- Olha o monstro, Scooby!
- Que nada, Salsicha. Esse monstro vermelho não engana ninguém. Tá na cara que é o...
- Que nada, Salsicha. Esse monstro vermelho não engana ninguém. Tá na cara que é o...
A Vila (The Village)
★ ★ ★
Escrito e dirigido por M. Night Shyamalan. Com Joaquin Phoenix, Bryce Dallas Howard, William Hurt, Sigourney Weaver, Adrien Brody, Brendan Gleeson, Michael Pitt, Cherry Jones. Estados Unidos. 2004.
*** Aqui deverá vir um texto falando bem dos aspectos técnicos de A Vila, da excelente direção do indiano, da poesia e da renúncia à sociedade, das esperanças e identificações encontradas, da bela fotografia e, finalmente, da bagunça que é o terceiro ato da trama, quando tudo vem por água abaixo e o gosto fica amargo, a necessidade de agradar o espectador médio obriga o indiano a criar situações forçadas e sustos desnecessários, que comprometem a excelência da trama. ***
*** Aqui deverá vir um texto falando bem dos aspectos técnicos de A Vila, da excelente direção do indiano, da poesia e da renúncia à sociedade, das esperanças e identificações encontradas, da bela fotografia e, finalmente, da bagunça que é o terceiro ato da trama, quando tudo vem por água abaixo e o gosto fica amargo, a necessidade de agradar o espectador médio obriga o indiano a criar situações forçadas e sustos desnecessários, que comprometem a excelência da trama. ***
- Olha, Lady Di, até que Carandiru é um lugar legal, né? A gente pode até se casar...
O Prisioneiro da Grade de Ferro
★ ★ ★ ★
Dirigido por Paulo Sacramento. Brasil. 2003.
★ ★ ★ ★
Dirigido por Paulo Sacramento. Brasil. 2003.
Respondendo a pergunta: não, Carandiru não era um lugar legal.
O Prisioneiro da Grade de Ferro é real, verídico e verdadeiro, como disse um dos "personagens". A impressão é de um Big Brother Carandiru, sem a elegância da câmera do Boninho, mas a sensação de confinamento é ubiqüa. O espectador sente-se confinado às paredes do Carandiru, sufocado por sua atmosfera putrefata. Pensa que nunca conseguirá sair de lá, como a maioria dos detentos, ou melhor, "reeducandos" e, assim, precisará integrar alguma das comunidades. O cineasta Sacramento deixa claro já na interessante seqüência inicial, em que os prédios são trazidos de volta dos escombros, sua pretensão de reconstruir o panorma da micro-sociedade que habituava o Carandiru.
É real: a câmera passa por vários dos pavilhões e conversa com diversos moradores. Não há necessidade alguma de humanizar os prisioneiros, como aconteceu no fraco Carandiru. Somos apresentados, sim, a pessoas condenadas pela justiça, que estão pagando por suas penas e, por conseguinte, sua dívida na sociedade, e esperam poder ser reintegrados.
É verídico: o cotidiano dos moradores é muito complexo para ser apresentado de forma generalista. Então, o diretor é sábio em expor as peculiaridades de sua fauna: dos religiosos crentes aos adoradores do demônio, dos tatuados aos homossexuais, da moeda vigente (o cigarro) às indulgências (o baseado). A sociedade se entrega como faz o diretor ao ceder sua câmera para os próprios detentos, o que possibilita uma visão mais próxima, mais compreensível, das pessoas exibidas no documentário.
É verdadeiro: não se preocupando apenas em explorar o cotidiano da prisão, o diretor ainda convida antigos diretores da prisão, que conversam sobre modus operandi, cotidiano, expectativas e possíveis soluções para o problema da prisão. Apesar da escassez de referências ao massacre do Carandiru (sendo este o tema mais recorrente do filme do Babenco), a violência não é escondida, ao mostrar as fotos de diversos prisioneiros mortos dentro da própria prisão. O comentário do fotógrafo é simplemente chocante: ele fala que é especialmente triste tirar a foto de alguém com seus visitantes, para depois ser necessário registrar o corpo da mesma pessoa, já na forma de cadáver.
O Prisioneiro da Grade de Ferro é real, verídico e verdadeiro, como disse um dos "personagens". A impressão é de um Big Brother Carandiru, sem a elegância da câmera do Boninho, mas a sensação de confinamento é ubiqüa. O espectador sente-se confinado às paredes do Carandiru, sufocado por sua atmosfera putrefata. Pensa que nunca conseguirá sair de lá, como a maioria dos detentos, ou melhor, "reeducandos" e, assim, precisará integrar alguma das comunidades. O cineasta Sacramento deixa claro já na interessante seqüência inicial, em que os prédios são trazidos de volta dos escombros, sua pretensão de reconstruir o panorma da micro-sociedade que habituava o Carandiru.
É real: a câmera passa por vários dos pavilhões e conversa com diversos moradores. Não há necessidade alguma de humanizar os prisioneiros, como aconteceu no fraco Carandiru. Somos apresentados, sim, a pessoas condenadas pela justiça, que estão pagando por suas penas e, por conseguinte, sua dívida na sociedade, e esperam poder ser reintegrados.
É verídico: o cotidiano dos moradores é muito complexo para ser apresentado de forma generalista. Então, o diretor é sábio em expor as peculiaridades de sua fauna: dos religiosos crentes aos adoradores do demônio, dos tatuados aos homossexuais, da moeda vigente (o cigarro) às indulgências (o baseado). A sociedade se entrega como faz o diretor ao ceder sua câmera para os próprios detentos, o que possibilita uma visão mais próxima, mais compreensível, das pessoas exibidas no documentário.
É verdadeiro: não se preocupando apenas em explorar o cotidiano da prisão, o diretor ainda convida antigos diretores da prisão, que conversam sobre modus operandi, cotidiano, expectativas e possíveis soluções para o problema da prisão. Apesar da escassez de referências ao massacre do Carandiru (sendo este o tema mais recorrente do filme do Babenco), a violência não é escondida, ao mostrar as fotos de diversos prisioneiros mortos dentro da própria prisão. O comentário do fotógrafo é simplemente chocante: ele fala que é especialmente triste tirar a foto de alguém com seus visitantes, para depois ser necessário registrar o corpo da mesma pessoa, já na forma de cadáver.
Apelativo pela escolha das situações, mas fiel aos resultados da reconstrução artística do complexo de presídios, O Prisioneiro da Grade de Ferro é um filme que, por ser "real, verídico e verdadeiro, acaba por criar um sentimento de choque e tristeza muito maior que a tentativa fracassada de Hector Babenco neste aspecto. A coragem do cineasta Paulo Sacramento é digna de nota. O público, desta vez, agradece.
Da série "posts fotográficos", mais um filmão Chinês. É dito que uma imagem vale mais que mil palavras, e isso é especialmente válido para Yimou e seus filmes mais recentes.
O Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu)
★ ★ ★
Dirigido por Zhang Ziyi. Escrito por Feng Li, Bin Wang, Zhang Yimou. Com Zhang Ziyi, Andy Lau, Takeshi Kaneshiro. China, Hong Kong. 2004.
Embora injustificável a decisão brasileira de estrear dois filmes do mesmo diretor, separados por dois anos de processo criativo, num período de apenas quinze dias, a proximidade das duas datas criou um efeito interessante: destacou a complementaridade entre esta obra e o filme Herói. Porque ambos são complementares em gestos, palavras, cenas e conteúdo. São grandes dramas da existência humana, mas colocados em tal oposição que sua união ressalta o sacrifício por uma causa maior, seja o amor ao próximo, seja o amor à pátria.
Herói é um filme descontroladamente incontido em sua esfera que visa a extrapolação da moral humana (o conceito de herói). O uso berrante de cores, as cenas de luta com total desprezo à gravidade, a estrutura narrativa de construção repartida, tudo isso serve para ressaltar a pequenez do homem diante do bem maior - a causa política. Neste filme, presenciamos seres que abdicam da causa de uma vida - e abdicam do amar e do viver - ao compreender que seus objetivos eram egoístas.
Pois O Clã das Adagas Voadoras faz uma leitura oportunamente oposta ao filme anterior do diretor Zhang Yimou. Se, naquele, o tema é a renúncia à vida pelo bem da nação, O Clã trata da submissão aos desejos e renúncia à ideologia. A personagem Mei, interpretada pela talentosa Zhang Ziyi, se não pode enxergar, também não consegue dissimular tal feito quando é atingida pela visão do amor, que a faz se afastar do vértice do triângulo que tinha maior proximidade (pela visão política) e se entregar ao seus sentimentos mais profundos. Não por acaso, Yimou abandona a "gravidade zero" - apesar de exímios lutadores, a humanidade de suas escolhas acaba sendo refletida na luta.
A trama política serve como mera desculpa para a união entre Mei (Zhang Ziyi) e Jin (Takeshi Kaneshiro). Embora o diretor falhe em expor mais do contexto político em que o filme está inserido, acaba por extrapolar a dimensão do amor. As cenas de luta são muito bonitas, aproximando-se da dança em vários momentos. A fotografia, bem como a trilha sonora, é mais sutil e menos conspícua que Herói, ainda que cumpram bem o papel na narrativa do filme. Ainda assim, é uma bela surpresa ouvir minha querida Zhang Ziyi cantar durante uma das cenas iniciais.
Apesar de cair no lugar comum, pela simplicidade do roteiro ao investir com todas suas forças num triângulo amoroso, a partir do 2o. ato da trama, os resultados alcançados por Yimou passam longe do óbvio. Sua câmera almeja a poesia do inusitado. Há cenas como a do Jogo do Eco que, aparenemente, não cumprem outra função senão a de constituir um show para os olhos, sem nenhum significado a mais que esse. Por outro lado, a súbita mudança de estações no final, embora não intencional (repentinamente, começou a nevar na Ucrânia, onde a seqüência estava sendo rodada), acentua a frieza do rompimento, a tragédia pessoal, resultado de uma visão poética invejável, provando que não é sempre que a beleza evocada pelo cinema de Yimou (como freqüentemente se acusa) é desprovida de significados.
Ainda por cima, contendo leituras sobre a sociedade machista (inclusive a atual), Yimou mais uma vez prova que, se não é um mestre pelos temas, a sua grandiosidade torna-se evidente pela beleza de suas cenas. O que vem por trás delas são um saboroso bônus.
Herói é um filme descontroladamente incontido em sua esfera que visa a extrapolação da moral humana (o conceito de herói). O uso berrante de cores, as cenas de luta com total desprezo à gravidade, a estrutura narrativa de construção repartida, tudo isso serve para ressaltar a pequenez do homem diante do bem maior - a causa política. Neste filme, presenciamos seres que abdicam da causa de uma vida - e abdicam do amar e do viver - ao compreender que seus objetivos eram egoístas.
Pois O Clã das Adagas Voadoras faz uma leitura oportunamente oposta ao filme anterior do diretor Zhang Yimou. Se, naquele, o tema é a renúncia à vida pelo bem da nação, O Clã trata da submissão aos desejos e renúncia à ideologia. A personagem Mei, interpretada pela talentosa Zhang Ziyi, se não pode enxergar, também não consegue dissimular tal feito quando é atingida pela visão do amor, que a faz se afastar do vértice do triângulo que tinha maior proximidade (pela visão política) e se entregar ao seus sentimentos mais profundos. Não por acaso, Yimou abandona a "gravidade zero" - apesar de exímios lutadores, a humanidade de suas escolhas acaba sendo refletida na luta.
A trama política serve como mera desculpa para a união entre Mei (Zhang Ziyi) e Jin (Takeshi Kaneshiro). Embora o diretor falhe em expor mais do contexto político em que o filme está inserido, acaba por extrapolar a dimensão do amor. As cenas de luta são muito bonitas, aproximando-se da dança em vários momentos. A fotografia, bem como a trilha sonora, é mais sutil e menos conspícua que Herói, ainda que cumpram bem o papel na narrativa do filme. Ainda assim, é uma bela surpresa ouvir minha querida Zhang Ziyi cantar durante uma das cenas iniciais.
Apesar de cair no lugar comum, pela simplicidade do roteiro ao investir com todas suas forças num triângulo amoroso, a partir do 2o. ato da trama, os resultados alcançados por Yimou passam longe do óbvio. Sua câmera almeja a poesia do inusitado. Há cenas como a do Jogo do Eco que, aparenemente, não cumprem outra função senão a de constituir um show para os olhos, sem nenhum significado a mais que esse. Por outro lado, a súbita mudança de estações no final, embora não intencional (repentinamente, começou a nevar na Ucrânia, onde a seqüência estava sendo rodada), acentua a frieza do rompimento, a tragédia pessoal, resultado de uma visão poética invejável, provando que não é sempre que a beleza evocada pelo cinema de Yimou (como freqüentemente se acusa) é desprovida de significados.
Ainda por cima, contendo leituras sobre a sociedade machista (inclusive a atual), Yimou mais uma vez prova que, se não é um mestre pelos temas, a sua grandiosidade torna-se evidente pela beleza de suas cenas. O que vem por trás delas são um saboroso bônus.
O Chamado 2 (The Ring Two)
★ ★
Dirigido por Hideo Nakata. Escrito por Ehren Kruger. Com Naomi Watts, David Dorfman, Simon Baker, Sissy Spacek, Elizabeth Perkins, Gary Cole. Estados Unidos. 2005.
Samara precisa de amor. Coitada. Sua mãe verdadeira tentou afogá-la quando ainda era bebê (ops, não deveria ter falado isso). Como ela foi encarada como doida, Samara foi adotada. Uma adolescente problemática, foi confinada a viver da pior forma possível: primeiro dentro de um celeiro de cavalos. Depois, como ninguém mais a aguentava, seus pais adotivos tiveram a infeliz idéia de jogá-la num poço. Por sorte, nossa adorável amiga tinha poderes magnéticos, e conseguiu gravar sua triste vida numa fida de vídeo, situada numa cabana construída acima do poço, muitos anos depois. Assim, ela pôde se vingar da humanidade... e até achar uma nova mãe adotiva (tudo bem que foi ela quem adotou), a jornalista Rachel interpretada pela loira arrasa-quarteirões, maravilhosa, Naomi Watts.
Nessa continuação, Samara volta com toda a carência do mundo. Então, a esperta garotinha resolve tomar conta do assombroso guri Aidan interpretado pelo promissor David Dorfman (que já metia medo no primeiro filme). Ela praticamente consegue se dar bem, mas como o diretor resolve que nossa heróina teria de ser a vilã, o roteiro cria uma série de circunstâncias especialmente forçadas para se livrar da prima americana da Sadako. Uma pena.
Pois, apesar de precisar de amor maternal, o que ela recebe em troca é a frase infame: "I'm not your fucking mommy" - aliás, esse tipo de filme só pode usar uma única vez uma palavra de baixo calão, senão a restrição de idade sobe (nos EUA, of course) e o lucro, desce. Meu sentimento foi de ódio para com a jornalista Rachel, que perdeu toda a sensibilidade de seu coraçãozinho, além de nunca ter sido mesmo uma boa mãe. Samara merecia mais por sua vida sofrida.
A boa surpresa do filme está na única cena em que aparece a ótima atriz Sissi Spacek. Aliás, sua personagem é quase uma anti-Carrie, uma interessante releitura de carreira. Ainda assim, os resultados da cena são sofríveis, bem como todas as escolhas do roteiro para se livrar do problema das amortizações (leia-se: Samara). Além disso, a trilha sonora é boa, não apela para os clichês de volume (Hans Zimmer costuma sempre ser competente em seus trabalhos). Gosto também da fotografia, sempre tentando enquadrar o elemento "água" (muito importante para a narrativa).
Ecologicamente incorreto pelo desperdício de água e contendo uma horrenda cena com veados, completamente desnecessária e sem o menor sentido na lógica do filme, O Chamado 2 é uma triste continuação para uma franquia que tinha tudo para dar certo. Desanse em paz, Samara.
Nessa continuação, Samara volta com toda a carência do mundo. Então, a esperta garotinha resolve tomar conta do assombroso guri Aidan interpretado pelo promissor David Dorfman (que já metia medo no primeiro filme). Ela praticamente consegue se dar bem, mas como o diretor resolve que nossa heróina teria de ser a vilã, o roteiro cria uma série de circunstâncias especialmente forçadas para se livrar da prima americana da Sadako. Uma pena.
Pois, apesar de precisar de amor maternal, o que ela recebe em troca é a frase infame: "I'm not your fucking mommy" - aliás, esse tipo de filme só pode usar uma única vez uma palavra de baixo calão, senão a restrição de idade sobe (nos EUA, of course) e o lucro, desce. Meu sentimento foi de ódio para com a jornalista Rachel, que perdeu toda a sensibilidade de seu coraçãozinho, além de nunca ter sido mesmo uma boa mãe. Samara merecia mais por sua vida sofrida.
A boa surpresa do filme está na única cena em que aparece a ótima atriz Sissi Spacek. Aliás, sua personagem é quase uma anti-Carrie, uma interessante releitura de carreira. Ainda assim, os resultados da cena são sofríveis, bem como todas as escolhas do roteiro para se livrar do problema das amortizações (leia-se: Samara). Além disso, a trilha sonora é boa, não apela para os clichês de volume (Hans Zimmer costuma sempre ser competente em seus trabalhos). Gosto também da fotografia, sempre tentando enquadrar o elemento "água" (muito importante para a narrativa).
Ecologicamente incorreto pelo desperdício de água e contendo uma horrenda cena com veados, completamente desnecessária e sem o menor sentido na lógica do filme, O Chamado 2 é uma triste continuação para uma franquia que tinha tudo para dar certo. Desanse em paz, Samara.
O Filme do Ano (de 2002)
Primeiro, uma anotação mental: nunca mais comprar pipoca no Cinema Bristol. Perde de longe para a deliciosa e amanteigada pipoca do Cinemark. Agora, vamos ao meu favorito (dá para acreditar que ele foi lançado aqui no Brasil com TRÊS ANOS DE ATRASO!?):
Herói (Ying Xiong)
★ ★ ★ ★ ★
Dirigido por Zhang Yimou. Roteiro de Feng Li, Bin Wang, Zhang Yimou. Fotografia de Christopher Doyle. Música de Tan Dun. Com Jet Li, Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Chen, Dao Ming, Donnie Yen, Liu Zhong Yuan, Zheng Tian Yong. China, 2002.
A Luxúria é Vermelha
A Esperança é Verde:
Trata-se da história do Guerreiro Sem Nome, interpretado por Jet Li. Em uma breve explicação, ainda nos créditos, descobrimois que, no período de história retratado, a China está dividida em vários reinos, sendo que o rei de Qin (Chen Daoming) planeja unificar a China e destroir os outros impérios. Ele está na mira constante de três assassinos, Céu (Donnie Yen), Espada Quebrada (Tony Leung Chiu-Wai) e Neve Voadora (Maggie Cheung) - são os guerreiros mais poderosos da China. Eis, então, que o Guerreiro Sem N0me aparece no palácio do rei, contando que matou seus inimigos. A partir de então, ele começa a contar suas façanhas.
Neste momento, o filme transforma-se em uma verdadeira aula de fotografia e direção de arte. O crítico Eric Snider disse que, em Herói, praticamente todas as cenas ou são absurdamente bonitas, ou impossíveis de rodar, ou as duas coisas. Não poderia escrever melhor. O uso gradativo das cores eleva ao ápice um conceito já utilizado no também excelente O Tigre e o Dragão. Um pequeno segredinho do filme: as cores estão relacionadas aos sentimentos que o espectador sente durante o filme. Assim, durante os relatos do Guerreiro Sem Nome, há a predominância do vermelho numa seqüência repleta de luxúria e ausência de moral; logo em seguida, quando o tom torna-se amargo, há o uso apropriado da cor amarela. Quando conhecemos a dimensão da honra dos personagens, o tom torna-se azul. Finalmente, num momento de esperança, adivinhem! o verde toma conta da tela. E como somos apresentados a pontos de vistas diferentes de uma mesma cena, à medida que a história vai se desconstruindo com as novas informações acrescidas, temos a agradável surpresa de presenciar a mesmíssima seqüência, com o uso de cor adequadamente modificado.
Não poderia deixar de citar a cena do lago, que durou três semanas para ser rodada. O diretor Zhang Yimou exigiu que a superfície do referido lago estivesse totalmente parada, formando um espelho d'água. O problema é que isso só acontecia das 8 às 10 horas da manhã, de modo que a equipe técnica começava a se preparas às 5. O resultado: um prodígio da técnica e da determinação, uma das seqüências mais bonitas que eu já vi, e que certamente, já tem um lugar na história do Cinema moderno. O que dizer, então, da "luta imaginária", logo no primeiro ato? Sem dúvida, uma das seqüências mais eletrizantes já vistas.
Como já disse no post sobre o filme Sonhos, de Akira Kurosawa, de nada adianta a beleza plástica sem uma boa história por trás. E, felizmente, o roteiro de Herói está a altura da beleza do filme. A história completa vai se construindo aos poucos, sem pressa, e sem enganar o espectador. A decisão narrativa de utilizar o flashback (algo que costumo condenar), nesse caso, é essencial para a construção e desconstrução dos sentimentos envolvidos durante a projeção. E, como estamos presenciando um relato, todo o exagero das cenas de luta, incluindo a famosa gravidade zero, é perfeitamente desculpável. A cena em que a guerreira Neve desvia milhares de flechas apenas com um pedaço de pano pode ser encarada com uma afronta à inteligência do espectador que acha um absurdo os personagens voarem quando lutam, mas até mesmo quem não perdoa esse absurdo dos filmes orientais, não pode negar que o Guerreiro Sem Nome, em seu relato, quer mostrar ao rei que, se seus inimigos são bons, ele é melhor. Assim, podemos presenciar toda a magnitude das cenas de luta, com argumentos plausíveis e beleza estética com função narrativa. Além disso, não posso esquecer a trilha sonora de Tan Dun, compositor chinês que já tive o prazer de conhecer. Mestre em compor belos temas, sua trilha é responsável pela afirmação do tom épico conferido.
Momento de exposição desnecessária: eu, Tan Dun, Melina Sakiyama e Denise Cobayashi
Ainda por cima, o longa acaba funcionando como um magnífico estudo sobre uma das virtudes (justamente a 7a.) que anda deveras esquecida nos últimos tempos. Assim, um filme tão bonito quanto esse, ainda com um roteiro ótimo, atuações competentes, sentimentos a flor da pele, emoções fortes - bem, é um filme que tem tudo o que precisa para estar na minha lista de favoritos.
Uma prece: Senhor, quando eu envelhecer, que eu nunca fique chato o suficiente para deixar de apreciar uma obra-prima do Cinema como Herói, e subestimá-lo com difamações (isso mesmo!), como alguns o fizeram, chamando o filme de "teste de daltonismo", por exemplo. Que eu privilegie mais o mérito que o erro. E que o Senhor perdoe os que não conseguiram apreciar a beleza de Herói tanto quanto eu.

Donnie Darko (Idem)
★ ★ ★
Dirigido e escrito por Richard Kelly. Com Jake e Maggie Gyllenhaall, Drew Barrimore, Patrick Swaize e outros, muitos outros. Estados Unidos. 2001.
É preciso dizer que tive uma imensa dificuldade em redigir esse texto. Por duas razões: não queria ser injusto com o filme e não queria ser injusto comigo mesmo (digamos porque ele está longe de ser o filme que eu mais gostei de ver na vida). E ainda por cima, não ajuda o fato do filme ser complexo e difícil de entender. Ainda digo mais: já mudei várias vezes minha opinião sobre o filme, desde que o vi, e posso dizer seguramente que nada impede que eu mude de novo, principalmente quando eu o reassistir (sim, pretendo). Então, vamos lá.
Antes de mais nada, este post será dividido em duas partes. A primeira deverá ser lida por todas, pois eu comento os aspectos técnicos e narrativos do filme. A segunda parte deverá ser lida preferencialmente por quem já viu o filme, ou não tá nem aí de saber o final do filme (todos já sabem o final de O Amigo Oculto, graças a mim).
Um pouquinho da história: Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) é um jovem problema, com ares esquizofrênicos. Ele costuma ver um coelho bizarro com proporções humanas chamado Frank, e todos acham que ele é um freak, a ponto de ter que tomar remédios e freqüentar uma psicanalista. Tudo desanda, entretanto, quando cai uma turbina de avião (?) no seu quarto mas, por uma proeza do destino, o coelho Frank tinha avisado que ele deveria sair de sua chambre para não morrer. A partir de então, o filme introduz um livro bizarro (The Philosophy of Time Travel, de Roberta Sparrow), uma velhinha bizarra, buracos de minhoca bizarros, personagens bizarros e uma expressão bizarra (Cellar Door). E, a partir desses elementos, que entendamos as propostas do filme!
Um festival de bizarrices aparentemente sem nexo, Donnie Darko prova que sabe amarrar suas premissas, mas o nó pode se romper à medida que o telespectador pensar demais. Sim, isso é ruim, para um filme-cabeça, mesmo que dirigido ao público jovem. Pela minha experiência, Donnie Darko é assim: se você pouco pensar sobre o que viu, não vai entender nada. Se você pensar um pouco e pesquisar sobre o filme, em fórums e no site oficial (depois comentarei sobre isso), você vai entender o filme (ou achar que entendeu). Por último, se você pensar demais, vai perceber uma grande quantidades de fios soltos e premissas sem muito sentido. Devida a complexidade da história, muito tem que se aceitar, muito tem que partir da cabeça de quem está do outro lado da tela. E eu não gosto de acreditar no que não faz sentido para mim.
Uma coisa é certa: o ator Jake Gyllenhaal é muito bom, uma promessa entre os jovens atores hollywoodianos. Sabe retratar muito bem quando o personagem está numa fase "esquisita" ou sobre a normalidade sem, no entanto, parecer em nenhum momento, caricato. Do resto do elenco, também se destaca Patrick Swayze, fazendo uma espécie de religioso, que descobriremos se tratar muito mais do que isso. Já Drew Barrimore, também a produtora executiva, funciona como a professora "modernosa", cheia de idéias inconcebíveis para o padrão conservador da sociedade de que Donnie faz parte. Sua cena de destaque é quando ela grita "fuck", além de uma cena pseudo-enigmática, que eu discutirei também a seguir, se você decidir por ler.
A direção é competente: há momentos de alívio cômico necessários para descontrair o telespectador, que não faz idéia de onde a história vai parar (um ponto positivo). Os momentos de estranheza também se sobressaem, com a criação de uma atmosfera confusa e dúbia: sempre nos questinamos sobre a natureza do que está sendo visto. Será um delírio esquizofrênico? Não mesmo! Já a fotografia é um tanto pálida, o que me deixou um pouco incomodado. Não sei se é de um problema do DVD (acho que li sobre isso, em algum lugar), mas a falta de cores sem um papel importante na narrativa não me agrada (e a justificativa para a ausência de papel está num evento que eu discutirei adiante. Se eu fosse o fotógrafo do filme, por exemplo, mudaria o padrão de cores neste momento.).
Abordando conceitos filosóficos e psicológicos, talvez o maior mérito de Donnie Darko é que faz a gente pensar. O lado ruim certamente é de que a conclusão chegada não é lá muito satisfatória.
VOCÊ NÃO ENTENDEU O FILME? EU TAMBÉM NÃO!
(Se você resolver ler essa parte, "o pobrema é seu", como diria Solange.)
Observação: não assisti à Versão do Diretor, não ouvi os comentários explicativos do diretor, muito menos vi as cenas deletadas. Tudo o que disse é baseado apenas no filme em si, em meus conhecimentos prévios de física e literatura e no "texto" da Roberta Sparrow, disponível (de forma não muito fácil, no entanto) no site oficial do filme (minha dica: procure no google), que parece ser a principal fonte de entendimento de alguma coisa do filme. Aliás, um dos problemas que eu constatei em Donnie Darko é que não é um filme "fechado". Ou seja, não basta só assistir ao filme para compreender o que o diretor/roteirista quer que nós compreendamos. É preciso, também, entrar no site e, principalmente, ler o "livro" criado para o filme, a "Filosofia das Viagens no Tempo", da fictícia autoria de Roberta Sparrow. Este "livro" descreve exatamente o que acontece no filme, embora não seja suficiente para que compreendamos todos os eventos de natureza físico-transcedental. É claro que a inclusão do mesmo no site me parece ser uma tentativa conveniente de fazer compreender a incompreensibilidade de DD.
Primeiro, uma historinha: o conto A Experiência, de Fredric Brown. Neste conto, o professor Johnson mostra a seus colegas sua criação, uma máquina do tempo. Na demonstração, ele manda um cubo metálico para o futuro e (com o conto assumindo que, na viagem temporal, não há deslocamento espacial, o que não consite com a realidade relativística) o objeto aparece na máquina cinco minutos depois, como o programado. Agora, mais interessante: ele quer demonstrar que sua máquina também é capaz de mandar coisas para o passado. Para isso, ele estabelece um evento futuro: aos seis minutos para as três da tarde, ele avisa aos colegas que vai enviar, às três horas, o cubo cinco minutos de volta no tempo, de modo que, faltando cinco minutos para as três, o cubo terá que desaparecer da sua mão e aparecer na máquina. Para o espanto dos colegas do doutor Johnson, é exatamente isso que acontece. Eis que um dos colegas decide "causar": sugere que o doutor não coloque o cubo na máquina, para ver o que acontece. Doutor Johnson resolve aceitar o desafio. Às três horas, nada acontece com o cubo - mas o resto do Universo desaparece.
Não precisa ser um gênio para entender que Donnnie Darko é uma metáfora juvenil para essa premissa, com acréscimos de toques psicológicos e um coelho psicodélico. Depois dessa introdução científico-literária, um pouco de física.
Lá pelo segundo ato do filme, Donnie Darko começa a ter umas aulas de física em que se cita o fenômeno conhecido como "buraco de minhoca". Será um conceito explorado no filme, mas o meu ponto é outro. Como, teoricamente, não existe pressuposto anteriormente exigido para compreender esse e qualquer outro filme, e como o próprio não se preocupa em explicar o que quer dizer como buracos de minhoca, temos duas possibilidades:
1. Aceitar o que o físico Stephen Hawking fala sobre o fenômeno.
2. Aceitar o que a fictícia Roberta Sparow fala sobre o fenômeno.
3. Aceitar um pouquinho de cada uma das teorias.
Parece razoável seguir a terceira possibilidade (poderia acrescentar uma 4a., ou seja, não seguir teoria nenhuma, e dar um f*da-se ao filme, mas isso fugiria do escopo do comentário). Então, vamos: o que é um buraco de minhoca? É uma anomalia do espaço-tempo, ou seja, uma conexão de dois espaços diferentes, em tempos diferentes. Por exemplo, há sempre a possibilidade de um buraco de minhoca do tamanho de um átomo se abrir na minha frente e um elétron, por exemplo, ser transferido para o planeta Urânio, para um futuro de 50 milhõpes de anos.
Agora começa o festival de aceitações. Em Donnie Darko, abre-se uma extremidade do buraco de minhoca em cima do quarto de Donnie e, através dela, uma turbina cai. O livro da Roberta Sparrow trata sobre teorias (gostaria de saber de onde ela as tirou), sobre como "água" e "metal" são agentes na viagem do tempo, etc., coisas que eu não posso julgar, apenas assumir. Então, assumindo que o "metal" é a turbina do avião, eis que este passa para o mundo de Donnie (chamado de Universo Primário), um dos muitos mundos paralelos, por sinal. A partir desse momento, passa a existir um Universo Tangente, com um tempo certo para acabar (os cinco minutos do conto de Fredric Brown). Se nada for feito no sentido de enviar o "artefato" (a turbina) pelo buraco, o universo será exterminado.
Um pouco de imaginação não faz mal a ninguém: há a definição de um novo conceito de herói (adivinhem quem?): a pessoa mais próxima do local do evento será dotada de poderes sobrenaturais (é chamada pelo dito livro de "o receptor vivo"). Há algumas controvérsias sobre esse caso (é óbvio que o receptor é o Donnie, apesar de ele não se encontrar próximo do quarto no momento da queda, ainda que por influência do coelho Frank, mas isso já é um indício do Universo Tangente). O "receptor vivo" tem alguns poderes, sendo que o principal deles é abrir buracos de minhoca.
Após a queda da turbina, seria enormemente mais interessante que houvesse uma mudança de atmosfera (quer seja causada pela direção ou pela fotografia, que não deixa de ser um reflexo a primeira). O Universo Tangente é um conceito muito forçado para que não haja nenhuma mudança aparente, por isso a falta de compreensão geral.
Outro conceito introduzido é o de "vivos manipulados" e "mortos manipulados" - são as pessoas que interagem com o receptor. Frank, o coelho, que será morto no final do filme, é um "morto manipulado", que tem alguns poderes, como voltar no tempo para ajudar o receptor. Outra "morta manipulada" será a namoradinha de Donnie, Gretchen (Jena Melone), apesar de que esta aparentemente não tem nenhuma função na trama. Eu gosto particularmente dessa passagem:
que evidencia, de forma sutil, as capacidades recém-adquiridas do "receptor". Aliás, o filme tem realmente boas tiradas, contidas neste roteiro bizarro. Bem, voltamos a ele. O Coelho Frank faz com que Donnie execute algumas tarefas "esquisitas", com suas devidas conseqüências: ele alaga a escola para que, desse modo, conheça Gretchen. Ela será importante pois um dos maiores medos de Donnie é "morrer" sozinho (algo que está fadado, e é uma das coisas mais fracas do roteiro), o que justifica o surgimento da garota, a primeira paixão de Donnie. Depois, o coelho Frank induz o nosso wacko (após uma brilhante cena num cinema) a incendiar a casa de Jim Cunningham (Patrick Swayze). Assim, será descobertas algumas pornografias, o homem será preso, e a mãe de Donnie será forçada a pegar um vôo para levar sua filhinha e suas amiguinhas numa competição de dança (a mulher que as levaria decidiu se responsabilizar pela defeza de Cunningham). Tem uma festa de Halloween, Gretchen morre, ele descobre tudo isso que estou escrevendo, então mata o "coelho" para que este o possa ajudar. Por fim, quando o tempo está acabando, ele descobre (também não me perguntem como) que a turbina caída no seu quarto diz respeito ao avião em que sua mãe e irmã viajam. Alguém sente cheiro de barra forçada? Eu sinto. Deixando as opiniões olfativas de lado, Donnie, através dos seus super-poderes de receptor, faz com que o buraco de minhoca se abra em baixo da turbina, para que esta possa aterrissar suavemente em seu recinto particular. Enfim, tudo se encaixa, o univerto tangente, acaba, Donnie Darko volta no tempo (pois tudo que ocorreu torna-se um dejà-vu para os envolvidos) morre, e a vida continua.
Só isso?
Não! Estamos ainda na segunda fase do processo intelectual que o filme exige. Caiamos na real: seria muito mais interessante se o filme não investisse na física e partisse para explicações mais sobrenaturais. Um dos grandes problemas do Cinema atual (principalmente hollywoodiano) é tentar explicar o inexplicável. Neste caso, explicar a viagem de uma turbina por um buraco de minhoca do tamanho de uma turbina (coisa imensamente improvável), e mais, aberta por um garoto!, é suficiente para pagar o ingresso? Fica a cargo de cada um decidir. Uma coisa que me incomoda bastante, também, é o maniqueísmo do roteiro: porque a turbina tem que ser justamente do avião da mãe do Donnie? Por que ele tem que morrer? Para salvar todos os outros? Nem mesmo essa obrigatoriedade fica completamente explicitada.
Quando um objeto metálico vem do futuro, cria-se um Universo Tangente, sendo necessário alguém ("o receptor") enviar o tal objeto. Para que tudo fique certo. E se o objeto vier de um futuro muito distante? Teoricamente isso é possível, mas com certeza o receptor já estaria morto quando o dia do fim do universo chegar. E se for uma pessoa que passar pelo buraco (teoricamente possível)? E se a viagem temporal for feita do passado para o futuro, como ficamos? São esses milhões de questionamentos que acabam surgindo e que estragam a diversão do filme. Muito mais perguntas que respostas não é um bom indício.
E o que significa Cellar Dorr, a "mais bela expressão da lingua inglesa"? Que diabos que a personagem interpretada por Drew Barrimore queria dizer? Tal expressão é conhecida como a mais bela combinação de palavras da língua inglesa, justamente por também conter uma quantidade imensa de anagramas, como "Local order", "Dollar Core", "Colder Oral", "Cello Ardor", e "Red Corolla". Não conegui encontrar nenhuma explicação plausível para a inclusão da frase, que pode tanto significar a porta da casa da velha doida, a.k.a Roberta Sparrow, assim como pode ser uma metáfora para a busca interior de Donnie pelo sentido da vida, assim como fazem alguns autores pela busca de anagramas perfeitos. Eu me questiono - e daí? Isso é interessante? No final das contas, pareceu mais um conceito adicional, na tentativa de enriquecer o roteiro, ou desviar a atenção das loucuras físicas existentes em tal universo.
Seria realmente injusto se não percebesse, também, a possibilidade de uma viagem esquizofrênica próxima do momento da morte, o que explicaria a maioria dos paradoxos sem sentidos, assim como naqueles sonhos estranhos que nós temos (confesso que já tive um pesadelo auto-explicativo sobre Álgebra Linear). Infelizmente, o filme em questão não dá o menor indício disso, e o livro da Roberta Sparrow que o diretor/roteirista resolveu disponibilizar no site oficial é uma prova de que não se trata disso. Ainda assim, essa possibilidade não incluída me parece ser a mais interessante. No entanto, admito que posso estar redondamente engandado e que os conceitos físicos não são nem um pouco importantes para o filme e, portanto, não entendi nada. E não é esse o título dessa parte do post? Até agora, creio piamente que não entendi qual é a proposta do filme, e se alguém conseguir, por favor me expliquem. Todos os comentários serão bem vindos.
Além disso, posso ser criticado por ter me aprofundado por demais nos conceitos abstratos do filme, sem me deixar levar pelos aspectos emotivos e psicológicos, que são bem mais interessantes. Num filme como Táxi, por exemplo, que dei a mesma cotação de Donnie Darko, surpreendentemente, imagino que utilizei o mesmo método. O grau de complexidade do roteiro de Táxi é praticamente nulo, e tal filme funciona por algumas razões e deixa de funcinoar por outras. No caso de Donnie Darko, um filme sobre conceitos realmente complexos, como viagens futurísticas amparadas por anomalias da física, é mais que justo pensar um pouquinho sobre os paradoxos contidos e mal-explicados do filme (por isso, dediquei a maior parte do post tentando expô-los) e assim me decidir se gosto ou não dele.
É uma pena que, no caso de Donnie Darko, um filme sobre psicologia juvenil, fardos muito pesados e sentimentos (sem devaneios físicos), imagino que fosse possível apreciá-lo imensamente.
Um pouquinho da história: Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) é um jovem problema, com ares esquizofrênicos. Ele costuma ver um coelho bizarro com proporções humanas chamado Frank, e todos acham que ele é um freak, a ponto de ter que tomar remédios e freqüentar uma psicanalista. Tudo desanda, entretanto, quando cai uma turbina de avião (?) no seu quarto mas, por uma proeza do destino, o coelho Frank tinha avisado que ele deveria sair de sua chambre para não morrer. A partir de então, o filme introduz um livro bizarro (The Philosophy of Time Travel, de Roberta Sparrow), uma velhinha bizarra, buracos de minhoca bizarros, personagens bizarros e uma expressão bizarra (Cellar Door). E, a partir desses elementos, que entendamos as propostas do filme!
Um festival de bizarrices aparentemente sem nexo, Donnie Darko prova que sabe amarrar suas premissas, mas o nó pode se romper à medida que o telespectador pensar demais. Sim, isso é ruim, para um filme-cabeça, mesmo que dirigido ao público jovem. Pela minha experiência, Donnie Darko é assim: se você pouco pensar sobre o que viu, não vai entender nada. Se você pensar um pouco e pesquisar sobre o filme, em fórums e no site oficial (depois comentarei sobre isso), você vai entender o filme (ou achar que entendeu). Por último, se você pensar demais, vai perceber uma grande quantidades de fios soltos e premissas sem muito sentido. Devida a complexidade da história, muito tem que se aceitar, muito tem que partir da cabeça de quem está do outro lado da tela. E eu não gosto de acreditar no que não faz sentido para mim.
Uma coisa é certa: o ator Jake Gyllenhaal é muito bom, uma promessa entre os jovens atores hollywoodianos. Sabe retratar muito bem quando o personagem está numa fase "esquisita" ou sobre a normalidade sem, no entanto, parecer em nenhum momento, caricato. Do resto do elenco, também se destaca Patrick Swayze, fazendo uma espécie de religioso, que descobriremos se tratar muito mais do que isso. Já Drew Barrimore, também a produtora executiva, funciona como a professora "modernosa", cheia de idéias inconcebíveis para o padrão conservador da sociedade de que Donnie faz parte. Sua cena de destaque é quando ela grita "fuck", além de uma cena pseudo-enigmática, que eu discutirei também a seguir, se você decidir por ler.
Drew Barrimore: entre "fuck" e "cellar dorr", eu fico com a primeira
A direção é competente: há momentos de alívio cômico necessários para descontrair o telespectador, que não faz idéia de onde a história vai parar (um ponto positivo). Os momentos de estranheza também se sobressaem, com a criação de uma atmosfera confusa e dúbia: sempre nos questinamos sobre a natureza do que está sendo visto. Será um delírio esquizofrênico? Não mesmo! Já a fotografia é um tanto pálida, o que me deixou um pouco incomodado. Não sei se é de um problema do DVD (acho que li sobre isso, em algum lugar), mas a falta de cores sem um papel importante na narrativa não me agrada (e a justificativa para a ausência de papel está num evento que eu discutirei adiante. Se eu fosse o fotógrafo do filme, por exemplo, mudaria o padrão de cores neste momento.).
Abordando conceitos filosóficos e psicológicos, talvez o maior mérito de Donnie Darko é que faz a gente pensar. O lado ruim certamente é de que a conclusão chegada não é lá muito satisfatória.
VOCÊ NÃO ENTENDEU O FILME? EU TAMBÉM NÃO!
(Se você resolver ler essa parte, "o pobrema é seu", como diria Solange.)
Observação: não assisti à Versão do Diretor, não ouvi os comentários explicativos do diretor, muito menos vi as cenas deletadas. Tudo o que disse é baseado apenas no filme em si, em meus conhecimentos prévios de física e literatura e no "texto" da Roberta Sparrow, disponível (de forma não muito fácil, no entanto) no site oficial do filme (minha dica: procure no google), que parece ser a principal fonte de entendimento de alguma coisa do filme. Aliás, um dos problemas que eu constatei em Donnie Darko é que não é um filme "fechado". Ou seja, não basta só assistir ao filme para compreender o que o diretor/roteirista quer que nós compreendamos. É preciso, também, entrar no site e, principalmente, ler o "livro" criado para o filme, a "Filosofia das Viagens no Tempo", da fictícia autoria de Roberta Sparrow. Este "livro" descreve exatamente o que acontece no filme, embora não seja suficiente para que compreendamos todos os eventos de natureza físico-transcedental. É claro que a inclusão do mesmo no site me parece ser uma tentativa conveniente de fazer compreender a incompreensibilidade de DD.
Primeiro, uma historinha: o conto A Experiência, de Fredric Brown. Neste conto, o professor Johnson mostra a seus colegas sua criação, uma máquina do tempo. Na demonstração, ele manda um cubo metálico para o futuro e (com o conto assumindo que, na viagem temporal, não há deslocamento espacial, o que não consite com a realidade relativística) o objeto aparece na máquina cinco minutos depois, como o programado. Agora, mais interessante: ele quer demonstrar que sua máquina também é capaz de mandar coisas para o passado. Para isso, ele estabelece um evento futuro: aos seis minutos para as três da tarde, ele avisa aos colegas que vai enviar, às três horas, o cubo cinco minutos de volta no tempo, de modo que, faltando cinco minutos para as três, o cubo terá que desaparecer da sua mão e aparecer na máquina. Para o espanto dos colegas do doutor Johnson, é exatamente isso que acontece. Eis que um dos colegas decide "causar": sugere que o doutor não coloque o cubo na máquina, para ver o que acontece. Doutor Johnson resolve aceitar o desafio. Às três horas, nada acontece com o cubo - mas o resto do Universo desaparece.
Não precisa ser um gênio para entender que Donnnie Darko é uma metáfora juvenil para essa premissa, com acréscimos de toques psicológicos e um coelho psicodélico. Depois dessa introdução científico-literária, um pouco de física.
Lá pelo segundo ato do filme, Donnie Darko começa a ter umas aulas de física em que se cita o fenômeno conhecido como "buraco de minhoca". Será um conceito explorado no filme, mas o meu ponto é outro. Como, teoricamente, não existe pressuposto anteriormente exigido para compreender esse e qualquer outro filme, e como o próprio não se preocupa em explicar o que quer dizer como buracos de minhoca, temos duas possibilidades:
1. Aceitar o que o físico Stephen Hawking fala sobre o fenômeno.
2. Aceitar o que a fictícia Roberta Sparow fala sobre o fenômeno.
3. Aceitar um pouquinho de cada uma das teorias.
Parece razoável seguir a terceira possibilidade (poderia acrescentar uma 4a., ou seja, não seguir teoria nenhuma, e dar um f*da-se ao filme, mas isso fugiria do escopo do comentário). Então, vamos: o que é um buraco de minhoca? É uma anomalia do espaço-tempo, ou seja, uma conexão de dois espaços diferentes, em tempos diferentes. Por exemplo, há sempre a possibilidade de um buraco de minhoca do tamanho de um átomo se abrir na minha frente e um elétron, por exemplo, ser transferido para o planeta Urânio, para um futuro de 50 milhõpes de anos.
Agora começa o festival de aceitações. Em Donnie Darko, abre-se uma extremidade do buraco de minhoca em cima do quarto de Donnie e, através dela, uma turbina cai. O livro da Roberta Sparrow trata sobre teorias (gostaria de saber de onde ela as tirou), sobre como "água" e "metal" são agentes na viagem do tempo, etc., coisas que eu não posso julgar, apenas assumir. Então, assumindo que o "metal" é a turbina do avião, eis que este passa para o mundo de Donnie (chamado de Universo Primário), um dos muitos mundos paralelos, por sinal. A partir desse momento, passa a existir um Universo Tangente, com um tempo certo para acabar (os cinco minutos do conto de Fredric Brown). Se nada for feito no sentido de enviar o "artefato" (a turbina) pelo buraco, o universo será exterminado.
Por que você está usando esta estúpida roupa de homem?
Um pouco de imaginação não faz mal a ninguém: há a definição de um novo conceito de herói (adivinhem quem?): a pessoa mais próxima do local do evento será dotada de poderes sobrenaturais (é chamada pelo dito livro de "o receptor vivo"). Há algumas controvérsias sobre esse caso (é óbvio que o receptor é o Donnie, apesar de ele não se encontrar próximo do quarto no momento da queda, ainda que por influência do coelho Frank, mas isso já é um indício do Universo Tangente). O "receptor vivo" tem alguns poderes, sendo que o principal deles é abrir buracos de minhoca.
Após a queda da turbina, seria enormemente mais interessante que houvesse uma mudança de atmosfera (quer seja causada pela direção ou pela fotografia, que não deixa de ser um reflexo a primeira). O Universo Tangente é um conceito muito forçado para que não haja nenhuma mudança aparente, por isso a falta de compreensão geral.
Outro conceito introduzido é o de "vivos manipulados" e "mortos manipulados" - são as pessoas que interagem com o receptor. Frank, o coelho, que será morto no final do filme, é um "morto manipulado", que tem alguns poderes, como voltar no tempo para ajudar o receptor. Outra "morta manipulada" será a namoradinha de Donnie, Gretchen (Jena Melone), apesar de que esta aparentemente não tem nenhuma função na trama. Eu gosto particularmente dessa passagem:
Gretchen: Donnie Darko? What the hell kind of name is that? It's like some sort of superhero or something
Donnie: What makes you think I'm not?
que evidencia, de forma sutil, as capacidades recém-adquiridas do "receptor". Aliás, o filme tem realmente boas tiradas, contidas neste roteiro bizarro. Bem, voltamos a ele. O Coelho Frank faz com que Donnie execute algumas tarefas "esquisitas", com suas devidas conseqüências: ele alaga a escola para que, desse modo, conheça Gretchen. Ela será importante pois um dos maiores medos de Donnie é "morrer" sozinho (algo que está fadado, e é uma das coisas mais fracas do roteiro), o que justifica o surgimento da garota, a primeira paixão de Donnie. Depois, o coelho Frank induz o nosso wacko (após uma brilhante cena num cinema) a incendiar a casa de Jim Cunningham (Patrick Swayze). Assim, será descobertas algumas pornografias, o homem será preso, e a mãe de Donnie será forçada a pegar um vôo para levar sua filhinha e suas amiguinhas numa competição de dança (a mulher que as levaria decidiu se responsabilizar pela defeza de Cunningham). Tem uma festa de Halloween, Gretchen morre, ele descobre tudo isso que estou escrevendo, então mata o "coelho" para que este o possa ajudar. Por fim, quando o tempo está acabando, ele descobre (também não me perguntem como) que a turbina caída no seu quarto diz respeito ao avião em que sua mãe e irmã viajam. Alguém sente cheiro de barra forçada? Eu sinto. Deixando as opiniões olfativas de lado, Donnie, através dos seus super-poderes de receptor, faz com que o buraco de minhoca se abra em baixo da turbina, para que esta possa aterrissar suavemente em seu recinto particular. Enfim, tudo se encaixa, o univerto tangente, acaba, Donnie Darko volta no tempo (pois tudo que ocorreu torna-se um dejà-vu para os envolvidos) morre, e a vida continua.
Só isso?
Não! Estamos ainda na segunda fase do processo intelectual que o filme exige. Caiamos na real: seria muito mais interessante se o filme não investisse na física e partisse para explicações mais sobrenaturais. Um dos grandes problemas do Cinema atual (principalmente hollywoodiano) é tentar explicar o inexplicável. Neste caso, explicar a viagem de uma turbina por um buraco de minhoca do tamanho de uma turbina (coisa imensamente improvável), e mais, aberta por um garoto!, é suficiente para pagar o ingresso? Fica a cargo de cada um decidir. Uma coisa que me incomoda bastante, também, é o maniqueísmo do roteiro: porque a turbina tem que ser justamente do avião da mãe do Donnie? Por que ele tem que morrer? Para salvar todos os outros? Nem mesmo essa obrigatoriedade fica completamente explicitada.
Quando um objeto metálico vem do futuro, cria-se um Universo Tangente, sendo necessário alguém ("o receptor") enviar o tal objeto. Para que tudo fique certo. E se o objeto vier de um futuro muito distante? Teoricamente isso é possível, mas com certeza o receptor já estaria morto quando o dia do fim do universo chegar. E se for uma pessoa que passar pelo buraco (teoricamente possível)? E se a viagem temporal for feita do passado para o futuro, como ficamos? São esses milhões de questionamentos que acabam surgindo e que estragam a diversão do filme. Muito mais perguntas que respostas não é um bom indício.
E o que significa Cellar Dorr, a "mais bela expressão da lingua inglesa"? Que diabos que a personagem interpretada por Drew Barrimore queria dizer? Tal expressão é conhecida como a mais bela combinação de palavras da língua inglesa, justamente por também conter uma quantidade imensa de anagramas, como "Local order", "Dollar Core", "Colder Oral", "Cello Ardor", e "Red Corolla". Não conegui encontrar nenhuma explicação plausível para a inclusão da frase, que pode tanto significar a porta da casa da velha doida, a.k.a Roberta Sparrow, assim como pode ser uma metáfora para a busca interior de Donnie pelo sentido da vida, assim como fazem alguns autores pela busca de anagramas perfeitos. Eu me questiono - e daí? Isso é interessante? No final das contas, pareceu mais um conceito adicional, na tentativa de enriquecer o roteiro, ou desviar a atenção das loucuras físicas existentes em tal universo.
Seria realmente injusto se não percebesse, também, a possibilidade de uma viagem esquizofrênica próxima do momento da morte, o que explicaria a maioria dos paradoxos sem sentidos, assim como naqueles sonhos estranhos que nós temos (confesso que já tive um pesadelo auto-explicativo sobre Álgebra Linear). Infelizmente, o filme em questão não dá o menor indício disso, e o livro da Roberta Sparrow que o diretor/roteirista resolveu disponibilizar no site oficial é uma prova de que não se trata disso. Ainda assim, essa possibilidade não incluída me parece ser a mais interessante. No entanto, admito que posso estar redondamente engandado e que os conceitos físicos não são nem um pouco importantes para o filme e, portanto, não entendi nada. E não é esse o título dessa parte do post? Até agora, creio piamente que não entendi qual é a proposta do filme, e se alguém conseguir, por favor me expliquem. Todos os comentários serão bem vindos.
Além disso, posso ser criticado por ter me aprofundado por demais nos conceitos abstratos do filme, sem me deixar levar pelos aspectos emotivos e psicológicos, que são bem mais interessantes. Num filme como Táxi, por exemplo, que dei a mesma cotação de Donnie Darko, surpreendentemente, imagino que utilizei o mesmo método. O grau de complexidade do roteiro de Táxi é praticamente nulo, e tal filme funciona por algumas razões e deixa de funcinoar por outras. No caso de Donnie Darko, um filme sobre conceitos realmente complexos, como viagens futurísticas amparadas por anomalias da física, é mais que justo pensar um pouquinho sobre os paradoxos contidos e mal-explicados do filme (por isso, dediquei a maior parte do post tentando expô-los) e assim me decidir se gosto ou não dele.
É uma pena que, no caso de Donnie Darko, um filme sobre psicologia juvenil, fardos muito pesados e sentimentos (sem devaneios físicos), imagino que fosse possível apreciá-lo imensamente.
Ele era pop
E isso é ruim?
Quando alguém vive muitos anos, e sua vida é cheia de plenas realizações, uma morte por causas naturais deveria ser celebrada, pois a pessoa em questão será recompensada com o fim do mistério da vida, e seu nome ficará guardado na mente de tantos outros homens.
Finalmente, o sofrimento se desfez.
Quando alguém vive muitos anos, e sua vida é cheia de plenas realizações, uma morte por causas naturais deveria ser celebrada, pois a pessoa em questão será recompensada com o fim do mistério da vida, e seu nome ficará guardado na mente de tantos outros homens.
Finalmente, o sofrimento se desfez.
Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) - Paris, amor, conversas e mais conversas
Antes do Pôr do Sol (Before Sunset)
★ ★ ★ ★ ★
Dirigido por Richard Linklater. Escrito por Richard Linklater e Kim Krizan (personagens e história) e por Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy (roteiro). Com Ethan Hawke e Julie Delpy. Estados Unidos, França. 2004.
Após a invenção e consolidação da famigerada comédia romântica, pouco foi feito no sentido de criar filmes com belas histórias de amor, que sejam inteligentes e vastos de conteúdo. Felizmente, eis que aparece este Antes do Pôr do Sol, um romance sem um único beijo na boca.
É a continuação de um filme que, por uma desventura do destino, ainda não pude conferir: Antes do Amanhecer (Before Sunrise), que narra o primeiro encontro de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), e a eventual paixão que toma conta de seus seres. Já Antes do Pôr do Sol se passa nove anos depois, durante o lançamento do livro de Jesse em Paris, que conta a história do encontro do casal. Celine aparece, então, durante a coletiva de imprensa, e os dois decidem dar um promenade em Paris, a fim de conversarem sobre o que cada um andou fazendo durante os nove anos.
Antes do Pôr do Sol é um diálogo de quase 80 minutos. Durante todo o tempo do filme, Jesse e Celine conversam, conversam e conversam. Os diálogos variam do casual:
ao político:
uma vez que Celine passa a trabalhar em uma ONG e conta sua luta engajada pelos direitos humanos. Aliás, a garota é uma simpatia e a química entre ela e Ethan Hawke é perfeita. Note que, no início da conversa, ambos sentem-se felizes ao se reencontrarem, mas visivelmente embaraçados. O filme retrata, então, o re-conhecimento da dupla - e nós temos o privilégio de assistirmos isso em tempo real.
A direção é excelente. Fazer um filme em tempo real é absurdamente trabalhoso e transparecer essa noção com realismo é uma proeza da técnica (mesmo que com um propósito curiosa e absolutamente diferente de Festim Diabólico de Hitchcock), algo que o diretor Richard Linktaler demonstra possuir. Ademais. os longos planos do promenade demonstram a extrema competência não só do diretor como o do casal de atores, ambos também excelentes em suas performances. Até parece que estão improvisando suas falas, algo que acredito não ter acontecido, pela estrutura bem organizada do roteiro. No momento em que Jesse toma uma liberdade com Jesse (na cena do banco do parque), ambos sentem-se desconfortáveis. Nesta cena, o ator Ethan Hawke faz um movimento com o braço, como se fosse abraçar a Celine, mas rapidamente desiste do movimento. Esse tipo de sutileza por parte do diretor e dos atores enriquece o filme.
Felizmente, o roteiro também está a altura de todos os outro méritos (ou seria o contrário?). A maneira que a história é conduzida em momento algum soa forçada ou anti-realista. É, sim, comovente presenciar o encontro de duas pessoas que se apaixonaram e, por uma armadilha do destino, não possam compartilhar suas vidas juntos.
A maravilhosa Julie Delpy também assina as três canções originais da trilha. A atriz tem uma bela voz que rende o momento mais sublime do filme, que eu não posso dizer qual é, para não estragar a surpresa (MAS O AMIGO IMAGINÁRIO DO FILME O Amigo Oculto É O PAI DA GAROTINHA, É O ROBERT DE NIRO!!! PASSEM LONGE DESSE FILME!!!).
Terminando na hora certa, Antes do Pôr do Sol nunca se torna enfadonho, pela riqueza dos diálogos, pela bela fotografia de Paris, pela atuação dos atores, pela excelência da direção... só tenho elogios. Enfim, este (ao lado de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças que também brilhou em 2004) constitui um exemplo de filme romântico dos mais interessantes e menos "melosos", com uma posição de honra na história do gênero.
Após a invenção e consolidação da famigerada comédia romântica, pouco foi feito no sentido de criar filmes com belas histórias de amor, que sejam inteligentes e vastos de conteúdo. Felizmente, eis que aparece este Antes do Pôr do Sol, um romance sem um único beijo na boca.
É a continuação de um filme que, por uma desventura do destino, ainda não pude conferir: Antes do Amanhecer (Before Sunrise), que narra o primeiro encontro de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), e a eventual paixão que toma conta de seus seres. Já Antes do Pôr do Sol se passa nove anos depois, durante o lançamento do livro de Jesse em Paris, que conta a história do encontro do casal. Celine aparece, então, durante a coletiva de imprensa, e os dois decidem dar um promenade em Paris, a fim de conversarem sobre o que cada um andou fazendo durante os nove anos.
Antes do Pôr do Sol é um diálogo de quase 80 minutos. Durante todo o tempo do filme, Jesse e Celine conversam, conversam e conversam. Os diálogos variam do casual:
Celine: Do I look any different?
[longa pausa]
Celine: I do?
Jesse: I'd have to see you naked.
ao político:
Celine: An imperialist country can use that kind of thinking to justify their economic greed, you know. I - human rights ...
Jesse: Is there any particular imperialist country you have in mind, there, Frenchie?
Celine: Mmm, no, not really...
uma vez que Celine passa a trabalhar em uma ONG e conta sua luta engajada pelos direitos humanos. Aliás, a garota é uma simpatia e a química entre ela e Ethan Hawke é perfeita. Note que, no início da conversa, ambos sentem-se felizes ao se reencontrarem, mas visivelmente embaraçados. O filme retrata, então, o re-conhecimento da dupla - e nós temos o privilégio de assistirmos isso em tempo real.
A direção é excelente. Fazer um filme em tempo real é absurdamente trabalhoso e transparecer essa noção com realismo é uma proeza da técnica (mesmo que com um propósito curiosa e absolutamente diferente de Festim Diabólico de Hitchcock), algo que o diretor Richard Linktaler demonstra possuir. Ademais. os longos planos do promenade demonstram a extrema competência não só do diretor como o do casal de atores, ambos também excelentes em suas performances. Até parece que estão improvisando suas falas, algo que acredito não ter acontecido, pela estrutura bem organizada do roteiro. No momento em que Jesse toma uma liberdade com Jesse (na cena do banco do parque), ambos sentem-se desconfortáveis. Nesta cena, o ator Ethan Hawke faz um movimento com o braço, como se fosse abraçar a Celine, mas rapidamente desiste do movimento. Esse tipo de sutileza por parte do diretor e dos atores enriquece o filme.
Felizmente, o roteiro também está a altura de todos os outro méritos (ou seria o contrário?). A maneira que a história é conduzida em momento algum soa forçada ou anti-realista. É, sim, comovente presenciar o encontro de duas pessoas que se apaixonaram e, por uma armadilha do destino, não possam compartilhar suas vidas juntos.
A maravilhosa Julie Delpy também assina as três canções originais da trilha. A atriz tem uma bela voz que rende o momento mais sublime do filme, que eu não posso dizer qual é, para não estragar a surpresa (MAS O AMIGO IMAGINÁRIO DO FILME O Amigo Oculto É O PAI DA GAROTINHA, É O ROBERT DE NIRO!!! PASSEM LONGE DESSE FILME!!!).
Terminando na hora certa, Antes do Pôr do Sol nunca se torna enfadonho, pela riqueza dos diálogos, pela bela fotografia de Paris, pela atuação dos atores, pela excelência da direção... só tenho elogios. Enfim, este (ao lado de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças que também brilhou em 2004) constitui um exemplo de filme romântico dos mais interessantes e menos "melosos", com uma posição de honra na história do gênero.
Quer dizer, eu assistia... infelizmente acabou a 5a. edição do programa, que foi tão boa quanto a anterior, com um surpreendente crescimento de público. Não que isso signifique alguma coisa. Senhora do Destino foi a novela global mais vista nos últimos tempos e, ainda assim...
Big Brother Brasil 5
★ ★ ★ ★ ★
Dirigido por Boninho. Roteiro de Boninho e equipe. Com Jean Willis, Tati Pink, Grazielle Massafera, Sammy Ueda e outros. Brasil. 2005.
Sou um telespectador assíduo do reality show. Assisti a todas as 5 edições, quase que diariamente. E, o mais importante, não tenho a menor vergonha de dizer que gosto do programa, discuto em voz alta na faculdade, no ônibus, na fila do banco, etc. - se alguém estiver disposto a falar dele também, of course. O mais engraçado é a reação de algumas pessoas frente ao meu gosto, um tanto duvidoso, segundo elas. "O quê, você assiste essa porcaria?", dizem (o detalhe é que a maioria delas viu um ou outro "episódio" e já se acham no direito de julgar a qualidade do programa). E quando elas sabem que eu sou um amante da música clássica, dizem: "Você freqënta a Sala São Paulo e assiste ao Big Brother? Como pode?", como se fossem coisas paradoxalmente antagônicas (ainda bem que existem pessoas como a minha amiga Denise Mayumi Cobayashi, que também faz as duas coisas).
Big Brother Brasil 5
★ ★ ★ ★ ★
Dirigido por Boninho. Roteiro de Boninho e equipe. Com Jean Willis, Tati Pink, Grazielle Massafera, Sammy Ueda e outros. Brasil. 2005.
Sou um telespectador assíduo do reality show. Assisti a todas as 5 edições, quase que diariamente. E, o mais importante, não tenho a menor vergonha de dizer que gosto do programa, discuto em voz alta na faculdade, no ônibus, na fila do banco, etc. - se alguém estiver disposto a falar dele também, of course. O mais engraçado é a reação de algumas pessoas frente ao meu gosto, um tanto duvidoso, segundo elas. "O quê, você assiste essa porcaria?", dizem (o detalhe é que a maioria delas viu um ou outro "episódio" e já se acham no direito de julgar a qualidade do programa). E quando elas sabem que eu sou um amante da música clássica, dizem: "Você freqënta a Sala São Paulo e assiste ao Big Brother? Como pode?", como se fossem coisas paradoxalmente antagônicas (ainda bem que existem pessoas como a minha amiga Denise Mayumi Cobayashi, que também faz as duas coisas).
Então, por que as pessoas auto-proclamadas cultas não gostam do Big Brother? Por que os intelectuais de plantão torcem o nariz? A primeira coisa que me vem a cabeça ao responder essa pergunta é que o programa é conhecido por uma acentuada falta de cultura. Tirando o Jean, o grande vencedor da última edição, nenhum dos brothers até então ficaram conhecidos por seus vastos conhecimentos culturais, lingüísticos ou suas grandes aptidões intelectuais. Então, talvez, para essas pessoas, a única forma de entretenimento válida é aquela que envolve conhecimento cultural.
Embora concorde com essas pessoas que o Big Brother não é lá fonte de cultura nenhuma, não consigo entender porque elas insistem que apenas o conhecimento cultural é importante. Ora, para "adquirir" cultura, eu leio revistas, livros jornais, ouço músicas, vou ao cinema, teatro, salas de concerto, etc. E para adquirir conhecimento social, visto que não sou nenhum sociólogo, o que faço? O Big Brother é um campeão televisivo por ser um dos poucos programas que buscam analisar o comportamento humano, e toda sua estrutura está voltada para a formação de uma micro-sociedade, de certa forma, representativa da extensa fauna humana brasileira, uma vez que é mantida uma proporcionalidade de representantes de cada região do país.
Com isso, embora não aprendamos com os brothers sobre literatura ou física, conhecemos um pouco mais sobre a peculiaridade das regiões mais afastadas de nossa realidade. Contudo, o mais importante (e intertessante) é o conhecimento social. Ao confinar 14 particpantes numa casa, o programa cria uma mini-sociedade, sujeita a regras ou convenções sociais (algumas diferentes da sociedade externa, diga-se de passagem - e que não diminui o mérito de suas intenções) e, o mais surpreendente, cria o conceito de "morte social" ao eliminar um participante por semana. A dinâmica da competição alimenta todo tipo de reação humana, das mais triviais, como formar grupos de amizade, ou "afinidade", até as mais anti-éticas, com a utilização da coação para corroborar metas.
Ademais, o programa não só exibe uma nova realidade, a que está diante de nossos olhos, como também revela o comportamento da sociedade em que está inserido - em nosso caso, a brasileira. Por exemplo, ao contrário da sociedade americana, que adora complôs, aqui este comportamento é condenado - basta observar os índices de reprovação dos participantes que adotaram essa tática no último programa. É mais ou menos o que aconteceu com Fernando Collor, que foi expulso pela nação quando ela soube explicitamente o que o ex-presidente havia feito com nosso dinheiro. Infelizmente, para a nossa nação, é preciso ver para crer, e o Big Brother Brasil acaba sendo uma metáfora política, ainda que não tão sutil.
Outro dado revelador que o reality show evidencia é como as pessoas gostam de julgar as outras. Por menor que seja a falta cometida por um dos brothers, eles já estão sendo tachados de "falsos" ou "egocêntricos". "Tal personagem adora aparecer". Obviamente, não há culpados, uma vez que foi selado um pacto entre confinado e telespectador, julgado e julgador, ao haver a concordância da exposição. É curioso, portanto, observar como as pessoas da nossa sociedade julgam possuir um conhecimento da natureza humana acima da realidade, ao comentar e criticar todas as atitudes dos confinados, como se fossem deuses.
E se você não está nem um pouco interessado nas repercussões sociais que o programa estabelece em sua dinâmica, por que não admirar o belíssimo trabalho de edição? Selecionar o que vai para o ar nos compactos não é uma das tarefas mais fáceis, admitamos. O mais difícil, entretanto, é dar um ar de linearidade ao programa, que é sempre imprevisível. Como foi dito pelo apresentador Pedro Bial, ao terminar o processo de seleção com as entrevistas dos canditados, é impossível imaginar o que vai acontecer, uma vez que a química entre os participantes é que determina o futuro do programa. Assim, o trabalho da edição consiste em transformar o caos em novela. Nessa 5a. edição, foi criado uma série entitulada de "Os Inacreditáveis", inspirada no excelente filme da Pixar Os Incríveis, graças à dinâmica exercida por um grupo que utilizava de coação e outros meios um tanto duvidosos para formar uma panela maior, esquecendo completamente que estavam sendo vistos e julgados. Ao criar uma série de vilões e super-heróis, os editores acabaram por reinventar o programa, ao explicar os acontecimentos da semana de forma leve e bem-humorada (principalmente quando um d'Os Defensores vencia o paredão de um d'Os Inacreditáveis - as esquetes animadas eram especialmente divertidas).
Outro aspecto técnico a ser chamado a atenção é a trilha sonora, sempre competente. Lembro-me, por exemplo, de um programa em que foram abordados aspectos sobrenaturais possivelmente presentes na casa (lâmpadas se apagavam do nada, sons estranhos, etc.). Ao fundo, a famosa Danse Macabre, de Camille Saint-Säens, construía o clima perfeito que a "cena" exigia. Por outro lado, os temas "românticos" são sempre muito acertados. No Big Brother Brasil 4, o tema de Cida e Thiago era Someone to Watch Over Me, de George e Ira Gershwin, enfatizando o clima de amizade e protecionismo da dupla que cativou o público. No BBB5, após as primeiras referências à analogia entre o casal Grazi e Alan e os ogros Shrek e Fiona, a produção, esperta, foi logo atrás do tema do filme, It Is You (I Have Loved), na bela voz de Dana Glover, que lembra surpreendentemente Cèline Dion. Escolha mais acertada, impossível.
Por fim, o aspecto mais importante é o entretenimento em si. A fórmula simplesmente não funcionaria se o programa não fosse capaz de cativar o telespectador. E sim, é fácil reconhecer que o Big Brother é mestre nisso. Talvez seja até justo acusar a edição de maniqueísta, mas o fato é que, ao final do programa, é impossível não deixar de torcer para os "personagens". Quem não gosta de ver desenrolar uma bela amizade, ou uma história de amor? No final, acabamos sensibilizados por tais demonstração de afeto e sentimentalismo, e passamos a nos importar com os moradores. Essa talvez é a maior virtude do programa. Falando do BBB5, foi simplesmente comovente as demonstrações de amizade entre os participantes Pink (minha favorita), Jean e Grazi, e particularmente emocionante (e doloroso de assistir) o paredão entre Jean e Pink. Percebe que acabamos nos importando?
Já ia esquecendo também de comentar a atuação do apresentador Pedro Bial. Cada vez mais à vontade, o jornalista apresenta grande aptidão ao improviso e se comunica muito bem com os brothers, sendo um personagem à parte do programa que, de resto, pode ser encarado, também, como uma diversão despretensiosa de ares comicamente voyeurísticos. Além disso, a naturalidade da micro-sociedade acaba provocando momentos de intensa hilariedade. Nunca poderei esquecer o momento em que a frentista Solange, do BBB4, começou a cantar Iarnuou, e a edição apropriadamente colocou a letra em forma de karaoke, numa demonstração de competência ímpar da direção de Boninho, um dos responsáveis pelo crescimento da aceitação do reality show.
Extremamente divertido e agradável, longe de ser uma baixaria ou ode a bizarrices, o Big Brother Brasil deve ser apreciado pelo que ele é. E que venham mais e mais edições, pois pretendo assistir a todas elas.






















