Assisti novamente nessa sexta, antes de poder comprar o 6o. livro. Foi muito mais divertido, só tinha fãs na sala, foi aquela gritaria... Só louco mesmo para curtir aquela bagunça. Agora, analisando friamente:
Harry Potter e o Cálice de Fogo
★ ★ ★ ★
Mike Newell
Harry Potter and the Goblet of Fire. Estados Unidos/Inglaterra, 2005
Numa abordagem comparativa, "...e O Cálice de Fogo" é uma mutilação descomunal ao livro. Ficaram de fora seqüências inteiras e personagens importantes, levando-me a questionar os rumos que o próximo diretor, David Yates, dará a série, visto que alguns conceitos importantes para o futuro da saga eram sedimentados no quarto livro, coisa que o roteirista Steven Kloves não demonstrou ter a menor preocupação (talvez porque ele esteja saindo fora do quinto filme). O fato é que a quantidade de cortes causa um certo incômodo para quem conhece a obra de cabo a rabo, como eu.
Isso pode parecer um pouco ortodoxo. O fato é que não me incomodo com os cortes, desde que eles não prejudiquem a trama (ou o futuro da mesma). Por exemplo, os Dursleys e os elfos domésticos (incluindo o F.A.L.E. da Mione) não aparecem, o que não é nenhum problema. Já a ausência da partida de quadribol inicial ocorreu em virtude dos cortes orçamentários, mesmo com os gastos estimados em US$ 140 milhões. Mas cortar algumas cenas chaves como o encontro entre Sirius e Snape, ou o fato de a Rita Skeeter ser animago (fundamental para a quinta parte) é algo com que David Yates terá que se requebrar para resolver tais impasses.
Por outro lado, o diretor Mike Newell imprime em sua edição um ritmo frenético, dando a impressão que o filme é mais curto do que seus 157 minutos. O problema real desse quarto filme não é o que se passa na tela, mas sim o que falta passar. Toda a condução de Mike Newell é admirável, oscilando entre humor e suspense sem deixar cair a peteca em nenhum momento. Aproveitando a mesma geografia da escola deixada por Alfonso Cuarón, Newell confere a Hogwarts aquela atmosfera de colégio interno em que os estudantes (leia-se figurantes) podem ser sempre vistos interagindo com os outros, o que demonstra um cuidado com os detalhes que tanto faltava a Chris Columbus. Ao mesmo tempo, o diretor aproveita todo o potencial cinematográfico do livro que eu já havia falado há algum tempo atrás, alongando cenas como a do 1o. desafio do torneio ou investindo no inusitado para gerar comédia, como numa cena envolvendo o Snape e várias pedaladas.
O que deixa cada vez a série mais interessante: é sempre bom ver variações de temas e olhares com a inclusão de um diretor diferente a cada volume. Felizmente, nenhuma das incursões mostrou-se realmente infeliz (embora o trabalho de Chris Columbus seja constantemente desprestigiado). Mike Newell acaba com os resquícios de filme infantil (se é que sobrou algum depois do mexicano), apresentando os dilemas e conflitos vividos pelo personagen principal com bastante propriedade - e, até mesmo consegue supreender.. Basta dizer que as cenas finais assustam e comovem até mesmo quem conhece de cor todos os acontecimentos. Isso sim é magia.
Infelizmente, alguns pontos são mal contados. Analisando somente o filme, fica difícil compreender como o vilão agiu, e seu destino nunca é mostrado, além do que existe um certo esquematismo do roteiro que acaba com o suspense do filme. Ora, pessoa-que-não-leu-o-livro, é muito fácil você descobrir quem é o vilão misterioso. Menciona-se a Poção Polissuco logo na metade do filme pela maravilhosa, divertida e safada Murta Que Geme, numa cena memorável. Quem é o personagem que aparece sempre bebendo um gorozinho? Bingo! Ao mesmo tempo, a atuação totalmente caricata da Emma Watson incomoda. Parafraseando minha amiga Kalynka Nigg, ou ela aparece gritando, ou falando em sussuros, numa atuação à la Débora Secco, sempre caprichando nas caretas em CADA cena. Por outro lado, Daniel Radclife está cada vez mais à vontade no seu papel (que também está ficando progressivamente mais complexo), além da bela abordagem da sua amizade com Rony, vivido com mais sutileza (felizmente!) por Rupert Grint.
Aliás, a série Harry Potter tem a proeza de reunir a maior quantidade de atores bons da Ingaterra. Imagino que, até o fim da série, todos os notórios ingleses já deverão ter aparecido. Neste, destaca-se a nova presença de Brendan Gleesen como Moody e Miranda Richardson na divertida fofoqueira e jornalista Rita Skeeter. Além do mais, não vou perder meu tempo falando das excelentes presenças de Michael Gambon, Robbie Coltrane, Maggie Smith, Alan Rickman & Cia., pois ficar elogiando-os novamente é mera redundância. Não podia deixar de falar, contudo, em Ralph Fiennes encarnando Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, no clímax do filme. O ator aparece numa representação física fascinante do vilão-mor da saga, causando uma forte impressão na tela nos poucos minutos em que aparece.
Por fim, é uma pena que "... e O Cálice..." não tenha superado ainda o "... e o Prisioneiro..." do Cuarón, embora tenha faltado muito pouco (faltaram alguns minutos de projeção também, para que isso ocorresse). Infelizmente, dessa vez não pude dar as Cinco Estrelas que a história merecia. De qualquer forma, é sempre bom saber que a série não está em mãos erradas, e que o futuro da mesma parece promissor. Difícil é ter que aguardar até 2007 para poder conferir o trabalho de David Yates.





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