IMHO

Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães


Sem mais delongas:

Filme 4
Manderlay

Lars Von Trier
Idem. Dinamarca / Suiça / Holanda / França / Alemanha / Estados Unidos, 2005.



Von Trier realmente não tem medo de se tornar a persona non grata dos Estados Unidos. Após o ácido Dogville, filme feito em resposta à indignação dos americanos com o belíssimo Dançando no Escuro, o diretor dinamarquês continua sua saga chamada "Estados Unidos - Terra das Oportunidades" e, finalmente, nos apresenta ao filme de ponte, o segundo da trilogia.

Manderlay trata da visita de Grace, após os desastrosos eventos acontecidos em Dogville, a uma fazenda chamada Manderlay. A bondosa garota descobre, estarrecida, que ainda existem escravos, mesmo após a abolição ter acontecido 70 anos antes. Decidida a acabar com aquele mal, ela convence o pai a deixar uma parte dos gângsters lá e começa uma revolução social na fazenda.

Von Trier revela sua vocação para arquiteto. Sua trama é construída aos poucos, com cuidado, revelando paulatinamente o arsenal de crueldades ao qual a sociedade americana, de uma forma ou outra, tratou seus negros. Sua obra acaba lembrando Comte-Sponville, ainda que às aversas: o dinamarquês resgata primeiro os princípios morais aos quais nós estamos acostumados, para depois desconstruir a lógica de sua argumentação, concluindo que a imoralidade contida em seu roteiro é mesmo fruto da História - e essa, infelizmente, imutável e irremediável.



Mais uma vez, os óbices enfrentados por Grace são decorrentes de sua personalidade. Talvez o grande defeito da garota é que ela seja humana demais. Para nosso deleite, às vezes ela se cansa de sua humanidade superior, e volta ao plano dos reles mortais. Bryce Dallas Howard (a cegueta de A Vila), quase 15 anos mais nova que Nicole (mas isso não é problema, ela continua sendo a mesma Grace), encarna com perfeição o choque ao descobrir a natureza humana de seu próprio país.

Von Trier finaliza seu filme com a famosa sequência de fotos, com "Young Americans" tocando, não sem antes resgatar o dilema que motiva seu filme. Afinal, se a mão da oportunidade foi estendida, a culpa não é de quem não soube aproveitá-la? Não é coincidência que a primeira de suas fotos é de um grupo do KKK.

Agora é só esperar mais dois anos por Wasington e o fim da trilogia.

Filme 5
Seven Swords

Tsui Hark
Idem. Coréia do Sul / Hong Kong / China, 2005


Grande decepção da noite. Eu costumava endeusar o cinema chinês mas, depois desse fiasco, vi que existe filme ruim em qualquer lugar.

A China se vendeu a Hollywood? Ao que parece, sim. História sem pé nem cabeça, surgida de um argumento histórico - o rei de alguma daquelas dinastias antigas, não lembro se era Qin, Xin, Jin, Ming ou Ling, decretou ser proibida as artes marciais, e quem as praticasse seria decapitado. A partir daí, surge um bando de maníacos que, a mando do rei, sai cortando a cabeça de todo mundo que não pagar uma certa quantia. As bizarrices começam quando os "heróis" do filme vão a uma montanha que existem 7 espadas, cada uma com um poder especial (riam, riam). Então, os Power Rangers chineses passam as próximas duas horas combatendo o mal e salvando a vila dos decrépitos seres decapitadores.

Em determinado momento da trama, algum dos portadores das espadas fala "Temos que ver o nascer do sol". Então eles vão ver o nascer do sol, numa tomada cuja pretensão de parecer bonita é suplantada pela direção burocrática. Filme sem o menor senso de estilo, o diretor Tsui Hark parece que dá tiro para todos os lados, com uma montagem frenética, enquanto a história (?) é sempre deixada para último plano. Aliás, depois de uma sucessão de cortes de cabeça, a violência estilizada anestesia o espectador que, sem encontrar algo de interessante no roteiro nem envolvimento com os personagens, desencanta-se com a falta de conteúdo e significados.

Certo, talvez eu esteja sendo um pouco duro. Alguém poderia argumentar que as pretensões do diretor limitar-se-iam a criar um épico cheio de lutas de kung fu, diferentemente dos trabalhos de Ang Lee e Zhang Yimou (que eleva as Artes Marciais à categoria de Arte). Paciência. Tenho o direito de não gostar desse tipo de cinena. Por isso, dormi durante a projeção e ainda saí antes do fime, já que era quinze para às doze, ainda faltava quase uma hora para o fim - e ainda teria aula no dia seguinte. Portanto, fiz uma análise de decisão, cujo resultado foi: SAIA DAQUI AGORA! O que são as ferramentas de pesquisa operacional, não é mesmo, minha gente?

Ah, Tsui Hark já dirigiu filmes com o Van Damme. Acho que não estou sendo tão injusto, no final das contas.

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A propósito - deixei um pouco a mostra de lado. De programação futura, por enquanto, só pretendo ver o-filme-mais-aguardado-de-todos 2046, do Kar-Wai. Saudações a todos.

1 Comentários de “Eu e a Mostra (parte III)”

  1. # Anonymous Aian Cotrim

    Grande Botas! Só os seus comentários para saciar um pouco minha sede por filmes novos... O seu cuidado em fazê-los é tão grande quanto a sua sanha. Vou de carona nessa onda, morrendo de inveja dos seus festivais! rsrsrs

    Abraços e boas sessões pra vc aí em sampa!  

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