetivos, mas só assistindo (com muita atenção!) a essa maravilhosa obra cinematográfica, para fazer jus a suas tantas qualidades. Eu mesmo já tinha visto antes, e feito a anotação para ver de novo, pois percebi que não tinha prestado a atenção necessária (confesso que estava morrendo de sono na ocasião). Trata-se da história de Chow Mo-wan (Leung) e Su Li-zhen Chan (Cheung): vizinhos, descobrem que seus respectivos cônjuges "pulando a cerca". Unidos pela dor, começam a se ver com mais freqüência e descobrem gostos comuns, na conservadora Hong Kong da década de 60.
Diversas curiosidades cercam o filme chinês. Wong Kar-Wai, que não costuma escrever roteiros, tira toda a história de sua cabecinha, o que deixa os atores completamente loucos. A atriz Maggie Cheung, numa entrevista, disse que o processo deixava ela louca. Mas assistindo ao resultado, percebeu que valeu a pena (nós também percebemos isso, Maggie...). Aliás, Kar-Wai levou 15 meses para terminar o longa! Não é à toa que Amor à flor da pele acaba de ganhar um spin off: o "novo" filme de Wong Kar-Wai (filmado em 2004) chama-se 2046 (o número do quarto em que Chow e Chan se encontravam), cujo personagem principal é o mesmíssimo Mr. Chow, interpretado novamente por Tony Leung. Ao que parece, contudo, Maggie Cheung pouco aparece, mas o filme ganho o reforço das maravilhosas atrizes Zhang Ziyi e Gong Li.
Se deixo de fazer jus a algum aspecto do filme, é mais por necessidade do que por incompetência. Amor à Flor da Pele é aquele tipo de filme que, de tão bom, as palavras se perdem e qualquer tentativa de trazudir em código escrito a força de sua imagem acaba se mostrando fracassada, uma vez só assistindo à obra para se ter uma dimensão de sua exímia qualidade.
Peço, portanto, desculpas ao meu Blog por nunca mais atualizá-lo. Segue, abaixo, texto sobre o-filme-mais-maravilhoso-dos-últimos-tempos:
Amor à flor da pele
★ ★ ★ ★ ★
Wong Kar-Wai
Fa yeung nin wa. Hong Kong/França/Tailândia, 2000.
Às vezes, acontece uma conspiração celestial, ou uma intervenção divina (comentarei sobre esse filme em breve), para que aconteça algo tão especiale. Por alguma força mágica do destino, reuniu-se o diretor Wong Kar-Wai, o fotógrafo Christopher Doyle (que fez o também estupendo Herói), e os atores Tony Leung e Maggie Cheung (donos de uma química invejável, eles também fazem par romântico em Herói). Essas pessoas fizeram um dos filmes mais lindos que eu já pude assistir.
Dizer que Amor à Flor da Pele é estupendo, magnífico, único, brilhante é fácil. São belos adjetivos, mas só assistindo (com muita atenção!) a essa maravilhosa obra cinematográfica, para fazer jus a suas tantas qualidades. Eu mesmo já tinha visto antes, e feito a anotação para ver de novo, pois percebi que não tinha prestado a atenção necessária (confesso que estava morrendo de sono na ocasião). Trata-se da história de Chow Mo-wan (Leung) e Su Li-zhen Chan (Cheung): vizinhos, descobrem que seus respectivos cônjuges "pulando a cerca". Unidos pela dor, começam a se ver com mais freqüência e descobrem gostos comuns, na conservadora Hong Kong da década de 60.
Tony Leung e Maggie Cheung comem yakisoba o filme inteiro
Engana-se quem pensa, porém, que Mr. Chow e Mrs. Chan irão se entregar a um amor devasso. A reação inicial, "olho por olho", percebe-se falha; ambos não se sentem a vontade para trair. Ainda assim, marcados pela solidão e ausência dos cônjuges, ambos passam a se ver mais. Kar-Wai ilustra perfeitamente os momentos de efemeridade, ao mostrar seus personagens sempre almoçando ou jantando. Elemento assaz interessante são os jogos que Chow e Su Li-zhen sempre fazem: eles, primeiro, simulam a atitude de seus cônjuges, imaginando de onde surgiu a traição. Cena particularmente emotiva é aquela que Su Li-zhen experimenta perguntar a seu marido se ele está traindo. Por fim, também imaginam ter de se despedir - é o momento que, de tão doloroso para os personagens, percebem que a "amizade" tornou-se "algo mais". E a tão apregoada frase de Su Li-zhen ("não seremos como eles") deixa de ser válida."Benhê, não estou com vontade de voltar para casa hoje"
Wong Kar-Wai retrata o surgimento desse amor de forma sutil - não é à toa que não há nenhuma cena com beijo nesse filme. O ponto máximo do erotismo acontece quando Mr Chow e Mrs. Chan estão num táxi e a bela mulher diz "Eu não quero voltar para casa hoje", acompanhado de um segurar de mãos e o som de bolero. Contudo, Kar-Wai utiliza dessa sua visão singela e sutil como a mais preciosa arma para criar momentos de sensualidade. Uma troca de olhares acompanhada pelo belísismo tema composto por Michael Galasso, ou mesmo os bolerões cantados por Nat King Cole, transmitem mais sentimento que muitas cenas de amor intensas já vistas nos melhores filmes românticos. É lógico que isso se deve à exímia atuação de Tony Leung (premiado em Cannes por sua performance) e Maggie Cheung (que só não ganhou o prêmio de melhor atriz no festival francês por estar concorrendo com a Björk, cujo filme, Dançando no Escuro, foi o grande vencedor da Palma de Ouro).Detalhe da fotografia estupenda de Christopher Doyle
Diversas curiosidades cercam o filme chinês. Wong Kar-Wai, que não costuma escrever roteiros, tira toda a história de sua cabecinha, o que deixa os atores completamente loucos. A atriz Maggie Cheung, numa entrevista, disse que o processo deixava ela louca. Mas assistindo ao resultado, percebeu que valeu a pena (nós também percebemos isso, Maggie...). Aliás, Kar-Wai levou 15 meses para terminar o longa! Não é à toa que Amor à flor da pele acaba de ganhar um spin off: o "novo" filme de Wong Kar-Wai (filmado em 2004) chama-se 2046 (o número do quarto em que Chow e Chan se encontravam), cujo personagem principal é o mesmíssimo Mr. Chow, interpretado novamente por Tony Leung. Ao que parece, contudo, Maggie Cheung pouco aparece, mas o filme ganho o reforço das maravilhosas atrizes Zhang Ziyi e Gong Li.
Se deixo de fazer jus a algum aspecto do filme, é mais por necessidade do que por incompetência. Amor à Flor da Pele é aquele tipo de filme que, de tão bom, as palavras se perdem e qualquer tentativa de trazudir em código escrito a força de sua imagem acaba se mostrando fracassada, uma vez só assistindo à obra para se ter uma dimensão de sua exímia qualidade.
Decreto oficialmente que as férias acabaram.
Que venga la Poli!
Que venga la Poli!
IMHO tava numas de cultura. Mudança radical
Todos lembram do mega-sucesso do Aqua, Barbie Girl, que estourou quando eu estava na quinta série. Pois bem, Kelly Key, numa manobra à la Latino, fez sua "versão" da famosa música da garota Barbie. Para aqueles que quiserem rir comigo com a música impagável, por favor, entrem no site da Kelly Key (e ignorem o recado de ligar para as rádios pedindo a música). Aqui vai a letra:
Kelly Key - Sou a Barbie Girl
by Claus Norreen, Soren Rasted, Lene Crawford, Rene Diff, Johnny Pedersen, Karsten Delgado, Vs. Gustavo Lins e Umberto Tavares
Bi Biiiiiiiii
- Oi, Barbie
- Oi, Ken
- Vamos dar uma volta?
- Só porque você está de carro? Fala sério!
Todos lembram do mega-sucesso do Aqua, Barbie Girl, que estourou quando eu estava na quinta série. Pois bem, Kelly Key, numa manobra à la Latino, fez sua "versão" da famosa música da garota Barbie. Para aqueles que quiserem rir comigo com a música impagável, por favor, entrem no site da Kelly Key (e ignorem o recado de ligar para as rádios pedindo a música). Aqui vai a letra:
Kelly Key - Sou a Barbie Girl
by Claus Norreen, Soren Rasted, Lene Crawford, Rene Diff, Johnny Pedersen, Karsten Delgado, Vs. Gustavo Lins e Umberto Tavares
Bi Biiiiiiiii
- Oi, Barbie
- Oi, Ken
- Vamos dar uma volta?
- Só porque você está de carro? Fala sério!
Sou a Barbie Girl
Se você quer ser meu namorado
Fica ligado, presta atenção
Na minha condição
É diferente, sou muito exigente
Anda Barbie, vamos Barbie
Sou assim uma flor delicada demais
Minha cor preferida é o rosa
Uma loura legal e que sabe o que quer
Decidida, fatal, mas dengosa
Você pode me ganhar
É só fazer o que eu mandar
Sou a Barbie Girl
Se você quer ser meu namorado
Fica ligado, presta atenção
Na minha condição
É diferente, sou muito exigente
Anda Barbie, vamos Barbie
Deixa eu me arrumar, Ken
Anda Barbie, vamos Barbie
Já vou, já vou
Se eu pedir uma estrela
Você vai buscar,
O meu jeito é sim
Não reclama
Quando quer bate o pé
E eu vou ter que aceitar
Só assim vou saber que me ama
Você pode me ganhar
É só fazer o que eu mandar
Anda Barbie, vamos Barbie
Deixa eu me arrumar, Ken
Anda Barbie, vamos Barbie
Já vou, já vou
- Você pode me esperar um pouco, Ken
- Claro, por você eu faço tudo
- Ah, melhor assim
(?)
Whisky
★ ★ ★ ★ ★
Juan-Pablo Rebella e Pablo Stoll
Whisky. Uruguai/Argentina/Alemanha/Espanha, 2004
Whisky, ao contrário do que o nome parece sugerir, não é uma "comédia etílica" como consta o post sobre Sideways. O Whisky do título é a palavra que os uruguaios (o filme se passa no Uruguai) dizem ao tirar uma foto (o "xis" do brasileiro). É a palavra dos sorrisos falsos, da ausência de significados que uma fotografia - que não retrata nada além da vil aparência - pode retratar.
Acompanhando a saga dos anti-heróis, o filme de Rebella e Stoll gira em torno de Jacobo (Andrés Pazos) - velho, judeu, solteiro, lacônico, mão-de-vaca, desprezível - dono de uma fábrica de meias; e Marta (Mirella Pascual), sua prestativa funcionária (que tem um crush on Jacobo). A relação de longos anos, limitada a patrão-empregada, mudará quando o irmão de Jacobo, Herman (Jorge Bolani), também dono de fábrica de meias, retorna ao Uruguai depois d emuito tempo (ele mora no Brasil). Jacobo "pede" para que Marta finja que é sua esposa por poucos dias - e as aspas na palavra "pede" explica-se pelo uso limitado das palavras, e da compreensão imediata de Marta, que aceita.
Aliás, a caracterização do personagem Jacobo é feita basicamente sem o uso de palavras (o que me fez lembrar do também excepcional As Bicicletas de Belleville). Os cineastas, através de uma edição precisa, estabelecem três ou quatro vezes a mesma sequência, modificiando apenas o figurino dos personagens, de modo a retratar o cotidiano insípido que Jacobo e Marta estão submetidos. Essa linguagem visual é o grande trunfo do filme uruguaio, uma vez que a busca pelo uso restrito das palavras é acompanhada pela captação dos gestos e ações como construtores da personalidade, mais do que os aspectos psicológicos evidenciados pelas conversas ausentes.
Analisemos, pois, alguns elementos do filme. O primeiro deles surge naturalmente, é a postura de subserviência da mulher (Marta), ao chefe. A relação silenciosa que impera entre ambos (subtendidos longos anos) não pode ser encarada como meramente factual. O silêncio-solidão de Jacobo pode ser explicado pelo sofrimento que passara com a mãe doente, até o óbito da mesma, embora o filme distancie-se (com razão) deste fato. Já a possível fixação de Marta gera estranheza, mas a duradoura relação de confiança e servidão de longos anos (expressa habilmente nas tomadas repetidas), assume-se, é o motor para a sutil insinuação de sentimentos da funcionária
A narrativa de Whisky não busca redimir Jacobo pelo romance, por não fazer parte da realidade do personagem. Assim, o final abrupto, a repetição dessa vez marcada pela ausência de Marta, pode soar como cinismo, mas para mim soa coerente. Marta, abonada, é libertada por sua proximidade com Jacobo. Dentro da ótica de Jacobo, é o equivalente a um gesto de amor.
Assim, é de admirar que personagens tão complexos e interessantes, ainda que desagradáveis, venha a surgir num filme repleto de silêncios. É o cinema mostrando novamente que uma imagem (mais precisamente, um olhar aguçado, astuto e crítico) vale mais que mil palavras.
★ ★ ★ ★ ★
Juan-Pablo Rebella e Pablo Stoll
Whisky. Uruguai/Argentina/Alemanha/Espanha, 2004
Whisky, ao contrário do que o nome parece sugerir, não é uma "comédia etílica" como consta o post sobre Sideways. O Whisky do título é a palavra que os uruguaios (o filme se passa no Uruguai) dizem ao tirar uma foto (o "xis" do brasileiro). É a palavra dos sorrisos falsos, da ausência de significados que uma fotografia - que não retrata nada além da vil aparência - pode retratar.
Acompanhando a saga dos anti-heróis, o filme de Rebella e Stoll gira em torno de Jacobo (Andrés Pazos) - velho, judeu, solteiro, lacônico, mão-de-vaca, desprezível - dono de uma fábrica de meias; e Marta (Mirella Pascual), sua prestativa funcionária (que tem um crush on Jacobo). A relação de longos anos, limitada a patrão-empregada, mudará quando o irmão de Jacobo, Herman (Jorge Bolani), também dono de fábrica de meias, retorna ao Uruguai depois d emuito tempo (ele mora no Brasil). Jacobo "pede" para que Marta finja que é sua esposa por poucos dias - e as aspas na palavra "pede" explica-se pelo uso limitado das palavras, e da compreensão imediata de Marta, que aceita.
Aliás, a caracterização do personagem Jacobo é feita basicamente sem o uso de palavras (o que me fez lembrar do também excepcional As Bicicletas de Belleville). Os cineastas, através de uma edição precisa, estabelecem três ou quatro vezes a mesma sequência, modificiando apenas o figurino dos personagens, de modo a retratar o cotidiano insípido que Jacobo e Marta estão submetidos. Essa linguagem visual é o grande trunfo do filme uruguaio, uma vez que a busca pelo uso restrito das palavras é acompanhada pela captação dos gestos e ações como construtores da personalidade, mais do que os aspectos psicológicos evidenciados pelas conversas ausentes.
Analisemos, pois, alguns elementos do filme. O primeiro deles surge naturalmente, é a postura de subserviência da mulher (Marta), ao chefe. A relação silenciosa que impera entre ambos (subtendidos longos anos) não pode ser encarada como meramente factual. O silêncio-solidão de Jacobo pode ser explicado pelo sofrimento que passara com a mãe doente, até o óbito da mesma, embora o filme distancie-se (com razão) deste fato. Já a possível fixação de Marta gera estranheza, mas a duradoura relação de confiança e servidão de longos anos (expressa habilmente nas tomadas repetidas), assume-se, é o motor para a sutil insinuação de sentimentos da funcionária
Um docinho pro Jacobo
Duas cenas são bastante reveladoras do caráter de Jacobo. Uma delas é a que, incomodado por um quadro cair da parede, ele decide usar uma furadeira, antes de todos acordarem. A segunda é a cena em que aparece Jacobo encarando uma torta, enquanto seu irmão Herman compra diversas guloseimas. É diante de tal personagem, desprezível e irritante, que os cineastas Rebella e Stoll constroem sua narrativa: além da repetição, um artifício empregado é o jogo de contraposição de cenas - a presença de um casal de jovens apaixonados no hotel torna-se a antítese da amargura de dois velhos que nem casados são. Jacobo, surpreendendo o espectador, parece que se sente incomodado por compartilhar de sua vida com outra pessoa. Assim, seu gesto final, que afasta Marta de vez da sua vida, ou pode soar como o que mais se aproxima da redenção de seu caráter ou significa o verdadeiro distanciamento da humanidade.A narrativa de Whisky não busca redimir Jacobo pelo romance, por não fazer parte da realidade do personagem. Assim, o final abrupto, a repetição dessa vez marcada pela ausência de Marta, pode soar como cinismo, mas para mim soa coerente. Marta, abonada, é libertada por sua proximidade com Jacobo. Dentro da ótica de Jacobo, é o equivalente a um gesto de amor.
Assim, é de admirar que personagens tão complexos e interessantes, ainda que desagradáveis, venha a surgir num filme repleto de silêncios. É o cinema mostrando novamente que uma imagem (mais precisamente, um olhar aguçado, astuto e crítico) vale mais que mil palavras.































