IMHO

Na humilde opinião de Vinícius Versiani Durães


Up - Altas Aventuras ★ ★
Pete Docter e Bob Peterson. Up. EUA, 2009



O subtítulo brasileiro remete a saudosa "Sessão da Tarde", mas Up é muito mais do que o entretenimento por vezes infantil que tradicionalmente é exibido na grade vespertina da rede Globo. É difícil ser repetitivo com essa história de "o melhor filme da Pixar até agora", porque a cada ano que passa, a produtora de animações parece se superar - foi assim com Os Incríveis, Ratatouille (meu favorito pessoal), Wall-E e, agora, Up. Todos títulos inteligentes e divertidos, cada um com seu charme e certamente já podem ser considerados novos clássicos.

O que Up tem de diferente? Nos primeiros dez minutos, já estava chorando copiosamente, para logo depois estar rindo como um imbecil. Up tem emoções fortes. A trilha sonora de Michael Giacchino, tradicional colaborador do estúdio de John Lasseter e compositor da série LOST, certamente ajuda - ele compôs um leitmotiv especialmente marcante ao remeter o amor e a devoção do senhor Fredricksen à sua falecida esposa. Os personagens são mais vivos do que muitos filmes de "carne e osso". Não podíamos esperar menos da Pixar, mas é impressionante como eles conseguem manter a qualidade ano após ano.

Com as mudanças da regra do Oscar, permitindo 10 indicações na categoria de Melhor Filme, não me surpreenderia mas me alegraria enormemente ver Up sendo nominado. A Pixar merece.



Anticristo ★ ★
Lars von Trier. Antichrist. Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Itália e Polônia, 2009

Lars von Trier é um diretor versátil. Quem diria que o responsável pelo movimento Dogma, cujo objetivo era um cinema desprovido de "truques" como cenário e trilha sonora, produziria filmes tão díspares como um musical (Dançando no Escuro), uma comédia corporativa (O Grande Chefe) e dramas experimentais pesados (Dogville e Manderlay), sem no entanto, perder sua essência, sua persona artística.

Von Trier adiciona ao seu CV o gênero terror, através deste recente "Anticristo". Mas não esperem terror convencional. Um espectador desavisado poderia esperar algo semelhante a "A Profecia" (The Omen) em razão do seu título; não poderia estar mais enganado. O terror de Anticristo é mais causado pela psicologia (ou seria psicopatia?) que pelo sobrenatural. O que assusta é a natureza, principalmente a humana.

O diretor dinamarquês demonstra coragem ímpar com imagens que variam do sublime (a já clássica sequência inicial em que o casal de protagonistas faz sexo ao som da ária "Lascia ch'io Pianga" de Handel) ao chocante (a cena de mutilação sexual feminina). Isso não seria possível sem as performances excepcionais de Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, completamente entregues aos difíceis papéis de "ele" e "ela" (os personagens não tem nomes).

Curioso efeito tem este filme de Von Trier: ao mesmo tempo em que chega a ser desagradável em certas partes, causa uma grata satisfação ao final perceber que algo difícil e inteligente ainda consiga ser realizado, considerando o padrão do cinema atual e seu público.



Arraste-me para o Inferno ★ ★
Sam Raimi. Drag Me To Hell. EUA, 2009

Assistindo a "Arraste-me para o Inferno", cheguei a conclusão que não é a quantidade de situações absurdas que faz um filme de terror ser ruim, o que acontece em grande parte das produções que se aventuram a explorar o gênero. Um dos pontos cruciais que enfraquecem a experiência cinematográfica é a reação dos personagens ao que acontece de surreal. E neste quesito, o filme que marca o retorno de Sam Raimi ao gênero que o consagrou vai além do satisfatório, produzindo um filme divertidíssimo.

"Arraste-me para o Inferno" acaba também se revelando um manual contra as convenções do gênero. Pra começo de conversa, a "heroína" do filme, Christine Brown, está longe de ser a mocinha boba de outras produções de terror: analista de crédito numa instituição bancária, ela nega crédito a uma velhinha cigana, num momento de ambição profissional - mas acaba sendo amaldiçoada pela velha. Christine não pestaneja ao matar seu gatinho de estimação, quando descobre que o sacrifício poderia aliviar da perseguição da "Lamia", ou o próprio dito-cujo. Christine também não hesita em comemorar ao vencer a velhinha maldita em uma luta que se torna cada vez mais absurda e nojenta (dentaduras saindo da boca sempre me causam aversão) - e é com muita satisfação que eu a ouvi proferindo a frase "I won, you old bitch", porque seria exatamente isso que se espera de uma pessoa normal, ainda que em um bizarro contexto sobrenatural. Também, nota-se que as minorias étnicas não são abatidas pelo vilão, coisa mais que comum no terror.

Mas "Arraste-me para o Inferno" vai além: investe em sustos a um intervalo de tempo periódico que provoca no espectador curiosa sensação: nos momentos de "calma", sabemos que receberemos um susto em breve, o que não é muito suficiente para evitá-lo (a menos que você se assuste com o que acontece do seu lado, como quando um pé apareceu do nada ao lado da minha amiga Kalynka). Sam Raimi investe em diferentes "mídias" de susto - a cara assustadora da cigana Sylvia Ganush aparece em lugares inimagináveis. Por outro lado, como um bom "terrir", há momentos hilários de exagero: como as nojentas secreções que insistem em perseguir a boca da pobre Christine, ou quando ela ameaçadoramente procura seu bichano para o abate.

Sam Raimi consegue a proeza de criar um contexto cinematográfico em que faz sentido a personagem Christine jogar uma bigorna na cabeça da velha maldita, a Sylvia Ganush. Quando cenas do tipo não ofendem a inteligência do espectador, o resultado é uma experiência divertida, com um final corajoso e coerente com o próprio título da obra.



Existem vários gêneros no cinema. Comédia, drama, terror, romance, filmedezumbi e filmedetragédia. Roland Emmerich se especializou no último. Responsável por Independence Day e O Dia Depois de Amanhã, ele vem com um novo filme, o 2012, sobre "o fim do mundo", previsto pelo calendário maia, para o referido ano. Bem, o mundo acabou faz tempo para os Maias. Mas Roland decidiu filmar o fim dos tempos, e no trailer acima, é possível ver o Cristo Redentor se despedaçando, o que nos toca especialmente.

Vai ser bom? Vai ser ruim? Não sei, mas o John Cusack é um ator muito bom, embora não seja ator de filme de ação. Só o tempo dirá. Mas não precisaremos esperar até 2012 para saber (ainda bem). O filme estréia dia 18 de Junho nos EUA e somente 13 de novembro no Brasil.

(sim, estamos de volta, aos trancos e barrancos, mas estamos)




Pagando Bem, Que Mal Tem? ★ ★
Kevin Smith. Zack and Miri Make a Porno. EUA, 2008.

Pagando Bem, Que Mal Tem? é o melhor filme quatro estrelas do ano. E é o filme com os cartazes mais legais há muito já visto. Fruto da mente criativa de Kevin Smith, a comédia parte de um argumento mo nímino inusitado: dois amigos, Zack e Miri, decidem fazer um filme pornô para pagar as dívidas. Mais que uma homenagem a um gênero tão subvalorizado, mas tão importante para a humanidade (nem tanto para a 7a. arte), o longa certamente diverte quem não tem problemas com gags envolvendo cenas de sexo e muitos palavrões.

Aliás, a crítica de uma certa revista de circulação semanal afirma que o filme tem cenas de sexo gratuitas. Ora, num filme com o referido título , tal acusação não é só absurda como injusta. Contudo, para os mais incautos, com idade maior que 16 anos (a censura do filme no Brasil), não há nada que assuste - as cenas mais eróticas tendem sempre para o humor.

Kevin Smith gasta bons minutos discutindo o título do pornô do qual os personagens decidem produzir, o que é um prato cheio para as famosas referências cinematográficas, culminando em uma ótima homenagem a Star Wars, do qual é fã. Suas gags dificilmente funcionariam, no entanto, se não fosse a empatia imediata gerada pelos amigos interpretados por Seth Rogen e Elizabeth Banks. É também hilária a curta participação de Justin Long e Brandon Routh.

O filme de Smith é ousado o suficiente a ponto de espantar um público que acha um absurdo a quantidade de "fuck" usados nos diálogos, embora palavrões em filmes brasileiros sejam aceitáveis por fazer parte da nossa realidade sócio-cultural (viva a hipocrisia). Quem não tem problemas com vocabulário de baixo calão e cenas mais apimentadas, certamente se divertirá com as boas sacadas de Smith e até se surpreenderá com a leveza alcançada pelo diretor ao tratar de tão delicado tema, tornando seu filme como algo mais próximo de um pornô que você poderia ver junto com a sua avó, e ainda dar boas risadas.

(Observação - não deixem de ver a curta cena no meio dos créditos)

Spike Jonze fazendo filme infantil? O resultado não será menos de ótimo. Spike Jonze é diretor de maravilhas como Quero Ser John Malkovitch e Adaptação. Where the Wild Things Are é baseado no romance homônimo de Maurice Sendak.

Confira o trailer:




Saffronia ★ ★
Lyambiko. 2008.

Que Nina Simone foi uma cantora maravilhosa e uma grande artista, todo mundo sabe. Uma pianista excpecional, Nina também tinha um timbre de voz muito peculiar, deixando sua marca em diversas canções que acabaram se tornando suas.

Que Lyambiko é uma cantora fantástica, bem, não é muita gente que já sabe disso. Mas eu faço minha parte falando sobre ela quando posso. E quer motivo melhor do que falar sobre o último CD da moça, um tributo às canções imortalizadas por Nina Simone?

Lyambiko e sua banda representam o que há de melhor no jazz. É piano, bateria e baixo, uma guitarra aqui ou ali. Mais do que suficiente. Diferentemente dos seus álbuns anteriores, nos quais ela cantava músicas novas (e que não me agradaram tanto), esse álbum resgata o repertório jazzístico mais conhecido de Nina Simone, incluindo as conhecidíssimas "Don't Let Me Be Misunderstood", "Feeling Good", "My Baby Just Cares For Me", "I Put a Spell On You" e "Ne Me Quitte Pas". Lyambiko seleciona também menos conhecidas (pelo menos por mim) "Don't Smoke in Bed" e a maravilhosa "Four Women", que entitula o álbum - Saffronia é uma das quatro mulheres.

Interpretações inventivas acompanhadas de uma banda eficiente é o que esperamos e recebemos. Mas alguns brindes, como a rara introdução de "My Baby Just Cares For Me" e a citação do piano de Nina, mais o medley da africana "Mawe Mawe" com "I Sing Just to Know That I'm Alive", trazem a certeza que este disco, além de ser uma delícia de ouvir, tem algo de especial.




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