Whisky
★ ★ ★ ★ ★
Juan-Pablo Rebella e Pablo Stoll
Whisky. Uruguai/Argentina/Alemanha/Espanha, 2004
Whisky, ao contrário do que o nome parece sugerir, não é uma "comédia etílica" como consta o post sobre Sideways. O Whisky do título é a palavra que os uruguaios (o filme se passa no Uruguai) dizem ao tirar uma foto (o "xis" do brasileiro). É a palavra dos sorrisos falsos, da ausência de significados que uma fotografia - que não retrata nada além da vil aparência - pode retratar.
Acompanhando a saga dos anti-heróis, o filme de Rebella e Stoll gira em torno de Jacobo (Andrés Pazos) - velho, judeu, solteiro, lacônico, mão-de-vaca, desprezível - dono de uma fábrica de meias; e Marta (Mirella Pascual), sua prestativa funcionária (que tem um crush on Jacobo). A relação de longos anos, limitada a patrão-empregada, mudará quando o irmão de Jacobo, Herman (Jorge Bolani), também dono de fábrica de meias, retorna ao Uruguai depois d emuito tempo (ele mora no Brasil). Jacobo "pede" para que Marta finja que é sua esposa por poucos dias - e as aspas na palavra "pede" explica-se pelo uso limitado das palavras, e da compreensão imediata de Marta, que aceita.
Aliás, a caracterização do personagem Jacobo é feita basicamente sem o uso de palavras (o que me fez lembrar do também excepcional As Bicicletas de Belleville). Os cineastas, através de uma edição precisa, estabelecem três ou quatro vezes a mesma sequência, modificiando apenas o figurino dos personagens, de modo a retratar o cotidiano insípido que Jacobo e Marta estão submetidos. Essa linguagem visual é o grande trunfo do filme uruguaio, uma vez que a busca pelo uso restrito das palavras é acompanhada pela captação dos gestos e ações como construtores da personalidade, mais do que os aspectos psicológicos evidenciados pelas conversas ausentes.
Analisemos, pois, alguns elementos do filme. O primeiro deles surge naturalmente, é a postura de subserviência da mulher (Marta), ao chefe. A relação silenciosa que impera entre ambos (subtendidos longos anos) não pode ser encarada como meramente factual. O silêncio-solidão de Jacobo pode ser explicado pelo sofrimento que passara com a mãe doente, até o óbito da mesma, embora o filme distancie-se (com razão) deste fato. Já a possível fixação de Marta gera estranheza, mas a duradoura relação de confiança e servidão de longos anos (expressa habilmente nas tomadas repetidas), assume-se, é o motor para a sutil insinuação de sentimentos da funcionária
A narrativa de Whisky não busca redimir Jacobo pelo romance, por não fazer parte da realidade do personagem. Assim, o final abrupto, a repetição dessa vez marcada pela ausência de Marta, pode soar como cinismo, mas para mim soa coerente. Marta, abonada, é libertada por sua proximidade com Jacobo. Dentro da ótica de Jacobo, é o equivalente a um gesto de amor.
Assim, é de admirar que personagens tão complexos e interessantes, ainda que desagradáveis, venha a surgir num filme repleto de silêncios. É o cinema mostrando novamente que uma imagem (mais precisamente, um olhar aguçado, astuto e crítico) vale mais que mil palavras.
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Juan-Pablo Rebella e Pablo Stoll
Whisky. Uruguai/Argentina/Alemanha/Espanha, 2004
Whisky, ao contrário do que o nome parece sugerir, não é uma "comédia etílica" como consta o post sobre Sideways. O Whisky do título é a palavra que os uruguaios (o filme se passa no Uruguai) dizem ao tirar uma foto (o "xis" do brasileiro). É a palavra dos sorrisos falsos, da ausência de significados que uma fotografia - que não retrata nada além da vil aparência - pode retratar.
Acompanhando a saga dos anti-heróis, o filme de Rebella e Stoll gira em torno de Jacobo (Andrés Pazos) - velho, judeu, solteiro, lacônico, mão-de-vaca, desprezível - dono de uma fábrica de meias; e Marta (Mirella Pascual), sua prestativa funcionária (que tem um crush on Jacobo). A relação de longos anos, limitada a patrão-empregada, mudará quando o irmão de Jacobo, Herman (Jorge Bolani), também dono de fábrica de meias, retorna ao Uruguai depois d emuito tempo (ele mora no Brasil). Jacobo "pede" para que Marta finja que é sua esposa por poucos dias - e as aspas na palavra "pede" explica-se pelo uso limitado das palavras, e da compreensão imediata de Marta, que aceita.
Aliás, a caracterização do personagem Jacobo é feita basicamente sem o uso de palavras (o que me fez lembrar do também excepcional As Bicicletas de Belleville). Os cineastas, através de uma edição precisa, estabelecem três ou quatro vezes a mesma sequência, modificiando apenas o figurino dos personagens, de modo a retratar o cotidiano insípido que Jacobo e Marta estão submetidos. Essa linguagem visual é o grande trunfo do filme uruguaio, uma vez que a busca pelo uso restrito das palavras é acompanhada pela captação dos gestos e ações como construtores da personalidade, mais do que os aspectos psicológicos evidenciados pelas conversas ausentes.
Analisemos, pois, alguns elementos do filme. O primeiro deles surge naturalmente, é a postura de subserviência da mulher (Marta), ao chefe. A relação silenciosa que impera entre ambos (subtendidos longos anos) não pode ser encarada como meramente factual. O silêncio-solidão de Jacobo pode ser explicado pelo sofrimento que passara com a mãe doente, até o óbito da mesma, embora o filme distancie-se (com razão) deste fato. Já a possível fixação de Marta gera estranheza, mas a duradoura relação de confiança e servidão de longos anos (expressa habilmente nas tomadas repetidas), assume-se, é o motor para a sutil insinuação de sentimentos da funcionária
Um docinho pro Jacobo
Duas cenas são bastante reveladoras do caráter de Jacobo. Uma delas é a que, incomodado por um quadro cair da parede, ele decide usar uma furadeira, antes de todos acordarem. A segunda é a cena em que aparece Jacobo encarando uma torta, enquanto seu irmão Herman compra diversas guloseimas. É diante de tal personagem, desprezível e irritante, que os cineastas Rebella e Stoll constroem sua narrativa: além da repetição, um artifício empregado é o jogo de contraposição de cenas - a presença de um casal de jovens apaixonados no hotel torna-se a antítese da amargura de dois velhos que nem casados são. Jacobo, surpreendendo o espectador, parece que se sente incomodado por compartilhar de sua vida com outra pessoa. Assim, seu gesto final, que afasta Marta de vez da sua vida, ou pode soar como o que mais se aproxima da redenção de seu caráter ou significa o verdadeiro distanciamento da humanidade.A narrativa de Whisky não busca redimir Jacobo pelo romance, por não fazer parte da realidade do personagem. Assim, o final abrupto, a repetição dessa vez marcada pela ausência de Marta, pode soar como cinismo, mas para mim soa coerente. Marta, abonada, é libertada por sua proximidade com Jacobo. Dentro da ótica de Jacobo, é o equivalente a um gesto de amor.
Assim, é de admirar que personagens tão complexos e interessantes, ainda que desagradáveis, venha a surgir num filme repleto de silêncios. É o cinema mostrando novamente que uma imagem (mais precisamente, um olhar aguçado, astuto e crítico) vale mais que mil palavras.





TERMINEI!!! Aparece pra gente comentar!!! hehe
Bjim